Depois da Keniana Wangari Maathai, a angolana Eunice Inácio pode ser a próxima galardoada com o Nobel da Paz
25-09-2005 | Fonte: Development Workshop
Eunice Inácio da Development Workshop foi seleccionada para fazer parte do grupo de 1000 Mulheres do projecto do Prémio Nobel da Paz 2005 e foi escolhida de entre mais de 2000 candidatas de mais de 150 países. A coragem e liderança de Eunice, no difícil processo de construção da paz em Angola impressionou o painel e deu-lhe um merecido lugar no topo da lista e uma nomeação individual para o cobiçado prémio.

Humilde e modesta como sempre, Eunice nunca imaginou que o seu nome fosse apontado e mais surpreendida ficou ao saber que a equipa internacional a tinha escolhido para integrar a candidatura oficial, apresentada ao Comité do Prémio Nobel, no princípio deste ano, em Oslo. “Estou muito orgulhosa. Realmente, nunca imaginei que me seleccionassem,” disse ela.

Eunice tem trabalhado, nos últimos cinco anos para o Programa de Construção de Paz (PCP) da DW, ajudando o movimento angolano para a paz a crescer, unindo as suas facções separadas e fomentando a colaboração entre as igrejas Católica, Protestante e Evangélica e ONGs seculares.

“Trabalhar para a paz não é fácil. É um assunto muito sensível, particularmente no nosso país onde os partidos não são abertos e a sociedade civil teme abordar assuntos que pressionem o governo a mudanças,” disse.

“Mesmo as organizações que dizem trabalhar em conjunto, na prática, nem sempre estão nisso interessadas. Esse é o meu maior desafio – tentar envolver todas as organizações na promoção de actividades e persuadi-las da necessidade de trabalhar num ambiente ecuménico,” acrescentou Eunice.

A determinação, o esforço e as qualidades naturais de liderança de Eunice ajudaram a criar alianças entre as várias igrejas e alimentaram um forte movimento para a paz, dentro da sociedade civil emergente de Angola.

As instituições que beneficiam do seu trabalho, incluem as principais igrejas, sob liderança do COIEPA (Comité Inter Eclesial para a Paz em Angola). Supervisionou, pessoalmente, o treino de mais de 600 Promotores da Paz, actualmente, trabalhando em 14 províncias de Angola, ajudando na assistência a cerca de 120 comunidades e a dezenas de milhar de pessoas, em municípios afectados pela guerra.

“Eunice Inácio é uma corajosa e inovadora líder e uma construtora da paz,” diz o Director da DW, Allan Cain. E acrescenta: “ ela usou os seus anos de experiência e a sua autoridade pessoal para servir de mediadora e conseguir consenso num ambiente difícil, dominado por patriarcas religiosos, políticos e militares.”

Eunice acredita que os seus estudos – está a preparar um Mestrado em Resolução de Conflitos & Estudos para a Paz na Universidade de KwaZulu-Natal na África do Sul – assim como os acontecimentos da sua própria vida, habilitaram-na com essa capacidade para unir.

“Eu trago a experiência para a mesa – a minha própria experiência, pesquisas e descobertas, experiências de outras pessoas e também o facto de ser imparcial e o facto de ser mulher faz com que as pessoas me ouçam,” diz ela.

Ouvindo a sua história pessoal ninguém pode deixar de ficar impressionado pela sua coragem e resolução. Trabalhando na sua cidade natal do Huambo, antes, durante e depois do terrível cerco de dois meses, em 1993, que destruiu a cidade e ceifou dezenas de milhar de vidas, ela testemunhou todos os horrores da guerra, foi acusada de ser espiã.

“Foi uma época muito, muito difícil. Sofri muito no Huambo,” diz Eunice. Ela perdeu o marido durante o conflito mas continuou a trabalhar para o bem-estar e protecção de todas as crianças de Angola, cuidando, ao mesmo tempo, dos seus quatro filhos.

Eunice espera que esta nomeação venha a aumentar, ainda mais, a sua esfera de influência, salientando o importante papel da mulher na reconstrução e transformação de Angola.

A força que a ajudou a atravessar os negros dias do Huambo continua muito presente nela: “somos como partes do corpo humano, onde cada parte é vital para a sobrevivência da outra. Se os olhos não vêem, as pernas não funcionam tão bem. Se as mãos se recusarem a pegar na comida, o corpo adoecerá,” diz ela “Precisamos de nos respeitar uns aos outros. Sozinho, nenhum homem pode mudar o mundo.”

Foto: Keniana Wangari Maathai
 
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