Fusão entre BPC e BCI daria um banco robusto, mas não pouparia Estado
12-06-2018 | Fonte: VE
A intervenção do Estado no maior banco de capitais públicos, o Banco de Poupança e Crédito (BPC), não termina tão cedo, nem mesmo com uma hipotética fusão com o congênere BCI, também estatal. A conclusão é de analistas económicos, que apontam os prejuízos e demais passivos dos últimos dois anos do BPC como um entrave à possibilidade de fusão entre as duas entidades.
 
De acordo com cálculos do VALOR, fundir o BPC ao BCI daria lugar a um banco com mais de dois biliões de kwanzas de activos e um rácio de solvabilidade de quase 31%, que o tornaria no maior banco angolano. No entanto, não anularia o desempenho negativo de 73,1 mil milhões de kwanzas do BPC, alcançado em Dezembro de 2017, já que os resultados líquidos do BCI ficaram contabilizados em apenas 663 milhões (ver balanço).
 
No prospecto de emissão de ‘eurobonds’, o Governo garantiu que o buraco do BPC era de apenas 53,7 mil milhões de kwanzas, mas os dados do balanço de Dezembro provam o contrário, e inscrevem uma perda de 73,1 mil milhões. Afinal, os prejuízos eram 36,1% a mais o que o ministro das Finanças, Archer Mangueira, enviou aos credores.
 
 
Só isso leva a crer aos analistas que o Estado deve continuar a injectar dinheiro no BPC, após várias recapitalizações já efectuadas, com vista a manter a solvabilidade do banco. Na possibilidade de uma fusão com o BCI, os especialistas avançam que a situação líquida negativa do BPC pode arrastar o BCI para o ‘vermelho’.
 
 
Ao VALOR, o presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino, considera que uma fusão “apenas seria viável após a recapitalização completa do BPC”. “O peso do BPC não seria suportado pelo BCI, que é um banco muito mais pequeno. Aquilo que está negativo teria muito mais peso do que o positivo que está no BCI. O BCI salvou-se porque é um banco muito mais pequeno, mas manejável. O BPC é um banco ‘monstrengo’”, argumenta Severino.
 
 
José Severino defende que o Estado prossiga com a reestruturação, afastando, desde já, a possibilidade de fusão entre o BPC e o BCI, sobretudo pelo facto de o BCI estar a recuperar de situação líquida semelhante.
 
 
Até Dezembro, o BCI, de Filomeno Ceitas, fechou o segundo ano com resultados líquidos positivos, ao sair de 507,2 milhões de kwanzas em 2016 para os actuais 663 milhões, evidenciando um avanço de 30,7%.
 
 
ANTES CAPITALIZAR…
 
 
Também Lopes Paulo, outro reconhecido economista, considera que, para uma fusão, se deva levar em conta a situação líquida positiva do BCI. Entre manter um BCI operacional e juntá-lo ao BPC, o analista aconselha a recapitalização do BPC, processo que, aliás, decorre desde 2016. “Pode parecer meio paradoxal, mas, se a intenção do Governo for essa, espero que tenha sido precedido de um estudo exaustivo, que pudesse determinar a maximização da utilidade do investimento neste exercício que se vai fazer entre os dois bancos públicos. O BCI tem estado numa espiral ascendente há algum tempo para cá. É um banco com alguma acutilância no mercado”, pondera o economista, que já esteve vinculado a organismos estatais.
 
 
Apesar do quadro de crise por que passa o BPC, Lopes Paulo não deixa de reconhecer “acutilância” nas operações do banco, sobretudo nas respostas que dá à execução das despesas públicas. “Quero acreditar que a estratégia da nova direcção tenha eventualmente convencido da melhor maneira o Governo, de modo a que, criando a unificação desses dois activos, possa resultar numa mais-valia em termos de desempenho. O problema depois é saber, em termos de direcção, como é que se vai fazer?”, questiona Lopes Paulo, ensaiando, desde logo, uma resposta. “Creio que uma fusão deverá tomar em consideração esses contornos. Ou resolver o problema de capitalização do BPC que é importante. Se fizermos aqui uma compensação entre os ganhos do BCI e os prejuízos do BPC, seguramente o saldo será negativo. E isso poderia não ser um bom ponto de partida”.
 
 
…DO QUE FUNDIR
 
 
Por sua vez, o consultor financeiro e gestor de empresas Galvão Branco antevê que uma fusão entre os dois bancos seja a saída para o caso do BPC ou mesmo para evitar que o Estado despense outras verbas na recapitalização. O argumento do dono da GB-Consultores é sustentado pelos últimos desenvolvimentos do mercado, nomeadamente pela fusão entre os extintos Millennium Angola e o Privado Atlântico, além das últimas directivas do Banco Nacional de Angola (BNA), que obriga ao aumento de capital social nos bancos.
 
 
Para ele, uma fusão entre o BPC e BCI daria lugar a um único banco público robusto, com capacidade e solvabilidade de atender às operações do Estado. Aliás, é de opinião que deva ser esse banco resultante da fusão o maior detentor de títulos do Estado. “Não há necessidade de coabitarem no mesmo espaço financeiro o BPC e o BCI, daí eventualmente caminharmos para a fusão dos dois bancos. Se bem que o BCI tem algumas participações que não são do Estado. São de outras entidades. Seja como for, o Estado é o maior accionista e penso que se dava maior estabilidade à actividade desses bancos”, defendeu Galvão Branco, no que é contrariado pelo presidente da AIA.
 
 
Para José Severino, uma fusão “iria arrastar o BCI para o negativo. É melhor nem pensar nisso. A reestruturação do BPC está a ser feita, tem um novo conselho de administração, tem um homem que é das Finanças, que vem exactamente para sanear essa situação”, defende, projectando para o fim deste ano a estabilização do banco.
 
 
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