“Não se quis que tivéssemos uma sociedade mais culta”, diz José Luís Mendonça
31-07-2018 | Fonte: Jornal Vanguarda

O jornalista e escritor José Luís Mendonça (Na Foto), constata falta de vontade política para que a sociedade angolana fosse mais culta, daí não haver obras de leitura obrigatória no sistema de ensino em Angola. Sobre a sua desvinculação da União dos Escritores Angolanos (UEA), alega não concordar com a sua gestão.


Acompanhe o resto da conversa com o escritor, reproduzida na edição desta semana no Jornal "Vanguarda".

Porque é que, tantos anos depois da independência, não temos obras de leitura obrigatória no sistema de ensino?


Só encontro uma explicação. Não se quis que tivéssemos uma sociedade mais culta. Enquanto escritores, o nosso desejo é que tivéssemos uma sociedade mais culta para podermos ser lidos. Tal como o cantor lança um disco para ser ouvido, nós publicamos para sermos lidos. A sociedade é inculta, e uma sociedade assim não critica, não reivindica mais saúde, nem mais educação. Até aos anos 80, ainda pus os meus alunos a lerem pelo menos 18 livros. Temos hoje este tipo de sociedade em que os alunos não lêem – os professores também não lêem. O regime político em Angola sempre teve receio de ter uma manifestação crítica contra ele, então foi reprimindo, e uma das formas de evitar que a sociedade tivesse um pensamento sobre política foi criar uma sociedade inculta. Hoje, os alunos têm preguiça de ler um fascículo de três páginas, mas a culpa é do regime.


Como acha que a cultura tem sido abordada pela imprensa?


Os órgãos estão muito falhos em termos de abordagem cultural. Era preciso que os jornalistas tivessem mais formação especializada na área da cultura. Como fazer uma peça sobre uma exposição? Muitos jornalistas da área cultural são preguiçosos, porque vão entrevistar um escritor sem terem lido algumas páginas do seu livro. Não pode ser. O erro nesse caso também é das editoras. Porque as editoras, como a LEIA, antes de lançarem o livro já deviam ter distribuído pelo menos 100 exemplares aos órgãos de informação, mas as editoras não fazem isso. Isto faria com que o jornalista, antes de entrevistá-lo, já tivesse lido a obra. O mesmo deve acontecer com o disco, para durante a entrevista falar-se do conteúdo.


Mas os jornalistas não deveriam comprar as obras?

Os jornalistas não têm dinheiro para isso, coitados.

Diz-se que a cultura se resume à música?


É verdade. A música é o aspecto mais visível da cultura de um país. Mas o jornalista precisa de se renovar.Quanto à liberdade de expressão, disse numa conferência que os escritores em Angola gozaram sempre de liberdade.
Quando um escritor é muito crítico do regime político, por exemplo, é censurado, ou fala fora do País. Aqui dentro ele tem liberdade sobre a obra publicada, e ninguém interfere, porque aqui ninguém lê. Por outro lado, todo o mundo tem receio de falar das obras dos outros. Eu já critiquei uma obra que era muito incipiente. O autor deixou de falar comigo.

É mais poeta, ou assume outro género?


A minha primeira profissão é poeta, sou poeta de profissão, porque vejo o mundo de forma poética. Estou preocupado com o ser humano. Retornamos às mesmas questões da opressão, da má divisão da riqueza nacional. Tudo isso se reflecte na minha poesia. O amor entre as pessoas, a questão do ódio, da guerra, são questões normais dos humanos, e eu reflicto sobre elas com olhos poéticos.

O seu anúncio de se desvincular da UEA abalou a classe.


Não abalou a classe, tirando um grupo de escritores que me apoiou, o resto está apático. O escritor em Angola é aquele que não diz nada ainda, perante os direitos humanos, por exemplo. Ele escreve, mas também deveria dizer alguma coisa. Preferi sair de uma instituição que já não tem nada para dar, não só a mim mas aos escritores, porque já nem publica um livro há mais de cinco anos. Deixei lá um livro que nunca mais foi publicado. Saí de lá porque não estou de acordo com a sua gestão.


Esta decisão deve-se à morte do segurança da UEA, que na sua opinião deveria ter mais apoio da instituição?


Não é de agora, pelo menos assim já não entro em conflito com ninguém e já não se dá razão àquilo que alguém disse que a minha luta era para dirimir conflito, e não para defender a honra do guarda que foi morto. Eu saí para mostrar que não estava interessado em cargo nenhum, estava interessado é que a UEA fizesse justiça a um homem que foi morto numa prisão. Pelo menos a declaração da PGR foi positiva, na medida em que o comandante da polícia tem de responder pelo seu acto ilegal, foi prender uma pessoa sem mandado de prisão e permaneceu lá fora do prazo, quando havia o habeas corpus, que era só a UEA pagar 20 mil Kz para o homem sair. Penso que a PGR fez um trabalho para evitar que futuros comandantes da polícia cedam a pedidos de amigos para prenderem pessoas.

Está satisfeito com o jornalismo feito hoje?


Temos uma ideia muito errada de jornalismo. A imagem de jornalista para os jovens é o Ernesto Bartolomeu, a Mara Dalva. Houve uma gala, o Globos de Ouro, premiaram os apresentadores de televisão. A ideia que as pessoas têm de jornalismo é apresentador de noticiário e de outros programas. Jornalismo não é isso, é a reportagem, a notícia, é o contacto com o povo e dele extrair a notícia. Esses jornalistas são pouco conhecidos, não recebem prémios, e o ideal para os jovens serem jornalistas é ir ao casting para apresentadores de televisão.

E como está o jornalismo em termos de produção?


Está muito fraco, devido ao domínio fraco da língua em Angola e outros aspectos. O jornalismo carece de um debate sério.


E em relação aos últimos anos?


Temos mais pluralidade. Mas só existe mais no jornalismo escrito. Temos jornais com grande qualidade, alguns semanários e diários. Mas temos outros jornais que é muito sensacionalismo, é muita acutilância em denegrir a governação, mas sem uma ideia muito construtiva. Falta também muito pluralismo na televisão e na rádio.

 
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