Corrupção nas unidades de trânsito: Conheça o “modus operandi” dos agentes e os locais onde mais lucram
12-02-2020 | Fonte: NMC

O combate à corrupção é o ‘cavalo de batalha’ do Presidente João Lourenço e uma das premissas do actual Executivo. Mas ao que tudo indica, a Polícia Nacional parece não estar comprometida com essa luta, num claro desrespeito aos desígnios do presidente da República.
 
Pelo contrário, mostra-se claramente como o principal impulsionador deste mal que há anos enferma o país e que precisa um combate mais efectivo.
 
Exemplos desta prática nefasta abundam e acontecem diariamente em todos os locais onde são colocados, em missão de serviço, agentes da Polícia Nacional, com maior realce na via pública.
Ao olhar impávido e sereno de quem tem a obrigação de fiscalizar a acção policial, ali, os agentes dos diferentes ramos da Polícia Nacional, ganham os seus salários à luz do dia com a cobrança da famosa gasosa aos automobilistas e moto-taxistas.
 
A gasosa, institucionalizada ainda no tempo de Fernando Dias dos Santos no Ministério do Interior, e denominada entre o entendimento entre o agente e o cidadão, viu os seus dias contados com a entrada em cena do novo Executivo cujo presidente afirmava, ainda em tempo de campanha, que doravante passaria a ser salgada.
 
Três anos depois do novo Executivo entrar em cena, a gasosa continua doce e parece mais adocicada, na medida em que os agentes, indiferentes ao olhar atentos de transeuntes e de passageiros a bordo dos veículos que interpelam, se dão ao luxo de receberem tudo o que lhes vem parar a mão, desde 200 kwanzas a dois mil kwanzas, em função da gravidade da infracção cometida pelo automobilista ou moto-taxista.
 
Cada agente à beira da estrada tem o seu alvo preferencial. Segundo apurou o Na Mira do Crime, os agentes da ordem pública trocaram o interior dos bairros pelas bermas das estradas, cujos alvos são preferencialmente os moto-taxistas de duas e três rodas.
 
A pretexto de uma vistoria em busca de armas os kupapatas, não são soltos sem deixarem uma ‘micha’ que nunca vai além dos 500 kwanzas, salvo erro se for um carro patrulha.
 
Já os agentes reguladores de trânsito, quer apeados ou motorizados, estes começam nos 500 e vão até aos dois mil kwanzas.
 
Cada braço levantado, subentende à partida mil kwanzas. Daí a expressão que os agentes fazem os seus salários na rua à luz do dia.  Os automobilistas, na sua maioria taxistas, preferem largar a gasosa para não perderem o dia com conversa que os pode fazer demorar mais de 30 minutos parados.
 
“Mesmo estando devidamente documentados, os agentes procuram sempre uma forma de te tirar pelo menos 500 kwanzas”, denuncia um taxista que faz a rota Cuca / São Paulo que tinha a documentação em ordem mas que teve de pedir 500 kwanzas ao cobrador para se ver livre de um agente regulador de trânsito.
 
Um camionista que vende inertes no mercado do Km 30, por exemplo, segredou ao Na Mira do Crime que na quarta-feira, 05, foi interpelado por agentes da esquadra do Baia e, mesmo estando com o camião vazio, foi-lhe exigido documentos de exploração mineira. Respondendo que estava com o camião vazia e que não carregava nada de ilegal, conta, não saiu das ‘garras’ dos agentes sem deixar alguns trocados. “Para beber água”.
 
O pagamento de gasosa conforma o dia-a-dia dos automobilistas. “Todo mundo sabe e vê. Só não vê os órgãos de fiscalização que deveriam impedir a continuidade dessa prática”, explicou Aristides Samuel, um automobilista que no seu entender, sendo algo que o presidente da República puxou à si a sua implementação deveria ter órgãos para a sua fiscalização.
 
“Mas não é o que acontece. Todos os dias, agentes reguladores de trânsito saem das ruas com metade do salário só de levantarem os braços. Cada automóvel que pára são 500 a mil kwanzas. Quantas horas fica um agente na rua e quantos veículos ele manda parar durante esse tempo?”, questionou, acrescentando que tem agentes que, por ganância, chegam mesmo a interpelar dois a três veículos ao mesmo tempo.
 
Esta acção, garante, é domínio de todos. Ainda assim, sublinha, não vê esses actos a diminuírem. “Pelo contrário, a gasosa está cada vez mais doce e todo mundo quer ser agente regulador de trânsito para ter boa vida, um carro caro, exibir-se cheio de mascotes e fios de ouro e a barriga a dilatar”.
 
Uma das zonas de maior “exploração automobilística” e que cria serias dificuldades para os passageiros de táxis, está logo a saída do mercado do 30, Viana. Todos os dias, agentes da Brigada Especial de Trânsito (BET) saem daí com avultadas somas de kwanzas.
 
O Na Mira do Crime permaneceu no local, ontem, terça-feira, 11, e notamos o modus operandi dos agentes.Estão sempre entre três a quatro agentes, encostam as suas viaturas pessoais próximo da zona de operação para, quando darem a ordem de paragem a algum automobilista e este não obedecer, fazem o truque que vão subir a viatura. Mas não passa apenas de um truque.
 
Não há táxi que não é interpelado, os mini-autocarros são os mais visados, nem precisam mostrar documento algum, basta que descem com um papel dobrado e que dêem a gasosa. Sem vergonha nem respeito a farda, a saída do mercado do 30, em Viana, é a zona mais corrupta dos agentes da BET. Como consequência, centenas de passageiros amontoam-se junto as bombas de combustível que aí existe, a espera de um transporte.
 
Um cancro difícil de combater Tal como apuramos e devidamente descrita acima, a gasosa institucionalizada no tempo da ‘outra senhora’ parece ter entranhado neste órgão castrense cujo termino não se afigura fácil ou próximo.
 
E, ao que parece, estamos diante de um “cancro” difícil, senão mesmo “impossível” de ser vencido, muito porque quem pode fazer algo “não liga”. “Já passaram em Luanda vários comandantes, muitos deles, com a vontade de combater a corrupção.
 
Infelizmente, nenhum deles foi capaz de erradicar esse mal que, pela frequência com que se leva essa prática, muitos deles já tenham amealhado um bom dinheiro e outros fizeram fortuna à custa de extorsão aos automobilistas”, garantiram alguns automobilistas.
 
As paragens de táxis, um pouco espalhadas por esta Luanda, até aos bairros onde a circulação automóvel ainda é feita pelos chamados táxis “acaba de me matar”, a presença exagerada de agentes reguladores de trânsito, da ordem pública e, muitas vezes até, de comandantes locais, com o único fito de facturarem algum dinheiro.
 
“O curioso é que nem sempre esses agentes pedem os documentos. Ali na curva da antiga Brigada Especial de Trânsito, fica sempre um agente regulador motorizado. Ele tem por hábito interpelar mais de duas viaturas e todos quando descem apenas entregam a documentação com 500 ou mil kwanzas”, denunciou um automobilista, garantindo que o referido agente não se dá ao trabalho de verificar a documentação que lhe é entregue, limitando-se a retirar dali os valores e a mandar seguir a marcha.
 
Pelo facto de ser conhecido o “modus operandi” dos homens da “farda azul”, os automobilistas muitos deles sem o documento que os habilite a conduzir um veículo automóvel, passam despercebidos, “porque, a gasosa fala mais alto”. ~

Trabalham com zungueiras
 
Numa ronda efectuada por este portal, em alguns pontos como na paragem de táxis da Cuca, do Tanque do Cazenga e até mesmo da Shoprite, os agentes ali colocados muitos deles trabalham em colaboração com os vendedores ambulantes e algumas cantinas.
 
Em função de temerem uma possível inspecção, orientam os automobilistas a entregarem os valores aos referidos vendedores ou na melhor das hipóteses, depois de receber os valores dos automobilistas, depois de algum tempo, a pretexto de comprar saldo, entram nas cantinas e ali guardam o dinheiro.
 
“Mas ainda assim, tudo fica como se nada aconteceu”, garantiram, alguns automobilistas que já tiveram de dar uma gasosa, mas que se sentem injustiçados quando são apanhados a dar gasosa.

“Sempre somos nós que vamos à julgamento sumário por tentar corromper um agente, mas nunca um agente que nos mandou nos organizarmos e arranjar um saldo para ele é julgado”, apontaram, sublinhando que nesses casos, os automobilistas acabam por ser o elo mais fraco, já que entre agentes há cumplicidade e cooperação mútua.
 
Por outro lado, segundo uma fonte conhecedora do metier, os agentes são orientados a extorquirem os automobilistas, uma vez que os valores arrecadados são, na sua maioria, repartidos com os superiores que fazem a escala do efectivo para as zonas mais lucrativas.
 
“O agente que não repartir a ‘micha’ corre o risco de ficar na esquadra sem ter direito a ir à rua facturar”, denunciou, garantindo que passou a ser algo normal na corporação, por este facto, duvida mesmo que essa acção venha a conhecer o seu fim por ser algo institucionalizado de forma oficiosa.

 
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