"Se calhar, alguns de vocês são mais ricos do que Isabel dos Santos"
13-02-2020 | Fonte: DW

A avaliação que o consultor Pedro Hipólito fez sobre a fortuna de Isabel dos Santos após o escândalo "Luanda Leaks" tem sido um sucesso nas redes sociais. Em poucos dias, o vídeo "Luanda Leaks: O império de Isabel dos Santos é insustentável" teve dezenas de milhares de acessos e comentários no canal de Hipólito no YouTube.
 
Nesta entrevista à DW África, o diretor-geral da Five Thousand Miles - uma empresa de consultoria e desenvolvimento de negócios internacionais com escritórios em Lisboa, Lagos, Durban e São Paulo - explica como chegou à conclusão de que a fortuna de Isabel dos Santos corre sérios riscos após o arresto de bens da empresária em Angola e do congelamento das suas contas em Portugal.
 
DW África: Como se pode concluir que a fortuna de Isabel dos Santos está realmente ameaçada?
 
Pedro Hipólito (PH): O grupo de Isabel dos Santos tem dois lados. Tem um lado angolano e um lado internacional. Durante muito tempo, o lado angolano financiou o lado internacional, [por exemplo, através de] participações de empresas públicas angolanas nos investimentos internacionais onde a engenheira Isabel dos Santos também tinha património… A participação dela na GALP terá sido financiada por empresas angolanas, vimos a aquisição da [joalharia] De Grisogono também com participação da empresa de diamantes de Angola [a estatal Sodiam]. Os dividendos dos empréstimos das empresas dela e as empresas públicas angolanas apoiavam o grupo fora de Angola. Com a situação que está em curso, todas as operações em Angola foram arrestadas. Todas essas empresas (BFA, Unitel, Eurobic, e Zap) foram arrestadas pela Justiça angolana. Não podem libertar recursos para o resto do grupo internacional.
 
Todas as empresas públicas angolanas, nesse contexto de credibilidade fragilizada, vão ter resistência em continuar a investir em empresas participadas pela família dos Santos. De Angola não sai mais nada. Em cima de não sair mais nada, há um pedido de restituição de mil milhões de dólares [por parte da Justiça angolana]. Toda a parte internacional era uma parte alavancada com dívida. Nós vimos o caso da De Grisogono – [de aquisição] apoiada pela empresa estatal de diamantes - que já faliu. Vemos o caso de empresas muito boas, como a Efacec, que era apoiada com dívidas até de bancos internacionais… E esta dívida não desaparece. Portanto, quando a grande fonte de receita de um grupo económico de dimensão seca, há claims de justiça e de credibilidade em cima, e os investimentos internacionais são todos alavancados com dívida - serviço da dívida e juros a pagar - é uma questão de tempo até haver uma erosão generalizada nos ativos - pelo menos aqueles conhecidos e públicos.
 
DW África: A De Grisogono faliu dias depois do escândalo "Luanda Leaks" vir à tona e a empresa de bebidas SODIBA corre o risco de fechar. Isabel dos Santos vendeu as suas posições no Eurobic e já anunciou que vai sair da estrutura acionista da Efacec Power Solutions. Seriam esses sinais claros de que ela está a perder a sua fortuna?
 
PH: É difícil dizer. Depende muito também dos credores. As posições internacionais, em grande medida, eram financiadas com dívida até de bancos ou por vezes da própria petrolífera angolana [Sonangol]. Esses bancos agora vão ter que fazer uma escolha. O cenário "A" é forçar o cumprimento dos contratos, dizendo que tem mesmo que pagar os juros e amortizar os empréstimos. Se fizerem isso, vão declarar a degradação do "império" de Isabel dos Santos, que provavelmente não tem cashflow para se sustentar.
 
Portanto, vão ser executadas garantias que podem ser as ações do próprio grupo [de Isabel dos Santos] nas várias empresas. Mas isso pode pôr os bancos expostos a reconhecerem imparidades. Porque vão ter que reconhecer que aquele crédito, ao fim e ao cabo, entrou em default. O cenário "B" seria fazer o rollover dos créditos cedidos e dar tempo para uma restabilização. Portanto, depende muito do comportamento que os credores vierem a ter. Mas eu julgo que esse comportamento tem que ocorrer de imediato, estamos a falar num par de semanas. Vimos o Eurobic transacionado, o banco de Isabel dos Santos. Outros investimentos em Portugal, como a Efacec, que são muito alavancados, vão abrigar uma decisão dos bancos. Provavelmente com venda de participações de Isabel dos Santos e, depois disso, um novo apoio da banca ou novo investidor.
 
DW África: Qual seria a próxima a cair?
 
PH: Eu não quero falar de informação privada, mas quem lê os jornais percebe que a posição do grupo Isabel dos Santos da Efacec foi adquirida com muita dívida. A Efacec é uma empresa portuguesa de produtos de qualidade, tecnologia e know-kow. Eu imagino que, neste momento, não exista a capacidade para servir essa dívida. Não quero falar da sustentabilidade da empresa Efacec. O que estou a dizer é que veículos criados para fazer a aquisição da participação de Isabel dos Santos em cerca de 70% da Efacec podem ficar muito fragilizados. Não a Efacec em si, mas os veículos que têm as ações. Eu julgo que isso será visível muito rapidamente. Terá que haver uma rápida alteração nos contratos de vencimento.
 
DW África: Qual é o setor mais fragilizado neste cenário?
 
PH: Ela tem três áreas principais históricas. A primeira é as telecomunicações - foi fundadora da Unitel em Angola e da Zon em Portugal. O segundo setor é o da banca, com BIC, BFA… Ela chegou a ter o BPI em Portugal. O Eurobic, ela vendeu há alguns dias. O terceiro setor é o da energia, com a Galp. Ela tem uma participação na Galp, mas está dentro de um veículo que também tem a Sonangol como investidor. E a posição dela na Galp, como se diz, foi financiada em 75 milhões de dólares pela Sonangol. E há uma questão na Justiça sobre o pagamento desta dívida, porque a engenheira Isabel dos Santos quereria pagar em kwanzas um crédito que lhe foi dado em dólares. Portanto, eu acho que o que está dentro desse perímetro tem mais alguma resistência do que aquilo que está fora. E tudo o que estamos a ver é o que está a colapsar primeiro. Nós vimos imediatamente os administradores associados a Isabel dos Santos a demitirem-se das empresas… Tudo em Angola nesse setor está arrestado. Julgo que é inevitável que o setor core vai ter impacto, inclusive a participação na Galp.
 
DW África: Não há como estabelecer prazos?
 
PH: O mais importante é perceber a tendência. Prever números, datas e transações específicas é difícil. Temos mais possibilidades de perceber uma dinâmica geral, que me parece imparável. O que vai acontecer provavelmente é que as participações de Isabel dos Santos terão de ser vendidas a outros investidores ou deixarão de ter valor. […] Não passa pela cabeça que estas empresas grandes sejam afetadas por isso. O que vai haver é uma alteração na ownership dessas empresas.
DW África: Fez um vídeo no seu canal no YouTube em que disse a seguinte frase: "Se calhar alguns de vocês são mais ricos do que Isabel dos Santos". Ela tem uma fortuna avaliada em 2 mil milhões de euros pela revista Forbes…
 
PH: Nós, muitas vezes, somos iludidos, porque confundimos ativos com capital próprio. O valor de uma organização é o balanço. "Ativos" menos "passivos" são o capital próprio. Quando nós vemos as avaliações das revistas Forbes e tudo mais, os ativos são muito fáceis de avaliar, porque vimos que ela tem as empresas, vimos que tem casas… Mas o passivo, que é a dívida, é muito difícil de avaliar e até de identificar. Quem faz uma avaliação tem dificuldade de conseguir encontrar dados específicos sobre o passivo de alguém, sobretudo se for financiado com contratos com empresas públicas de outro país, em mercados emergentes. Quando o passivo é maior do que o ativo, quando as dívidas são maiores do que os ativos, tudo colapsa - independentemente do tamanho dos ativos. Então, alguém que tem 1 euro pode "valer" mais do que alguém que tem mil milhões de euros, mas deve 2 mil milhões. […] A pessoa pode ter uma vida luxuosa, pode ter empresas, muitos ativos, mas se tiver dívidas significativas, esses ativos não são dela. Se eu comprar um palácio com o dinheiro emprestado por um banco, o palácio no fundo é do banco. Até eu pagar.

 
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