Moradores do "Treme - Treme" recusam-se a ir para o KM44
23-04-2018 | Fonte: Jornal de Angola
Os moradores do prédio número um da Rua Rainha Njinga, vulgarmente conhecido por “Treme-Treme”, recusam a ser realojados na urbanização Quilómetro 44, localizada no município de Icolo e Bengo, por falta de transparência no processo e de condições na zona.

Geovane Victor, morador há 30 anos, disse que a contestação está a ser feita por habitantes do prédio e não por marginais.

“Queremos que o processo seja transparente, porque está viciado e com critérios pouco claros”, apontou Geovane Victor, afirmando que a comissão de moradores não está interessada em resolver o problema da maioria dos moradores e o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação quer desalojar sem um diálogo aprofundado.

Ao lamentar “a falta de transparência no processo de realojamento”, Geovane Victor explicou que “a posição de quem vive no prédio deve-se ao facto de apenas os membros da comissão de moradores, familiares e amigos constarem da lista dos que vão ser transferidos para a centralidade do Cazenga”.

Das 250 famílias, o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação pretende transferir 50 para a centralidade do Cazenga e as demais para o Quilómetro 44, urbanização localizada junto ao novo aeroporto internacional de Luanda, ainda em construção.

“Gostaríamos de perceber como foi feita a selecção e a verdade é que nem o Ministério nos consegue explicar”, declarou Geovane Victor.

A recusa dos moradores seleccionados para viver no Quilómetro 44 aumentou depois de alguns terem visitado, há dias, a urbanização, onde constataram não haver escolas do ensino secundário e médio nem estabelecimentos de saúde.

“Há apenas uma escola do ensino primário”, acentuou Geovane Victor, admitindo que, caso a transferência para aquela urbanização aconteça, os jovens podem parar de estudar, uma vez que não vão poder ir à escola no centro da cidade por falta de transporte e dinheiro.

Aborrecido pela forma como o processo está a ser conduzido, Geovane Victor defendeu que “todos os moradores deviam ser alojados num único local”.

Os moradores estão a criar uma nova comissão para dialogar com o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação, colocando fim ao trabalho da anterior que, segundo eles, negociava para benefício próprio e dos seus familiares.

Geovane Victor referiu que, nesta altura, o grupo de moradores insatisfeitos já constituiu um advogado, que vai ajudar nas negociações com o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação.

Os moradores garantem que “na lista há nomes de pessoas estranhas, que não residem no prédio”. />“Presumimos que haja algum esquema, mas vamos lutar até ao fim, até que reconheçam a legitimidade da nossa contestação”, afirmou Geovane Victor, que disse esperar por novas negociações com o Governo sem mais a presença da anterior comissão.

Há 11 anos a viver no prédio, Adérito Fernandes disse que a palavra “realojamento” é ouvida há mais de 20 anos e que “a actual comissão de moradores nunca foi eleita”.

O morador lembrou que o edifício não é do Estado, mas da SICCAL, que nunca enviou um interlocutor para dialogar com os moradores.

“O edifício não mexe e nunca apresentou sinais de desabamento”, salientou Adérito Fernandes. Adérito Fernandes afirmou que “a selecção de 50 das 250 famílias abrangidas no processo de realojamento para a centralidade do Cazenga” demonstra haver exclusão:

As reuniões anteriores com o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação, de acordo com Adérito Fernandes, nunca abordaram a possibilidade de alguns ficarem alojados na centralidade do Cazenga e outros no Quilómetro 44.

Inicialmente, conta, foram mencionadas as centralidades Zango Zero, Oito mil e Quilómetro 44, mas a última das quais foi recusada pelos moradores, devido à distância e à falta de condições.

“Na altura, o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação alegou que as casas do Zango só estariam prontas dentro de oito meses e nós dissemos que poderíamos esperar”, frisou Adérito Fernandes.

Já Giresse Luvaca, há mais de trinta anos no prédio, admitiu que a lista, apresentada pelo Ministério, tenha sido produzida em conjunto com a comissão de moradores, que privilegiou alguns em detrimento da maioria.

Os moradores informaram que nunca lhes foi apresentada uma data para o desalojamento, mas ouviram pela comunicação social que pode vir a acontecer em Maio.

“Não é verdade que os moradores não querem sair. O que acontece é a falta de transparência, além das dificuldades que os moradores vão ter no Quilómetro 44”, disse Giresse Luvaca.

O morador Yuri Manuel declarou que estão conscientes dos problemas do edifício, que não podem ser mencionadas como a razão para os moradores serem transferidos para uma área distante da cidade de Luanda, prevendo que os que não têm carro próprio venham a desistir de estudar e trabalhar.
 
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