Aviões, milhões e tostões
01-06-2018 | Fonte: CA
Revelação esta semana do custo do aluguer do avião que levou o Presidente João Lourenço à França, à Bélgica e às Astúrias fez ressuscitar um mal-estar em relação aos políticos, que não se via há algum tempo. E pode dizer-se que nunca o presidente angolano, no cargo desde Setembro do ano passado, se viu ou se sentiu tão escrutinado como aconteceu esta semana.
 
Sustentada pelo vídeo promocional do proprietário da aeronave, as revelações que vimos levam-nos a perguntar se o presidente que embarcou no avião é o mesmo que há um ano fazia uma campanha eleitoral assente em promessas de mudanças contra o paradigma do esbanjamento, do abuso e da provocação a quem vive a contar tostões e migalhas, a condição em que estão mais de 70 por cento da população angolana.
 
Para esta viagem, João Lourenço recorreu ao "Dream Jet", um Boeing 787-BBJ, ou seja um Dreamliner, que é como a construtora norte-americana baptizou a sua nova coqueluche, com acabamentos de luxo. Se estivéssemos a falar de hotéis, seria um "sete estrelas".
 
 
O Dreamliner em que o Presidente da República se deslocou não é o mesmo avião com que a British Airways voava para Angola. Não é o mesmo avião que a esmerada Emirates usa em suas campanhas publicitárias. É o mesmo avião com acabamentos principescos, detalhes típicos daqueles que os sheikes árabes costumam exigir.
 
 
Para quem ainda não viu o vídeo – e quem ainda não o fez não está aqui a fazer nada – transcrevemos a seguir o essencial do que disse Omar Hosari, PCA fundador da UAS International Trip Support.
 
 
"O nome (Dream Jet) – jacto de sonhos – diz tudo. Este é um dos melhores aviões que alguma vez foi fabricado(...) É o único 787 com uma configuração VIP. Os clientes habituais, normalmente são Chefes de Estado, celebridades e a realeza mundial".
 
 
Dispõe de uma suite presidencial, banheiros para acomodar duas pessoas ao mesmo tempo, sala de jantar, de estar, cinco casas de banho e outros. Esta versão do Dreamliner compreende 18 lugares com conforto equivalente à primeira classe de qualquer companhia de topo. "Esticado" pode acomodar 40 passageiros. A versão comercial do mesmo avião ou seja ou seja um Dreamliner 787-8 leva entre 242 e 345 passageiros.
 
 
Ninguém estava propriamente à espera que o Presidente João Lourenço fosse para a Europa num Fokker ou num Casa. Mas este Dreamliner, propriedade de uma companhia chinesa, tem um custo de 70 mil dólares por cada hora que está no ar. E este é, sem dúvidas, o cerne do mal-estar e da revolta contra a decisão de se alugar o dito avião.
 
 
O que se exige do Presidente é que se mantenha em linha com o que prometeu em relação ao esbanjamento, controlo das despesas e aceitação do princípio de que todos devem fazer sacrifícios. E se quisermos ser justos, não podemos dizer que o recurso a um avião menos oneroso constituiria um sacrifício.
 
O que se espera de João Lourenço é que não faça, voluntariamente, nada que possa beliscar a expectativa que criou e a confiança que os angolanos lhe deram para governar. O que se  passou aqui é bem pior. O Presidente João Lourenço conseguiu, de um jacto, dar um tiro no próprio pé e uma chapada na cara dos angolanos.
 
 
 
José Eduardo dos Santos só começou a fazer isso ao fim de muitos anos. João Lourenço não deve arriscar-se a terminar o seu primeiro ano no poder, da forma como José Eduardo dos Santos terminou a carreira política. Qualquer que seja a decisão que ele vier a tomar – ou seja, recorrer ao mesmo avião no futuro ou embalar em outros excessos –, este país não pode permitir que João Lourenço se transforme noutro José Eduardo. Nem em miniatura.
 
 
De resto, não faltam em Angola e no estrangeiro alternativas mais económicas, com as quais o Presidente da República poderia ter viajado com a dignidade que o cargo impõe. A pobreza em que a escala e a rotação da TAAG se tornaram, resulta que haja sempre um Boeing 777 em terra. Pode ser um dos cinco 777-300, como pode ser um dos três 777-200.
 
 
Já agora, para que se saiba, recordemos que quando veio assistir ao empossamento de João Lourenço, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, fez o voo Lisboa-Luanda num avião da TAP. No regresso foi num voo de carreira da ..... TAAG. A chanceler alemã Angela Merkel viajou para Lisboa em voo de carreira de uma companhia germânica. Os presidentes da França, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, viajam em aviões da companhia de bandeira. O Papa faz o mesmo: viaja em aviões da Alitalia. Porque haveremos nós de querer imitar o presidente dos Estados Unidos? Seja como for e em abono da verdade, convém lembrar que a presidência dos Estados Unidos usa o mesmo avião há mais de 25 anos. A aeronave é de tempos a tempos sujeito a updgrades.
 
 
Angola dispõe de três Bombardiers executivos, o último dos quais adquirido em 2015, por 62,5 milhões de dólares, por ordem do então presidente José Eduardo dos Santos. João Lourenço já recorreu a estas aeronaves para ir à Zambia e ao Ruanda.
 
 
Ademais, o prospecto que a Bombardier pôs a circular após a publicação do decreto presidencial no Diário da República diz que se trata de uma unidade das mais avançadas no segmento de luxo, "com capacidade de voos  directos entre Los Angeles e Moscovo em 12 horas (...), com uma configuração padrão para transportar 12 passageiros em vários níveis ‘said’ de classe executiva".
 
 
Como o Presidente João Lourenço adoptou o princípio eduardista de não levar  jornalistas no seu avião, não é difícil escolher quem deve ir com ele no avião: a primeira dama obviamente, o assistente diplomático (pois o ministro já estava no terreno), o chefe do protocolo, dois ou três escoltas, e outras cinco pessoas.
 
 
É justo perguntar: por que razão o Presidente João Lourenço não fez uso de uma destas soluções?
 
Quando foi à cimeira Económica mundial de Davos, na Suíça, fez uso de um Boeing 737 da UAS International Trip Support. Recorreu ao mesmo avião quando esteve em nos Estados Unidos em visita privada. Não era a solução ideal, porque sempre representa um aluguer mas ficava mais em conta. Quem vai a Davos num 737, pode fazer o mesmo quando tiver de ir a Paris. Por isso, a teoria que corre por aqui é que em Davos, onde estava a elite da alta finança internacional, o Presidente quis parecer parcimonioso. Se a parcimónia chegou ao fim, que é o que parece, estamos mal.
 
 
Quer-nos parecer também que João Lourenço tem um problema com aviões. Fez a sua campanha recorrendo ao avião privado do empresário Tulumba, o que representou um tremendo conflito de interesses. Não fossem as repetidas denúncias da economista Maria Luísa Abrantes e outros, a coisa teria ido mais longe.
 
 
João Lourenço tem outro problema. A entourage que o rodeia, composta por caras novas e por sobras do antigo presidente, quer fazer questão de colocar à sua disposição tudo que José Eduardo dos Santos dispunha. Para as suas últimas viagens o ex-presidente recorreu ao VP CAL, um Boeing 777-200, da Aviation Link Company, uma empresa que disputa mercado com a UAS International Trip Support. Detida pela Al Hokair Aviation Group, da Arabia Saudita, a Aviation Link Company cobra exactamente a mesma coisa que a UAS Internacional Trip Support, ou seja 70 mil dólares por cada hora de voo...
 
 
 
 
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