“As autoridades angolanas embarcaram numa caça às bruxas”: Isabel dos Santos em entrevista à BBC
22-01-2020 | Fonte: BBC (ANDREW HARDING, BBC NEWS TRADUÇÃO: JOANA HENRIQUES)

A BBC entrevistou Isabel dos Santos em Londres no dia 10 deste mês. A empresária - visada na investigação em que o Expresso e a SIC participaram - voltou a defender-se das dúvidas levantadas pela justiça angolana com a ideia de que é alvo de uma perseguição política. Na conversa com a BBC, que aqui deixamos em formato longo, Isabel dos Santos nega qualquer envolvimento em esquemas de desvio de dinheiro. Sobre a empresa Matter (consultora através da qual foram pagas as faturas de consultoria da Sonangol), Isabel dos Santos assegura que o contrato era transparente e conhecido por todo o conselho de administração da Sonangol. A empresária, filha de José Eduardo dos Santos, fala da sua vida pessoal para realçar o desempenho académico em Londres e explica o que deixou Luanda por considerar que ela própria e a sua família corriam risco de vida.
 
BBC: É bilionária, uma das mulheres mais ricas do continente, de certeza, e talvez do mundo. De repente, porém, parece que está num grande sarilho. Dá-se como culpada?Isabel dos Santos
 
 (IS):A pergunta é, porquê isto? Porquê agora? Como disse eu venho do sector privado, sou uma mulher de negócios, sou uma empreendedora. Não sou política. Não faço parte de nenhum governo, nem em Angola nem em lado nenhum. Nunca fui conselheira do presidente de Angola, nunca tive nenhum papel importante no MPLA. Sou membro, mas um membro muito básico, nunca sequer tive a mais pequena posição de gestão. Temos de nos lembrar que o partido MPLA está no poder desde a independência de Angola. Venho do sector empresarial, sou uma mulher de negócios privados, as minhas empresas são comerciais Trabalho na banca e no retalho, temos uma grande cadeia de supermercados, temos cinemas, construí uma rede de telecomunicações, e somos a rede líder. Sou uma acionista minoritária e empregamos mais de 10 mil pessoas no país. Perguntaram-me quantos impostos pago e estava a tentar fazer as contas e em Angola pagamos mais de 200 milhões de dólares em impostos; em Portugal mais de 50 milhões de euros em impostos. Somos um grande contribuinte, um jogador muito importante na economia. Parece uma gigantesca fortuna, mas ao mesmo tempo construímos muita coisa. Trabalho há quase 20 anos, isto não é algo que tenha feito em três dias, é algo que comecei há muito tempo. São acusações completamente falsas, são motivadas politicamente.
 
BBC: Não são alegações informais feitas por políticos. É o estado de Angola, procuradores, juízes, vêm atrás de si, e dizem que o que fez, não foi coisa pouca. Dizem que enganou o Estado em milhares de milhões de dólares, são alegações extremamente sérias e não merecem resposta? Vai voltar e enfrentar a justiça?
 
IS: Estas alegações são falsas e isto faz parte de um ataque muito bem concertado. É um ataque orquestrado pelo atual Governo que é totalmente motivado politicamente, é completamente infundado. Posso dizer que as minhas empresas são comerciais, não provêm de contratos públicos ou de dinheiro que foi desviado de outros fundos. As minhas companhias são privadas, trabalhamos com bancos comerciais.
 
BBC: Então isto é apenas uma tomada de poder por parte do Presidente, é isso?

IS: Sim...
 
BBC: No entanto, parece que, pelo menos agora, a comunidade internacional está pronta a dar o benefício da dúvida ao novo presidente, João Lourenço. Vive aqui em Londres, algumas autoridades portuguesas começaram a investigá-la, não pode voltar para Angola. Vai poder continuar aqui em Londres?
 
IS: Quem governava o país não era José Eduardo dos Santos e a sua família, era o MPLA. E se olhar para o atual governo do Presidente Lourenço, e é uma longa lista, a maior parte das pessoas, se não mesmo todas, incluindo o próprio e a sua mulher, fazem todos parte do MPLA, com cargos muito importantes dentro do MPLA. E os membros do governo são todos os mesmos. E agora, usam a imagem de uma ou duas pessoas como bodes espiatórios e tentam dizer, bem isto é da responsabilidade daquelas três pessoas. (...) Há um procedimento secreto, mesmo depois de descobrirmos a ordem do tribunal pelo Whatsapp, tentámos ir ao tribunal, e perguntar de que me acusam? E não nos deram nenhuns documentos. Primeiro disseram que os documentos estavam trancados no gabinete do juiz. Dois dias mais tarde, disseram que estavam fechados e voltámos lá e mais uma vez recusaram. Por isso, quando nem sequer podemos ver os ficheiros e os documentos que estão na base da acusação, não há justiça. Não é um sistema, é o uso da justiça.
 
BBC: Em 2016 disse ao “The Wall Street Journal” “Não sou financiada por dinheiros estatais nem por fundos públicos”. As autoridades angolanas estão a refutar isso. Gostaria de chamar primeiro a atenção para o seu negócio do petróleo e especialmente para a Galp, a grande empresa portuguesa de petróleo que a empresa estatal angolana, Sonangol financiou a sua compra.
 
IS: Fui convidada a fazer parte do negócio.
 
BBC: E nunca lhes pagou de volta.
 
IS: Eu paguei.
 
BBC: Tentou pagar.
 
IS: Não. Eu paguei.
 
BBC: Tentou pagar em moeda local e isso foi rejeitado.
 
IS: Não, não, isso é diferente. Ainda bem que abordou este ponto porque isto foi-me atribuído pelo ICIJ (Consórcio internacional de jornalistas) e como sabe há um ataque concertado, por isso o governo angolano decidiu invadir os meus escritórios, entregar alguns documentos a jornalistas de investigação, e depois apresentar estas perguntas. Todas estas transações são perfeitamente legais, feitas por empresas comerciais. A compra das ações da Galp aconteceu em 2005, estamos em 2020. E isto está a ser usado como uma desculpa pelo governo angolano, uma desculpa manipuladora - não digo pelo governo angolano, mas pelo procurador geral como uma desculpa manipuladora. Desculpa para apontar culpas, não há culpas. É o investimento que, na história, gerou os maiores ganhos da empresa de petróleo nacional. O investimento conjunto foi de 195 milhões de euros, hoje vale 1.7 mil milhões. E todos os contratos são perfeitamente legais, não houve irregularidades e todas as alegações que o dinheiro passou irregularmente ou de modo incorreto são falsas.
 
BBC: Há, contudo, um padrão que foi assinalado por muitas pessoas, era a filha do Presidente, um Presidente que esteve no poder durante 38 anos, parece que beneficiou dessa proximidade e é algo que sempre negou. No entanto, quando olhamos para os diamantes, a Isabel e o seu marido, e a empresa de Grisogono...
 
IS:Não sou acionista da de Grisogono, já o disse muitas vezes e volto a repetir.
 
BBC: Mas ficou com metade...
 
IS: De que empresa?
 
BBC: Da Grisogono.
 
IS: Já lhe disse que não sou acionista, não recebi metade de nada.
 
BBC: As autoridades angolanas não acreditam nisso e estão a perseguir o seu marido por isto.

IS: Não estão. As autoridades angolanas também embarcaram numa caça às bruxas, muito, muito seletiva. Uma caça às bruxas muito seletiva que serve o propósito de dizer que há duas ou três pessoas que estão ligadas à família ou à família do Presidente dos Santos. Lamento que Angola tenha escolhido este caminho, penso que temos muito a perder. (...) Só porque é filho de quem é, é logo culpado.
 
“SOU ASSIMÉTRICA, NÃO SOU CATALOGÁVEL, FALO SETE LÍNGUAS”

BBC: Mas porque é filha de alguém tem de ser cuidadosa e as suspeitas é que não foi?
 
IS: É mentira, todas as minhas empresas têm conselhos de gestão muito bons. Temos os melhores CEO (presidente da comissão executiva), os melhores COO. Temos os melhores departamentos legais, temos pessoas que são profissionais e que têm experiência de trabalho, que já trabalharam noutras empresas.. Sou uma empresária muito confiante, não tenho dúvida alguma que tive sorte por ter tido uma boa educação. Vivi no Reino Unido, estudei em Londres, estudei numa excelente faculdade, frequentei uma escola só para raparigas, St. Paul. Só tirei boas notas, tive 20 a matemática e Física. Quando fui para gestão de engenharia, tirei o diploma aos 20-21 anos. Agora falo quase sete línguas fluentemente sem pronúncia. Por isso tenho as capacidades pessoais, não estou preocupada quando me tentam diminuir. Se vimos de um certo contexto e se tivemos algum privilégio, então podem formar uma opinião sobre nós. Sou assimétrica, não sou o que podem esperar, não sou um rótulo, sou alguém completamente diferente. Sou alguém que se levanta de manhã, muito cedo, vou para o campo, calço umas botas, construo coisas, se for necessário acartar caixas com a minha equipa e pôr coisas nas prateleiras, eu faço-o.
 
BBC: Podemos passar para a Unitel? Sabemos que é extremamente bem sucedida.
IS: Sim.
 
BBC: Uma empresa de telecomunicações móveis da qual teve, no início, 25% de participação. Desde então ganhou dois mil milhões de dólares em dividendos.
 
IS: Sou uma das fundadoras. É diferente. (risos).
 
BBC: Depois, mais uma vez, de um decreto presidencial do seu pai.
 
IS: Não. Em Angola, as duas licenças, por exemplo, à Angola Telecom, à Mobicell, foram concedidas por decreto presidencial, sem concurso público. Recentemente, o Presidente Lourenço, concedeu à Angorascom uma licença de telecomunicações por decreto. A licença de 2000 foi concedida durante a guerra. Em Angola a guerra acabou em 2002. O projeto, inicialmente, era por concurso público. Em 1998, o governo decidiu alterar a lei. Decidiram que queriam atrair mais investimentos para o sector das telecomunicações. 1998 foi provavelmente um dos piores anos da guerra em Angola. Lembro-me que havia misseis, ou bombas, ou o que quer que seja, a voar de um lado para o outro, a cair nos nossos jardins, a despedaçar as nossas janelas. As tropas da Unita estavam a 80 quilómetros da nossa porta. Isto em 99. Por isso o governo precisava atrair investimento e fê-lo liberalizando uma série de sectores, e o sector das telecomunicações foi liberalizado em 1999. A Unitel é a segunda rede, havia uma rede que já existia. A nossa proposta foi uma das mais das mais audaciosa e agressiva, primeiro porque sou angolana e acredito em Angola. Mesmo depois do Presidente João Lourenço tomar posse - continuei a investir em Angola. Fui e construí mais duas fábricas. Criei mais de 2000 novos postos de trabalho. Sou uma patriota. Acredito que posso mesmo mudar as coisas.
 
BBC: Explique-me, por favor, um empréstimo que fez de 200 milhões de euros à Unitel International Holding, uma empresa privada sua, criada no estrangeiro. É algo que para muitos soa a corrupção descarada, já que usou o dinheiro que enviou para o estrangeiro para investir noutras empresas e que não pagou esse dinheiro.
 
IS: Claro que não é corrupção. Isso não é verdade. A Unitel é uma empresa privada. Os acionistas da Unitel aprovaram os seus investimentos e os seus negócios a nível do conselho de administração. Como acionista minoritária nem sequer poderia ter entrado nessa transação sem a aprovação do conselho de administração Esta transação foi aprovada pelo conselho, com o voto da Sonangol. A Sonangol é acionista indireta através da Mercury. A transação foi aprovada pelo Banco Central Angolano, porque como sabe não se pode retirar dinheiro de Angola sem ser através do banco central. Por isso, a transação era conhecida e foi aprovada pelo Banco Central Angolano. Foi dada a garantia, todos os pagamentos de juros foram feitos- Este caso em particular foi discutido no passado e não houve danos para a Unitel. Pelo contrário, este empréstimo serviu de instrumento de cobertura para a Unitel. Quando este empréstimo for pago, irá na verdade representar um ganho para as contas da Unitel e não uma perda..
 
BBC: Em 2017 era presidente da Sonangol. Foi o seu pai que lhe deu o cargo.
 
IS: Não, não foi o meu pai, foi o governo, mas enfim (risos). Podemos analisar isso. Foi a comissão.
 
BBC: Na altura em que o seu pai era presidente.
 
IS: Fui convidada para dirigir a Sonangol pela comissão de restruturação de gás e petróleo. Foi nomeado chefe da comissão para a restruturação do sector do gás e do petróleo, incluía o ministro das finanças, o governador do banco central, o ministro do petróleo, o ministro da economia, era um comité bastante grande e foi para este comité que eu trabalhei. Trabalhei para eles como consultora. E depois de ter acabado o trabalho de consultora, perguntaram se podia pensar no cargo de presidente da Sonangol.
 
BBC: No final do seu período como presidente da Sonangol, transferiu, ou assinou uma transferência de 57 milhões de dólares para uma empresa de consultoria chamada Matter.
 
IS: Quero ir ao início da minha estadia na Sonangol porque penso que é importante. Fui convidada para entrar na Sonangol em Junho de 2016 e saí da Sonangol em Novembro de 2017, logo estive menos de 18 meses na Sonangol. Antes de ser presidente da Sonangol, o presidente era o Sr. Manuel Vicente, foi durante quase 14 anos, pelo Sr. Manuel Vicente. Os problemas que a Sonangol tinha e enfrentava não foram criados na minha administração.São problemas que havia quando eu cheguei e enfrentei. Descobri que já existiam. Entrei numa empresa que tinha uma situação financeira muito difícil. A dívida era quase de 20 mil milhões de dólares.

É uma dívida enorme para qualquer empresa do mundo. A empresa estava em incumprimento, tinha incumprido em todos os seus acordos financeiros. Por isso os bancos não estavam contentes e estavam a ligar, a enviar cartas a dizer que o rácio de dívida era extremamente alto. Não tinha capital suficiente para fazer face às suas obrigações. Trinta dias depois de ter chegado, em julho recebi uma carta a reclamar o pagamento de 450 milhões de dólares. Agora imagine, uma empresa quase sem dinheiro e recebo uma carta a reclamar o pagamento de 450 milhões de dólares em dívida. Foi uma situação muito difícil. Quando entrei o preço estava à volta dos 30 dólares. Com preços a rondar os 30 dólares, a Sonangol não fazia dinheiro.

O que era um grande problema, e fui convidada pelo comité de restruturação para o sector do gás e do petróleo, para os ajudar a encontrar uma solução. Quando os preços do petróleo desceram, em muitos países por todo o mundo que são países produtores de petróleo começaram a ter problemas em atrair investimento para o sector do petróleo.Precisavam rapidamente de restruturar a Sonangol. Percebemos que tínhamos um problema. O presidente da Sonangol que lá esteve antes de mim, produziu um diagnóstico. Fez uma declaração pública em que disse que a empresa estava na pré-bancarrota. Quando disse isso, fez soar alarmes por todo o país, especialmente no governo. Convidaram-me pela experiência internacional. Eu já estava a gerir vários grandes negócios em Angola e eles queriam ter a visão de alguém que vinha do sector privado e ter uma espécie de visão do sector privado a ver uma empresa estatal. Aceitei o desafio, entrei como consultora, expliquei-lhes muito cedo que era um exercício muito difícil, porque era um exercício multidisciplinar e que teríamos de trabalhar com outros consultores. Consultores que já tinham trabalhado comigo no passado e em quem eu confiava, por isso queria envolver pessoas, como a McKinsey e o Boston Consulting Group e a VdA, a PwC. Era preciso olhar para diferentes ângulos, precisamos de olhar para os próprios problemas operacionais da empresa. Precisamos de ver como restruturar as suas finanças e precisamos de olhar para as questões fiscais e precisamos ver as questões laborais, e precisamos de olhar para um sistema de IT adequado. Um dos problemas, por exemplo, era que não tínhamos contabilidade atualizada, tínhamos de esperar um mês ou dois pela informação, não era informação diária. Disseram que queriam que a mesma equipa de consultores continuasse e implementasse estes trabalho. Assim, foi criada uma empresa chamada Matter para continuar o trabalho que já tinha sido feito para o Ministério das Finanças.
 
BBC: E foi criada por um dos seus empregados e por alguém próximo?
 
IS: Bem, para esta companhia, a missão era continuar o trabalho que já tinha sido entregue ao governo. Por isso era importante ser a mesma equipa a continuar, porque de outra forma seria uma interrupção, já tínhamos passado quatro ou seis meses. A atribuição deste contrato para esta empresa foi votado pelo conselho de administração da Sonangol. Não votei no contrato desta empresa, embora os contratos fossem conhecidos. É uma empresa muito conhecida pelas autoridades governamentais. A Matter e todos os conselheiros empresariais da Matter conduziram dezenas de reuniões com as autoridades governamentais, fizeram pelo menos duas apresentações ao Presidente Lourenço, fizeram apresentações ao Banco Central Angolano, fizeram apresentações ao Ministro do Petróleo, fizeram um sem número de apresentações a bancos. E todo este trabalho muito comunicado, foi um trabalho muito conhecido. A presenta de consultores na Sonangol foi noticiado na comunicação social. Mas mais importante que tudo, o trabalho que foi feito foi extremamente importante.
 
BBC: Foi um trabalho extraordinariamente caro...
 
IS: Pelo contrário, foi pela metade do preço que a antiga administração tinha pago.
 
BBC: Ainda assim nos seus últimos dias na Sonangol, nas últimas semanas, aprovou faturas de 57 milhões de dólares da Matter, desta organização de consultoria. A suspeita que temos, e sabe isso através dos investigadores angolanos, é que estava essencialmente a esvaziar essas contas corruptas antes de deixar o cargo.
 
IS: Bem, isso é falso e já tive a oportunidade de abordar essa questão. O contrato que foi assinado com todos os consultores era transparente, e como disse foi aprovado pelo conselho de administração, e as taxas cobradas foram mais baixas que as taxas padrão do sector do gás e do petróleo, porque negociámos muito, explicando que a Sonangol estava a passar um momento muito difícil, e por isso era importante estabelecer uma relação que fosse duradoura. O custo total para 18 meses foi cerca de 115 milhões de dólares, por 18 meses. Sei que estes números parecem astronómicos, eu não venho do sector do petróleo, venho do sector do retalho e supermercados e por isso quando oiço estes números também penso que são muito altos. Mas o sector do petróleo, sim é tremendamente caro quando se trata de consultoria. Se olharmos para 2014, o Sr.(Francisco José) Lemos, então presidente da Sonangol, assinou um acordo de consultoria de 12 meses por 254 milhões de dólares. Em 2015, posso estar a dizer mal os anos, mas os números estão corretos, o acordo de consultoria foi de 150 milhões de dólares. (...) E este trabalho foi extraordinariamente importante, conseguimos cerca de 40% de poupança nos custos, e isso fez a diferença. Se não tivéssemos conseguido poupar 40% em custos, a Sonangol não estaria aqui hoje. Trabalhávamos literalmente das nove da manhã às dez da noite, eu estava grávida. Durante nove meses deste período eu estive grávida. O meu filho nasceu a 31 de julho e a 27 de julho estava numa reunião de conselho. Estava totalmente empenhada neste projecto.
 
BBC: Voltando à Matter Business Solutions. No final do seu tempo na Sonangol autorizou um pagamento de 57 milhões de dólares a esta empresa.
 
IS: O contrato da Matter era mais que um contrato anual.
 
BBC: Sim, mas...
 
IS: Todos os serviços prestados sob contrato são serviços conhecidos e foram feitos e prestados. E todas as faturas são relacionadas com os serviços prestados, se me pergunta porque é que foi tão no final, posso explicar: Quando cheguei à Sonangol havia imensos problemas de tesouraria, a empresa tinha problemas em julho de 2017, a dívida para o projeto de consultoria e a dívida para o projeto de restruturação estava em quantias muito elevadas. De 20 de junho de 2017 até novembro houve uma série de pagamentos feitos, e não foi só este. O contrato total, como disse, cerca de 18 meses foi de 115 milhões de dólares e estes pagamentos foram feitos. Os consultores que receberam o dinheiro são empresas muito conhecidas e são transparentes.
 
BBC: Recebemos cópias destas faturas dos 57 milhões. Posso mostrar algumas e pedir que me explique?
 
IS: Não estou muito familiarizada com as faturas em si.
 
BBC: Aqui, por exemplo, 472 mil euros, e não tem uma explicação para o que é...
 
IS: Bem, não estou muito familiarizada...
 
BBC: E assinou estas.
 
IS: A maneira como a Sonangol funciona, e isto é...
 
BBC: Estas duas são quase idênticas de 676 mil e outra vez 676 mil, e são mais uma vez muito vagas.
 
IS: Bem...
 
BBC: Consultoria aqui...
 
IS: Tem a certeza que não há mais documentos que vos deveriam ter sido entregues e que provavelmente não estão aí...
 
BBC: Não há mais nenhum. E a preocupação é que se enquadra na explicação ou alegação das autoridades angolanas que os fundos estavam a ser, na verdade, saqueados no último minuto.
 
IS: Claro que não foram. Isso não faz qualquer sentido. O contrato é um contrato bem conhecido das autoridades governamentais angolanas. Eles sabiam, todos os que trabalharam no projeto, encontraram-se com eles regularmente e são as mesmas pessoas. Não sei a origem desses documentos nem mesmo como os documentos vos foram dados.
 
O FUTURO E A POLÍTICA COMO UM SENTIDO DE DEVER
 
BBC: As nossas fontes confirmam que estão de acordo com o que diz ter acontecido.
 
IS: Não, não estou a dizer que não são, estou apenas a dizer que não conheço esse documento. E por favor compreenda que a Sonangol é uma empresa que tem um conselho, e que tem diretores, e que durante o meu mandato na Sonangol também tínhamos um CEO (presidente da comissão executiva) e era CEO muito envolvido nas operações. E todos os diretores estavam envolvidos com as operações. Havia vários consultores, havia pessoas que trabalhavam em IT, por exemplo um dos problemas que encontrámos foi com a SAP. A Sonangol tinha investido cerca de 450 milhões de dólares na SAP. E parte das funcionalidades da SAP não estavam a funcionar. Isso foi um dos problemas que a firma de consultoria nos ajudou a resolver, foi perceber que funcionalidades não estavam a funcionar.Há muitas provas de que todo este trabalho foi feito.
 
BBC: Então não foi uma loucura de saques de última hora.
 
IS: Não, claro que não.
 
BBC: Como as autoridades angolanas sugerem.
 
IS: Não sabia que ia ser demitida a 16 de novembro, não sou vidente, não sei o que se passa na cabeça do Presidente e não tinha razões para crer que iria ser despedida naquele dia. Por isso, a minha interpretação é que há uma manipulação, uma manipulação por parte do Sr. (Carlos) Saturnino, (o presidente que substituiu Isabel dos Santos). Que quando foi para a Sonangol já tinha uma vingança pessoal contra mim. Não tenho dúvidas. Ficou muito chateado porque o demiti da sua posição de Diretor da Sonangol P&P. Não acredito que o seu despedimento tenha sido injusto, penso que ele o ligou ao facto de que quando o despedi, sugeri que ele tinha... que havia problemas com as empresas. A razão do seu despedimento foi a perda de 800 milhões de dólares que ele causou à empresa. A Sonangol P&P registou perdas no valor de 800 milhões de dólares e não me parecia bem deixá-lo como Diretor da Sonangol P&P e por isso despedi-o. E foi esta pessoa que foi nomeada para me substituir. Quando entrou, queria muito mostrar ao mundo uma espécie de vingança e procurou por alguma coisa para mostrar que tinha havido problemas na minha gestão na Sonangol, quando não houve nada. Não sabia se sairíamos a 16, 17 ou 21 de que mês e de que ano. Suspeitava que o Presidente talvez um dia me pedisse para sair? Que o clima político estava a começar a desenvolver-se de modo que começámos a perceber que o Presidente João Lourenço iria embarcar numa espécie de missão de dissociação com o Presidente dos Santos? Poderia ser eu vítima desta batalha política? Estas eram perguntas que pairavam no ar. Mas como gestora profissional, e confiante, não tinha razões para crer que o meu trabalho não era um bom trabalho.
 
BBC: Então como explica que exista a opinião de tantas pessoas, e falamos de líderes empresariais, diplomatas, analistas, jornalistas em Angola e no estrangeiro que analisam a sua carreira e veem uma mulher que teve sucesso apenas porque o seu pai era Presidente?
 
IS: Para tantas vozes que, como diz, apontam para uma direção, há tantas outras que dizem que sou uma das maiores figuras empresariais em África, que sou uma empreendedora, que construí e criei muitas empresas que pagam impostos, criam emprego, têm produtos de qualidade (...) Não espero que 100% das pessoas gostem de mim, espero que a maioria goste de mim, faço o meu melhor para que as pessoas percebam quem sou e para perceberem de onde venho, mas é normal que algumas pessoas não gostem, mas tenho muitas pessoas que gostam de mim e percebem o que faço.
 
BBC: Nadou por essas águas?
 
IS: Venho de um mundo onde acredito que somos definidos pelo nosso trabalho. Por isso, estou sempre a trabalhar. E se se quisesse fazer as coisas como descreve, então provavelmente o meu dinheiro viria de comissões obscuras, de contratos relacionados com o governo ou assim, e não é o caso.
 
BBC: Os seus críticos dizem que veio ao sabor da caneta do seu pai.
 
IS: Não veio, não dá para criar um supermercado, um banco, ao sabor da caneta, não é assim que acontece.
 
BBC: Como lhe parece agora o futuro, porque não quer ir para casa? Porque pensa que vai a um julgamento provocado por uma caça às bruxas?
 
IS: Não, na verdade não quero ir para casa, não porque pense que vou a julgamento, sou uma pessoa que acredita em respeitar a lei, quando a lei existe e quando existe um estado de direito.
 
BBC: E a lei pode desaparecer rapidamente de um país?
 
IS: Quando se tem um governo ou um procurador geral que deseja instrumentalizar a lei, então a lei está a ser instrumentalizada por figuras públicas e sim, desaparece na verdade. Perguntou-me porque não volto a Angola. Há uma boa razão para não querer voltar para Angola, porque da última vez que estive em Angola fui seguida pelos serviços secretos e, não sei se conhece a história de Angola, mas o General (Fernando) Miala, tinha sido condenado há alguns anos por uma série de crimes e tinha estado preso, e tinha ficado sem as suas patentes militares. Havia um grande rumor sobre um possível golpe de estado por isso (impercetível) queria levar (impercetível) ao Presidente dos Santos. E foi preso e esteve na prisão quatro anos e foi libertado e quando o Presidente Lourenço tomou posse reintegrou o General Miala como general e como chefe dos serviços secretos. É uma decisão estranha. Mas mais, quando cheguei a Angola, na última vez, fui seguida pela polícia secreta em vários carros, a minha casa estava cercada por dezenas de indivíduos. Comecei a perceber que havia o problema da minha integridade física e que corria um risco físico.
 
BBC: A sua vida estava em perigo?

IS: Sim. Como lhe disse, estive grávida nove dos 18 meses que passei na Sonangol, por isso pode imaginar como eram tempos difíceis, e era o primeiro aniversário do meu filho E os serviços secretos infiltraram-se na festa de aniversário.Infiltraram-se numa festa de crianças. Chegaram e fingiram ser convidados, quando não o eram - e imediatamente demos por eles e sabíamos que a mulher era agente dos serviços angolanos.
 
BBC: E o que fez?
 
IS: Claramente percebemos que nem eu, nem os meus filhos, nem a minha família estaríamos seguros em Angola, tendo em conta as circunstâncias.
 
BBC: Disse repetidamente que não se quer envolver em política, que não é política no entanto não se imagina que a única possibilidade de voltar para Angola e continuar os seus negócios seja através da política, não é para aí que as coisas caminham?
 
IS: Penso que sou assimétrica, há pouco estávamos a ter uma outra conversa e o mundo está a mudar e vivemos num novo mundo. Por isso todos estes clichés, que havia no passado pessoas que começaram a quebrar algumas barreiras. Venho de uma geração mais nova, não acredito que África apenas possa mudar através da política. Na minha visão, África pode mudar através de negócios, através de fazer verdadeiramente a diferença ao investir no nosso país. O que fiz foi que peguei no meu dinheiro e investi no meu país. Pedi dinheiro emprestado de bancos e investi no meu país, criei oportunidades. Os projetos que criei são projetos que falam para as pessoas e de que as pessoas gostam. Penso que fui transformadora. E quero continuar a ser transformadora, quero muito continuar a trabalhar no meu país e continuar a contribuir para o meu país.
 
BBC: Os seus bens foram congelados. A única maneira de voltar é se voltar e lutar.
 
IS: Para mim um bom líder é um líder que é prudente, é um líder serve as pessoas da melhor forma. Tinha gostado muito de ter visto, antes das autoridades terem tomado esta decisão de congelar os bens ou agarrar os bens, porque isto é mais um agarrar dos bens do que um congelar dos bens, que tivessem dialogado, que tivessem conversado, que tivessem ligado para as empresas e dissessem, podem clarificar esta situação, podem mostrar-nos esta prova, e esta? Penso que se tivessem dado a oportunidade de dialogarmos, tenho a certeza de que muitos destes assuntos estariam resolvidos. Ou pelo menos muitos destes assuntos teriam sido esclarecidos. Teria sido um caminho melhor, mais prudente e é uma pena que não haja oportunidades de dialogar. Mas espero que possa haver um diálogo, porque no fim de contas temos de nos lembrar que isto não afeta só uma pessoa. afeta milhares de meios de subsistência, irá sem dúvida afetar o sistema bancário. Por isso espero que o bom senso prevaleça.E que haja um diálogo com as autoridades e governo atuais para resolver este problema.
 
BBC: Não teme acabar como a família Gupta na África do Sul, afastada do país e forçada a acabar no Dubai ou a usar o seu passaporte russo e não fazer mais parte deste mundo empresarial internacional, o mundo de Davos, onde esteve durante tanto tempo?
 
IS: Sei muito pouco sobre esse caso, sei apenas o que saiu na imprensa. É importante para Angola estar num sítio que seja inclusivo onde todas as pessoas possam participar. Sejam pessoas da antiga família do presidente ou pessoas da oposição ou pessoas que são ativistas políticos, penso que é importante termos um país a que possamos chamar casa. E Angola é, sem dúvida, suficientemente grande para ter todas estas diferentes vozes. Como lhe disse fui educada aqui no Reino Unido, por isso acredito na democracia. E uma coisa que gosto muito e que aprendi no Reino Unido é a tolerância. Gosto muito quando vemos debates no parlamento e vemos debates muito acessos entre os Conservadores e os Trabalhistas, mas ao mesmo tempo há respeito e espaço. É este tipo de país que gostaria de ter em Angola.
 
BBC: Então, também está a excluir um Presidente dos Santos dois.

IS: Se me perguntar sobre política, acredito que, tenho um sentido de dever, porque ir para a Sonangol, não foi por causa do dinheiro, já era rica. Por isso a minha motivação para ir para a Sonangol não foi, de todo, financeira.
 
BBC: Então não está a excluir a hipótese de se candidatar à presidência?
 
IS: Trabalho porque acredito que é importante transformar as coisas à nossa volta, é importante ser uma mudança positiva.
 
BBC: Já percebi que não responde não a uma pergunta direta.
 
IS: Qualquer que seja o dever que tenho e aprendi aqui muito o sentido de dever. Se tens um sentido de dever, e liderar é servir, irei fazer o que a vida me reservar, ainda sou muito nova, não sei o que o futuro...
 
BBC: Então a presidência talvez seja a maneira de ter o seu império de volta, se conseguir fazê-lo.

 
IS: Não penso isso. Penso que os assuntos comerciais são necessariamente resolvidos assim, mas este é um ataque politicamente motivado. E, vamos chamar as coisas pelos nomes, este é um ataque politicamente motivado onde há um forte desejo de neutralizar qualquer influência que o Presidente dos Santos possa ter ainda no MPLA. Não há dúvida, há uma luta pelo poder dentro do MPLA.
 
BBC: O seu pai esteve 40 anos no poder e agora, de repente, as instituições parecem muito frágeis.
 
IS: Bem, 17 anos de paz não é muito tempo. Os fundamentos para construir instituições fortes vão demorar mais de 17 anos, principalmente num país devastado por uma guerra de 30 anos.
 
BBC: Não diz muito sobre o legado do seu pai.
 
IS: O legado do meu pai é um legado de paz, ele era um líder democrático, foi eleito três vezes consecutivas em eleições democráticas, com vitórias esmagadoras. Foi amado por, sabe, durante quase toda a sua presidência, deixou o cargo por vontade própria. É muito raro em África que um presidente no poder há muitos anos decida retirar-se. E ele retirou-se, calmamente, deixou outras pessoas gerirem o destino de Angola.

 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação