«Porque é que para Obasanjo, a questão é de estado?», por João Lusevikueno
28-09-2005 | Fonte:
Ocorreu-me por acaso pensar que Paul Biya, o presidente Camaronês, é bastante interventivo relativamente à tudo aquilo que gira à volta dos “Leões Indomáveis”. Lembro-me por exemplo que em duas ocasiões ordenou a inclusão de Roger Milla entre os eleitos para a Copa do Mundo e que no último africano das Nações teve um papel activo na inclusão de Patrick Mboma no seio da equipa, assim como em matérias que dizem respeito à exoneração do Ministro da Juventude e Desportos, tal como na indicação do seleccionador nacional.

Que segundo alguns relatos, os “Leopardos” no tempo do Mobutu Sesseko, eram uma das melhores e fortes selecções do continente berço e eram utilizados como um veículo de união e de orgulho nacional. Foi inclusive uma das primeiras selecções africanas a participar numa Copa do Mundo e arrebatou por duas vezes o ceptro africano e na altura o chefe de estado doou carros e casas aos heróis.

Que Felix Ouphouet Boigny agia da mesma forma, relativamente aos elefantes da Cote D’Ivoire. Lembro-me também que o Palácio presidencial de Dakar, enchia-se de adeptos sempre que a selecção senegalesa de futebol fizesse uma boa exibição no último Campeonato do Mundo de Futebol e o presidente Abdoulaye Wade aparecia no pátio para acenar e aumentar ainda mais o seu volume de popularidade.

Que Robert Mugabe já prometeu fazendas e outras benesses aos companheiros de Benjamin Muwariwari se estes ultrapassarem a Nigéria e aproveitarem uma escorregadela de Angola. O Zimbabwe politicamente, não anda muito “católico” e há que arranjar mecanismos de equilíbrio relativamente a imagem interna do presidente.

Porque será que chefes de estado com uma agenda tão carregada, preocupar-se-iam publicamente com questões tão “básicas” como o futebol?

Esses factos demonstram que há muito, os dirigentes africanos, conscientes das dificuldades sociais que enfermam o continente e em particular os seus países, perceberam que o desporto e muito em particular a modalidade rainha, também pode ser utilizado como um trunfo para a perpetuação do poder e para a angariação de alguns votos, já que em matéria de políticas económicas e sociais e no combate a corrupção que graça o continente, têm sido pouco eficazes.

Não é pois de estranhar que Olusegun Obasanjo, o homem que dirige um dos países mais difíceis em África e que já vai no seu segundo mandato presidencial e segundo alguns observadores (políticos, organizações de direitos humanos e algumas individualidades) tem uma “Hidden Agenda”, afine no mesmo diapasão.

Na Europa por exemplo, essa exposição mediatíca dos políticos em prol das suas selecções nacionais, não se tem notado, há uma grande subtileza, porque parte-se do princípio que questões que têm a ver com o desporto são delegados para os ministros do pelouro, que têm obviamente a missão de definir as políticas e traçar objectivos, assim como planos de actuação.

A Nigéria o país mais populoso em África e que foi dominado durante várias décadas por regimes militares e ditatoriais, é realmente um daqueles países difíceis de gerir por causa das várias facções tribais, dos conflitos religiosos que o assolam, da corrupção que graça no seu seio e das dificuldades sociais que o enfermam. Para haver equilíbrio, os dirigentes têm de encontrar escapatórias para distrair a população e para tal, nada melhor do que as vitórias no campo futebolístico.

O regime tem levado a cabo uma política anti-corrupção sem precedentes, que levou a detenção de um ex. grande amigo do presidente, Otunba Johnson Ove-Wole Fasawe que é um “businessman”. Problemas que têm também a ver com a corrupção e lavagem de dinheiro, levaram à detenção essa semana em Londres de Diepreve Solomon Peter Alamieveseigha que é o governador do estado de Bayelsa, pela policia metropolitana de Londres. Assim como os distúrbios que isso causou que levou a que os militares andassem pelas ruas, já que pairava no ar, uma ameaça aos interesses britânicos em solo nigeriano. O conflito territorial existente com os camarões onde um grupo como o SCNC com as suas ideologias destrutivas pretende a independência e a concessão de parte do território. Os desentendimentos com o seu vice-presidente relativamente a estratégia e candidatura às próximas eleições, demonstram que Obasanjo tem que ser astuto.

As suas acções falam por si, Obasanjo está a fazer uma tremenda luta à corrupção no país, e esse plano tem como objectivo melhorar a sua imagem em termos domésticos e internacional. Considerando a ida à Copa do Mundo uma questão de estado, Obasanjo começa assim de uma forma indirecta a “estoirar” alguns activos financeiros que o poderão conduzir a reeleição em 2007, mesmo que não o queira admitir. Não irá obviamente jogar em Kigali, mas haverá uma mão sua a tentar driblar Akwá e companhia.

Enganam-se aqueles que pensam que o jogo será disputado dentro das quatro linhas, o título “Money Game” não veio por acaso e podem ter a certeza que não será pela arbitragem, porque esse é somente um dos melhores que o continente tem, para além do facto de ter a supervisão FIFA-CAF. O Ruanda, conta no seu seio com Elias do Standard de Liége (angolano), para além do facto de contar com cinco jogadores naturais de Congo democrático, o país do “Lingala”, língua usada e abusada em grande percentagem em muitos círculos económicos, financeiros, políticos, diplomáticos, académicos e culturais da nossa sociedade e que pode também ser utilizado como trunfo. As equipas de avanço que voarem para Kigali, devem obrigatoriamente contar com gente detentora dessa habilidade linguística. Relações Internacionais, não se faz apenas com as línguas inglesas e francesas.

Não se consegue entender, porque é que contra o Zimbabwe, o Ruanda jogou sem os profissionais e logo agora contra os Palancas, onde nada, mas nada mesmo têm a ganhar, convocam toda a sua constelação de estrelas para nos “agilizar”. Não é por acaso que tal como Mobutu, Paul Biya, Abdulaye Wade, e Felix Ouphouet Boigny, Obasanjo assume a “liderança” dos “Super Eagles”, e segundo rumores, com viagem marcada inclusive para o Ruanda, porque trata-se no fundo da sua própria sobrevivência política que está em jogo. Assumindo directamente o controlo da NFA (Nigeria Football Association) e coordenando totalmente a Comissão criada para qualificar de todas as formas e feitios à Nigéria para a Copa do Mundo, Obasanjo arrecadará votos pessoais se isto se tornar uma realidade e poderá também servir como trunfo num conjunto de vários que tem à sua disposição, para concorrer as próximas eleições presidenciais em 2007.

Mas terá o reverso da medalha se isto não acontecer, por isso, anima –me a nossa “subtileza europeia” na forma como encaramos todo esse processo, se bem que deveremos estar atentos.

Artigo de opinião assinado por João Lusevikueno,
Bancário
 
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