"Limpeza" no BP do MPLA: Quase metade dos membros "caíram", incluindo "dinossauros" do partido e actuais governantes
10-09-2018 | Fonte: NJ

A subida de João Lourenço à presidência do MPLA já começou a agitar as filieiras dos "Camaradas", através da mudança de "peças" em posições-chave do partido, com destaque para a renovação do Bureau Político (BP), dominada pela saída de quase metade dos membros do anterior elenco, incluindo históricos do partido, como Roberto de Almeida, e actuais governantes, como João Marcelino Tyipinge e Kundi Paihama. Para os lugares desocupados por "antigos cativos" do BP entram, entre outros reforços, vários elementos do Executivo.


A reestruturação do BP do MPLA, bem como a indicação da vice-presidente e do novo secretário-geral do partido prenunciam uma transformação profunda no seio da formação política que governa o país desde a Independência.


A "revolução" entre "Camaradas", conduzida pelo recém-aclamado líder João Lourenço, reflecte-se, para já, na nova configuração do BP, em que se destaca a saída de quase metade dos membros do anterior elenco. Com destaque para históricos do partido, como o ex-vice-presidente Roberto de Almeida, generais influentes, como António dos Santos França, "Ndalu" e Francisco Magalhães Paiva N"Vunda, e actuais governadores, há muito instalados no poder.


São os casos de Kundi Paihama, João Marcelino Tyipinge, José "Joanes André" e João Baptista Kussumua, actualmente colocados na liderança das províncias do Cunene, Huíla, Zaire e Huambo, respectivamente.


A retirada destes cinco governadores do elenco do BP - todos alvo de contestação nas províncias que dirigem - reforça rumores de que o também Presidente da República ultima uma nova leva de exonerações.


Contas feitas, de um antigo elenco composto por 52 elementos - dos quais cinco entraram em Dezembro passado - saíram 25 e sobreviveram outros 27, incluindo figuras da velha entourage de José Eduardo dos Santos. Como Norberto dos Santos, "Kwata Kanawa" e Carlos Feijó.


No caso da Huíla, as especulações são reforçadas pela entrada "em jogo" do deputado Virgílio Tyova, que chegou a ser o segundo secretário do comité provincial do partido, mas acabou substituído na sequência de desentendimentos com João Marcelino Tyipinge. Nova dança de cadeiras à vista na Huíla?


Enquanto não se desfaz esta e outras interrogações, cresce a expectativa sobre a relação entre as mudanças anunciadas e uma eventual responsabilização penal de figuras destacadas do MPLA, que enfrentam suspeitas da prática de vários crimes.


São os casos, por exemplo, do porta-voz do partido, Noberto Garcia - constituído arguido no âmbito da investigação da chamada burla tailandesa de 50 mil milhões de dólares -, e do deputado e antigo ministro e governador Higino Carneiro, suspeito de várias irregularidades durante a sua passagem pelas Obras Públicas.


Ambos foram "varridos" do BP do MPLA, numa "limpeza" que também atingiu Joana Lina, 1.ª vice-presidente da Assembleia Nacional, o até aqui secretário-geral dos "Camaradas", António Paulo Kassoma, e outros velhos "pesos-pesados", como Julião Mateus Paulo, "Dino Matrosse", que ocupa as funções de secretário para as Relações Internacionais do MPLA.


O antigo-vice-Presidente da República, Manuel Vicente, e os ex-ministros Augusto Tomás e Cândida Narciso foram igualmente afastados, bem como os ex-governadores "Bento Bento" e Aldina da Lomba.


De fora do BP ficam também o provedor de Justiça Carlos Alberto Ferreira Pinto, João Bernardo Miranda, nomeado em Fevereiro passado embaixador de Angola em França, e as deputadas Amélia Quintas, Dulce Ginga, Cândida Celeste e Yolanda Brígida de Sousa, esta última apontada como próxima de Tchizé dos Santos, filha do antigo líder dos "Camaradas".


Contas feitas, de um antigo elenco composto por 52 elementos - dos quais cinco entraram em Dezembro passado - saíram 25 (contabilidade que inclui o ex-líder) e sobreviveram outros 27, incluindo figuras da velha entourage de José Eduardo dos Santos. Como Norberto dos Santos, "Kwata Kanawa" e Carlos Feijó.


As novas caras


Para os lugares desocupados pelos "antigos cativos" do BP entram vários elementos do Executivo, incluindo oito ministros e quatro governadores.


Dessa lista constam os nomes dos ministros Adão de Almeida (Administração do Território e Reforma do Estado), Ana Paula Sacramento Neto (Juventude e Desportos), Sílvia Lutukuta (Saúde), Marcos Nhunga (Agricultura e Florestas), João Baptista Borges (Energia e Águas), Ângela Bragança (Hotelaria e Turismo) José Carvalho da Rocha (Telecomunicações e Tecnologias de Informação) e Manuel Augusto (Relações Exteriores).


As entradas incluem também os governadores Eugénio César Laborinho (Cabinda), Gonçalves Muandumba (Moxico), Maria Quiosa (Bengo) e Mpinda Simão (Uíge), bem como a vice-governadora do Huambo para o sector político, social e económico, Maricel Marinho da Silva Capama.


Aos rostos que já povoam o círculo da governação juntam-se outras figuras destacadas das fileiras do partido, como Mário Pinto de Andrade - que no final do ano passado ascendeu ao posto de segundo secretário do comité provincial do MPLA em Luanda, e Manuel Pedro Chaves, director do Departamento de Relações Internacionais do Comité Central.


O elenco dos novos elementos do BP integra também os deputados Américo Cuononoca, Emília Carlota Dias, Pereira Alfredo, Pedro Makita Armando Júlia e Salomão Xirimbimbi, líder da bancada parlamentar dos "Camaradas".


Entre os recém-chegados encontram-se ainda vários membros dos mais de 360 que compõem o Comité Central. Nomeadamente: Daniel Félix Neto, "Daddy" e Gregório da Conceição Miasso, respectivamente o actual e o antigo administrador municipal de Saurimo; Yolanda António dos Santos, que integrou a extinta Secretaria para os Assuntos de Contratação Pública; Luís Manuel Fonseca Nunes e Manuel António Monteiro, ambos membros do Conselho da República; Maria Antonieta Sabina Baptista, nomeada em Abril passado para o cargo de vice-reitora para a Área Científica e Pós-Graduação da Universidade António Agostinho Neto; e Pedro Sebastião Teta, que na anterior legislatura era secretário de Estado para as Telecomunicações, área na qual também foi vice-ministro.


Juntos, os 55 membros do novo Bureau Político do MPLA, onde se incluem 13 mulheres (mais uma do que na anterior configuração), deverão ajudar João Lourenço "a fazer uma governação virada para a resolução dos principais problemas da sociedade, da economia e dos cidadãos", conforme o próprio apontou no seu primeiro discurso como presidente dos 'Camaradas'.


Na ocasião, que marcou o encerramento do VI Congresso Extraordinário do partido no poder, realizado no último sábado, 8, o também Presidente da República defendeu que o MPLA "deve-se preocupar menos com a organização da sua própria vida interna e dirigir a sua acção principal para fora de si próprio, trabalhando mais com os cidadãos em geral".


O Chefe de Estado desafiou os 'Camaradas' a construirem um partido, "onde ser do MPLA não signifique necessariamente abrir uma porta para alcançar benesses com facilidade" nem "estar mais próximo da possibilidade de ser nomeado ministro, governador ou embaixador".


"Ser do MPLA deve significar sobretudo servir Angola e os angolanos", reiterou o também Chefe do Executivo.


Seguro das suas escolhas, João Lourenço disse, numa intervenção na sua primeira reunião do Comité Central na qualidade de presidente do MPLA, que com o novo BP acredita que irá encontrar a correspondência que espera, "sobretudo trabalho e dedicação".


Citado pela agência Lusa, o sucessor de José Eduardo dos Santos reforçou que é com esta equipa que pretende "jogar daqui para a frente".

 
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