Digo sempre que Angola é a minha terra - Assunção Cristas
18-05-2018 | Fonte: O PAÍS
Aos 44 anos de idade, Assunção Cristas lidera a terceira maior força política portuguesa: o CDS-PP. Deverá concorrer a solo para atingir o posto de primeiro-ministro em terras lusas. Esteve em Luanda, Angola, esta semana, onde veio pela primeira vez enquanto líder política, para proferir uma palestra sobre a Mulher e a Política, a convite da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. As suas ambições, a relação entre Portugal e Angola, a sua visão sobre a governação do PSD e o sentimento sobre o país em que nasceu (Angola) foram o mote para a conversa que se segue

Apesar de ser uma entrevista, não lhe vou fazer uma pergunta inicial. É difícil perguntar algo sobre Angola a quem tenha nascido cá e diz sempre que se sente em casa. Por isso, esteja à vontade.

Olha, eu regressei a Angola pela primeira vez em 2004. Nasci aqui em 1974, fui muito bebé para Portugal, voltei em 2004, depois 2008, 2009, 2010 para dar aulas na Universidade Agostinho Neto, e em 2012 como ministra. Não vinha a Angola desde 2012. Estou a olhar para uma cidade, infelizmente não tive tempo para sair de Luanda, diferente, com muita mudança visível. Portanto, nestes últimos três anos introduziram aqui mudanças muito significativas num país que está a viver também um momento muito diferente. Eu olho com a vontade de pensar que estamos num ciclo renovado, com muita esperança que este ciclo seja de desenvolvimento, progresso e que, daqui a uns anos, vamos olhar para trás e dizer que este é um tempo muito bem aplicado. E que, certamente, contribui para o aprofundar do desenvolvimento e da democracia pluripartidária. Portanto, estou a torcer por Angola.

Nasceu em Angola, saiu do país com apenas nove meses de idade, existem coisas que a encantam e de que não se consegue desfazer?

Quando cheguei ontem (Segunda-feira, 14 de Maio), o avião aterrou de manhãzinha, apesar de ter a agenda muito apertada, a primeira coisa que fiz foi colocar as coisas no hotel e ir ao cemitério. Há um jazigo de família aqui em Luanda, como há um outro na Gabela, no Cuanza- Sul, que é onde a minha mãe nasceu. Está lá o pai da minha mãe e aqui em Luanda está o pai do meu pai e um irmão nosso que faleceu. Para além das histórias, há marcos visíveis que perduram, continuam e que nos ligam a Angola. Eu digo sempre que Angola é a minha terra, que sinto como a minha terra e sinto-me bem quando aqui chego. Sinto o calor húmido, que gosto muito, o cheiro, as cores e, por olhar para um país que tem uma população tão jovem, tem todo o mundo à sua frente, toda a possibilidade de vencer e se tornar numa grande referência da democracia em África… Acho que este é um caminho que Angola tem e que fazer, quando ouço aquilo que é dito pelos responsáveis políticos.

O que tem feito Assunção na antiga cidade de São Paulo de Assumpção de Loanda?

Visito a minha terra. E venho falar – esta é a razão de eu aqui estar- sobre as mulheres e as mulheres na política. Foi um desafio, a convite da Universidade Agostinho Neto, que me trouxe desta vez a Luanda, uma casa onde regresso sempre com gosto, porque durante alguns anos, nas minhas vestes de professora de Direito, vim cá dar aulas num curso conjunto de Direito da minha Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa com a Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. Portanto, quando a faculdade me fez este convite para falar um pouco sobre a Política e as Mulheres, assim como as Mulheres na Política, eu aceitei de imediato e com muito gosto. Esta palestra decorreu ontem a tarde, correu muitíssimo bem, com uma audiência muito interessada, com perguntas muito pertinentes e com um momento de partilha daquilo que é a experiência de Portugal. Foi aquilo que eu trouxe. Houve também várias experiências angolanas nesta matéria e até já ficou combinado que vamos ajudar a organizar em Portugal, em moldes que deveremos acertar, ou partidários ou académicos, através da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, uma palestra sobre aquilo que tem sido também a participação da mulher angolana na política aqui em Angola. Naturalmente, não se vem a Angola todos os dias, aproveitei para, do ponto de vista político partidário, solicitar reuniões aos maiores partidos. Ontem (Segunda-feira, 14) foi um dia mais dedicado à academia, mas também fiz a primeira reunião com a Organização da Mulher Angolana (OMA), aproveitando lá estar para fazer alguns contactos partidários e hoje (Terça- feira, 15) estarei com o MPLA, a UNITA e com a CASA-CE, precisamente para conversar um pouco sobre aquilo que é o posicionamento e a estratégia do CDS-PP e também ouvir dos nossos colegas aquilo que são as suas prioridades.

O primeiro encontro é com o MPLA. Em 2016 houve uma pequena celeuma por causa da intervenção do representante do CDSPP no congresso deste partido. Esta situação está ultrapassada?

O que é que pensa deste partido e das mudanças que estão a ser feitas? Estamos, de facto, a assistir a uma nova fase. Não compete a mim tecer comentários sobre a vida interna dos partidos. Não o faço em Portugal, por maioria de razão também não seria elegante fazer em Angola. O que posso atestar, do ponto de vista de quem está de fora e olha para Angola e para o MPLA, que é o partido que apoia a governação, é que, de facto, há uma expectativa de que este novo ciclo corresponda também a um progresso mais intenso do próprio país. E eu creio que estas são as intenções que nós ouvimos e que são reportadas por todos os dirigentes.

O que se passou em relação ao deputado Helder Amaral, do CDSPP, que esteve no congresso do MPLA em 2016?

Devo-lhe dizer que neste momento já não me recordo do que o deputado Helder Amaral disse à época.

Mas a senhora já era a presidente do CDS-PP e dizia-se que a liderança estava agastada com o que ele disse no congresso do MPLA.

Era, e comentei na altura aquilo que foi dito. Creio que neste momento o que é importante, e estou pela primeira vez enquanto líder do CDS em Angola, é que nós temos um relacionamento muito saudável com todos os partidos políticos. Enfim, não consigo reunir com todos os que têm assento parlamentar, mas pelo menos com os principais. Estivemos no congresso do MPLA, como o CDS esteve no congresso da CASA-CE e certamente estará também no da UNITA, se for convidado quando ocorrer. Convidamos os três partidos para estarem no nosso congresso também. Portanto, a maneira como eu penso que nos devemos posicionar é precisamente conversando com os maiores partidos, com todos eles, até porque, nós, aqui, nos posicionamos ao nível do relacionamento entre os próprios Estados. O nosso desejo é que haja uma democracia pluripartidária, reforçada, a funcionar em Portugal e em Angola.

Com certeza, temos esse mesmo desejo e no resto do mundo, se assim podemos dizer, por isso a nossa forma de estar é esta: com certeza que é diferente com um partido da Oposição, como nós somos da Oposição em Portugal. É um partido que está no comando dos destinos de um país, do ponto de vista daquilo que é a sua própria agenda, mas o importante é que o CDS se assume como um partido que tudo fará para que no relacionamento entre Portugal e Angola as coisas corram pelo melhor, porque achamos que isso é do interesse de Portugal, dos portugueses que estão cá e é também do interesse de muitas empresas que trabalham cá, e da preservação dos laços profundos de amizade entre dois países que se relacionam de igual para igual, com total respeito pelas suas soberanias e que partilham muitos interesses em comum. Desde logo, a nossa língua, uma história e uma cultura em muitas partes com uma interligação profunda. Creio que isso é o mais importante.

Coincidentemente, chegou a Angola numa fase em que já há um desfecho no caso que envolve o ex-vice- presidente da República, Manuel Vicente, e a justiça portuguesa. Acha que o caso abalou de alguma forma dos pilares da relação entre Angola e Portugal?

Eu costumo dizer que há questões profundas que não ficam abaladas por este tipo de episódios. Mas, com certeza, no momento em que esta questão está em cima da mesa, as coisas são, porventura, menos fáceis, mas não tanto ao nível das pessoas que trabalham num país e noutro, que têm relações económicas e comerciais. Mas a nível das instituições de relacionamento e de representação do Estado, é claro que foi visível. Agora, penso que isso é uma questão de momento e não de estrutura ou de profundidade. Na profundidade mantiveram- se as coisas.

Preferia ter vindo numa outra altura?

O convite foi feito quando este caso ainda não tinha tido um desfecho pela instância que tem competência para tal, que é o poder judicial em Portugal, no estrito cumprimento do princípio da separação de poderes. Portanto, por isso dizia mesmo que há questões mais profundas, e o convite foi-me dirigido antes. Aceitei-o antes, mas, por acaso, calhou que, entretanto, se desanuviou este aspecto. Acho que deste ponto de vista é um momento que acabou por ser mais feliz e desanuviado. Mas eu teria vindo na mesma, porque entendo que há coisas de fundo que são mais relevantes do que estes episódios, não estando a desvalorizar, mas são episódios que são ultrapassados. Neste momento a justiça portuguesa falou, nós respeitamos, está o assunto ultrapassado e continuamos a relacionarmo-nos naturalmente.

“A melhor maneira irmos separados às eleições”

Há um termo que tem utilizado e, certamente, se irá recordar: a visão negocista na relação entre Angola e Portugal persiste?

Eu penso que o mais importante é nós relacionarmo-nos de igual para igual enquanto dois países que se respeitam reciprocamente e que, naturalmente, têm interesses comuns, que são os interesses dos seus cidadãos.

O que queria dizer com ‘visão negocista’?

Esta palavra não fui eu que utilizei e, portanto, não a vou utilizar agora. Aquilo que tenho dito sempre sobre o relacionamento entre Portugal e Angola é que são dois países que se devem relacionar de igual para igual, com total respeito pelas suas soberanias, defendendo e trabalhando em benefício dos seus cidadãos. Creio que é do interesse dos cidadãos de Portugal, e certamente não estarei a errar se falar também dos cidadãos de Angola. Mas, posicionando- me enquanto responsável política portuguesa, creio que é do interesse dos cidadãos de Portugal termos um bom relacionamento com Angola, porque muitos vivem cá, trabalham cá. Muitos trabalham em Portugal mas com uma actividade comercial, negócios de exportações, por vezes investimentos com Angola, e, para as coisas correrem bem – e correr bem é para os dois países-, é bom que o relacionamento seja estável, duradoiro e tranquilo.

Angola prepara-se para realizar, dentro de ano e meio, as suas primeiras eleições autárquicas. O CDS, pela experiência que tem por dirigir algumas câmaras em Portugal, recebeu algum pedido de partidos amigos em Angola para formação e outros apoios?

A nós, CDS, directamente, não foi feita esta solicitação, pelo menos que tenha conhecimento. Mas, sei que, por exemplo, o nosso anterior presidente, José Ribeiro e Castro, que, de resto, sempre defendeu esta teoria de que o CDS deve falar com todos os partidos em Angola, está neste momento em Luanda para participar na actividade da CASA-CE, precisamente de apoio e de uma formação autárquica. Ele foi solicitado directamente. Portanto, isso pode acontecer com vários responsáveis do CDS, até com responsabilidades anteriores. Não vejo qualquer problema nisso. Pelo contrário, até acho que é positivo se há partilhas de experiências. Mas de uma maneira mais formal, à direcção do CDS ainda não foi pedido.

Falou do antigo líder José Robeiro e Castro, mas há um nome que é quase indissociável à figura da actual líder do partido: Assunção Cristas, como é dirigir um partido depois de Paulo Portas?

É bom, porque Paulo Portas fez um grande trabalho à frente do CDS durante muitos anos. Paulo Portas levou o CDS duas vezes ao Governo. Com este tempo de Governo o partido cresceu, amadureceu e tornou-se mais preparado para um dia vir a exercer responsabilidades de primeira linha. Sinto que temos este legado de trabalho e de pessoas, porque muitas das pessoas que estão na actual direcção, a maioria, estava também com Paulo Portas, como eu própria, que fui vice-presidente. Muitos dos que nos reunimos na nossa direcção somos pessoas que viemos com Paulo Portas, fazendo um percurso, mas neste momento o partido tem também uma abertura muito grande, há pessoas novas a chegar, que se juntam a esta experiência política já consolidada. Há pessoas que se juntam para nos apoiar no gabinete de estudos, que aparecem como independentes no nosso ciclo de conferências, como, por exemplo, o ‘Ouvir Portugal’, e querem ajudar o CDS. Portanto, é um partido que está com uma grande capacidade de atrair, de rejuvenescer e, se calhar, de inspirar pessoas que olham para o CDS como um partido que teve um percurso e que este mesmo percurso também lhe permite chegar mais além.

O CDS-PP vai concorrer sozinho nas próximas eleições?

Sim, isto está completamente decidido. Foi já objecto dos meus discursos quando me tornei líder em 2016, e agora neste congresso do CDS-PP, em 2018, foi um dos pontos da estratégia política aprovada. Na minha moção ao congresso estava absolutamente esta orientação, por uma razão muito simples: nós só conseguiremos ser uma alternativa ao Governo das esquerdas unidas ou encostadas, se tivermos 116 deputados no parlamento no centro-direita, ou seja, entre o CDS e o PSD. A melhor maneira de o fazer é irmos separados a eleições, para cada um conseguir o máximo de resultado eleitoral, de mandatos e depois então nos entendermos pós-eleitoralmente. Claro que vou trabalhar para ser a primeira escolha, com humildade, com realismo, porque sei muito bem de que ponto é que o CDS parte. Mas também sei que sem trabalho, mas também sem sonho e sem ambição, nós não chegaremos mais longe. E eu acho que o país merece e precisa de um CSD mais forte e que chegue mais longe.

O actual líder do PSD, Rui Rio, é um parceiro credível à semelhança do que foi Pedro Passos Coelho para o CDS nas anteriores legislaturas?

Certamente que sim e será, com certeza, se esse for o entendimento dos portugueses. Eu desejo que seja este o entendimento dos portugueses para deixarmos de ter um Governo das esquerdas unidas. Agora, como compreenderá, na disputa eleitoral, uma vez terminado o voto útil, porque em 2015 pela primeira vez tivemos ou temos um primeiro- ministro que não ficou em primeiro lugar nas eleições… Quer de dizer que no somatório CDS-PP e o PSD, se os dois tiverem 116 deputados, embora nenhum fique à frente do Partido Socialista, nós poderemos governar. E compreenderá que nesta repartição de forças, eu trabalho para ser a primeira escolha e a força mais forte. Entendo que isso é importante para o país. Nós temos muito trabalho feito que pode vir a ser executado, com muito realismo, sabendo que isso não se faz num dia.

Qual é o legado da “geringonça” neste momento em Portugal?

Um país sem reformas, parado, sem questões estruturais a serem tratadas. Um país de uma austeridade escondida no corte dos serviços públicos, da saúde à educação, aos transportes, à segurança. Um país que tem um discurso de fim da austeridade, por um lado, com reposição de rendimentos e de salários à função pública e de horários mais curtos, mas, ao mesmo tempo, um país em que há uma degradação do próprio Estado em áreas fundamentais. Portanto, é uma austeridade escondida, encapotada, de orçamento que não são cumpridos a conta das cativações que depois são impostas pelo Ministério das Finanças. Portanto, neste aspecto, eu acho que há um engano, um logro, porque há muitas concessões que foram feitas à esquerda e é a agenda da esquerda que faz com que falte dinheiro para investimentos essenciais em muitas áreas. Hoje, isso já se torna visível. É uma solução que se alimenta a si própria, que tudo faz para sobreviver, mas que não serve aos interesses profundos do país.

Caso vença as eleições em Portugal, qual seria o papel reservado a Angola?

Certamente, o de um país amigo com quem temos uma relação privilegiada e que acho que se deve manter. Isso não quer dizer que não haja relações com outros países de parte a parte. Nós também temos uma relação privilegiada com a Espanha, com os nossos parceiros europeus no contexto da União Europeia, temos uma relação atlântica também muito forte com outros países, para não falar de outras relações que vamos tendo espalhadas por todo o mundo. Mas acho que cada relação tem que ser configurada à luz da realidade histórica e presente do relacionamento entre estes países. E isso faz com os relacionamentos sejam irrepetíveis.
 
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