Iraque: Soldados privados do Terceiro Mundo afluem ao cenário de guerra
16-08-2005 | Fonte: Lusa
Milhares de veteranos de guerras do Terceiro Mundo estão a afluir para o Iraque, onde o número de "soldados privados" constitui já o segundo maior contingente estrangeiro, revelaram fontes ligadas à industria de segurança. Entre esses veteranos contam-se angolanos que combateram ao lado do exército sul-africano em Angola e na Namíbia. O recrutamento de veteranos do Terceiro Mundo para a guerra no Iraque começou recentemente a receber a atenção do Congresso dos Estados Unidos, depois de um empresário norte-americano ter colocado anúncios oferecendo mais de 1.000 veteranos da guerra na Colômbia para trabalharem para as dezenas de companhias privadas de segurança que, no Iraque, auferem lucros enormes para protegerem instalações, equipas de reconstrução e personalidades políticas e empresariais.

O Congressista Jan Dchakowsky insurgiu-se publicamente contra o recrutamento dos colombianos, recordando que os Estados Unidos estão a gastar centenas de milhões de dólares a treinar as forças armadas e policiais da Colômbia para combater os narcotraficantes e os guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

"Estamos a treinar estrangeiros que depois vão comercializar esse treino junto de companhias privadas que lhes pagam três ou quatro vezes mais do que o seu ordenado como elementos das forças de segurança," disse Schakowsky.

"São os contribuintes norte-americanos que pagam pelo treino desses soldados colombianos", acrescentou, frisando que desse modo esses contribuintes estão "a pagar as contas a companhias militares privadas".

Analistas fazem notar que a presença de "soldados privados" (a designação "mercenário" é evitada por todos) no Iraque não é algo de novo, mas sublinham que nos últimos meses se tem vindo a assistir a uma onda de recrutamento entre veteranos de guerra do Terceiro Mundo por razões puramente económicas.

Jeffrey Shippi o empresário que está envolvido no recrutamento dos colombianos, disse ao jornal Los Angeles Times que os colombianos estão "dispostos a trabalhar por um ordenado que varia entre os 2.500 e os 5.000 dólares por mês, enquanto os norte-americanos custam 10.000 dólares ou mais".

O jornal colombiano El Tiempo disse que recentemente 16 oficiais das forças armadas colombianas tinham assinado contratos de um ano para trabalhar no Iraque com um salário mensal de 7.000 dólares, um seguro de vida de 58.000 dólares e "vários dias de férias de três em três meses em qualquer país da Europa".

Veteranos ucranianos, sérvios, nepaleses e de unidades sul- africanas constituíram a primeira onda de "soldados privados" não norte-americanos a chegarem ao Iraque.

Peter Singer, um especialista na indústria dos exércitos privados, disse que recentemente começaram a chegar ao Iraque veteranos das guerras civis da Guatemala, El Salvador e Nicarágua.

O facto de soldados do Terceiro Mundo serem mais baratos do que os seus homólogos da Europa ou Estados Unidos faz com que as companhias estejam agora activamente a recrutar soldados de países que não têm qualquer experiência em guerras.

Centenas de chilenos e de soldados das Fiji foram recentemente recrutados por companhias que operam no Iraque, entre elas a Triple Canopy e a Black Water, disseram fontes ligadas à indústria.

Desconhece-se o número exacto de "soldados privados" a operar no Iraque, mas todos concordam que constituem actualmente a segunda maior força estrangeira no país.

A maior parte das estimativas variam entre os 10.000 e os 15.000 homens, um número superior ao contingente de cerca de 7.000 soldados da Grã-Bretanha, o país com o segundo maior número de tropas no Iraque a seguir aos Estados Unidos.

Doug Brooks, presidente da Associação Internacional de Operações de Paz, que representa 15 organizações privadas de segurança, disse que o numero é mais baixo do que isso, devendo rondar os 6.000.

Contudo, Lawrence Peter, um consultor do Pentágono especializado nas relações entre o Departamento da Defesa e as companhias privadas de segurança, disse ao New York Times que no Iraque há actualmente "cerca de 25.000 soldados privados".

Peter adiantou que estão hoje a operar no Iraque cerca de 80 companhias privadas de segurança.

Segundo algumas fontes ligadas a essas companhias, o número de sul-africanos a trabalhar em segurança no Iraque é de "pelo menos 1.500".

Muitos desses são angolanos que pertenceram a unidades como o Batalhão 32 (conhecido como Batalhão Búfalo) e Koevoet, que operaram em Angola e na Namíbia.

As mesmas fontes adiantaram que os veteranos da guerra em Angola são "altamente respeitados" pela sua disciplina e "capacidade de operarem num ambiente de terceiro mundo".

Em 2003, o Pentágono escolheu veteranos de unidades sul- africanas e Gurkas nepaleses para fornecerem a segurança ao primeiro governador norte-americano no Iraque, Jay Garner, numa acção que abriu as portas à indústria privada de segurança.

Fontes diplomáticas sul-africanas disseram que até agora 13 sul-africanos foram mortos no Iraque.

Se os soldados que vão do Terceiro Mundo para o Iraque arriscam as suas vidas por salários impensáveis nos seus países, os lucros das companhias que os recrutam são considerados por especialistas como "astronómicos".

Em 2004, a companhia de Segurança Triple Canopy assinou um contrato de apenas seis meses de 90 milhões de dólares para proteger locais usados pela Autoridade Provisória da Coligação.

Outras companhias têm contratos anuais de 250 milhões de dólares.

Estudos indicam que 25 por cento dos custos anuais de reconstrução no Iraque são gastos em segurança, ou seja, cerca de 4.600 milhões de dólares.
 
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