Agentes da Polícia invadem residência para prender um rapaz de oito anos
22-10-2005 | Fonte: A Capital (Mariano Brás)
A história, bem analisada, tem até nuances de uma comédia, mas é tão real, assim como real são os seus protagonistas, no caso um rapazolas de apenas oito anos e dois policiais armado até aos dentes, afectos à 7.ª Esquadra


O rapaz de oito anos é filho de Miguel Neto(na foto), o conhecido radialista, que quando conta o sucedido não o faz sem antes sorrir de orelha a orelha. É assim: segunda-feira, 17, Milkin Neto, assim chama-se o garoto, foi arrancado em plena mesa da casa dos seus pais, quando se encontrava a almoçar, em companhia de duas irmãs.

Os zelosos agentes irromperam pelo interior da residência, sem exibirem um único mandado de captura e, decididamente, prenderam o miúdo. «Quando os polícias chegaram, o Milkin estava a comer e nem o deixaram acabar de almoçar, disseram que ele estava preso, mas não queríamos acreditar porque pensamos que havia algum engano», explicou uma das suas irmãs que acompanhou toda a cena.

Pouco acostumado a este tipo de situação, não tivesse o mesmo ainda pouca idade, o pequeno desatou-se aos gritos, sobretudo porque mais ninguém encontrava-se em casa, além da duas indefesas manas. Porém, nem mesmo este método de defesa conseguiu demover os diligentes policiais. Para mostrar que não estavam para papo furado, trataram logo de manipular as armas e colocar a bala na câmara, ao mesmo tempo que proibiram as irmãs de o acompanharem. Pasme-se, mas ao invés de um carro policial, o garoto foi levado ao colo por um dos agentes até à esquadra. Mas o que terá feito um miúdo de apenas oito anos para merecer tão duro tratamento? Na esquadra, o pequeno foi informado que foi «arrancado» de casa por um dia antes ter brigado na escola com uma colega, numa brincadeira, que inclusive o rapaz já tinha esquecido.

Tratou-se de um pequeno desentendido na hora do intervalo entre dois miudinhos, o que é bastante normal. Num ora puxa daqui, ora puxa dali, a colega de Milkin acabou por cair, causando um ligeiro ferimento na cabeça. A situação foi controlada pela direcção da escola, que, de imediato, prestou os primeiros socorros. Mas as coisas estavam longe de estarem resolvidas, mais a mais depois de encarregado da criança ferida ter-se confrontado com a situação. Mais não fez senão arregimentar os policiais ao que se presume para aplicar um correctivo ao colega «prevaricador».

Miguel Neto, o pai, mostra-se bastante chocado com o tratamento dado ao filho. Inicialmente, não queria acreditar naquilo que estava a acontecer. Aliás, «nunca vi coisa igual», reconheceu. Quando chegou a unidade, não encontrou mais o filho, porque tinha sido já posto em liberdade, mas encontrou o chefe das operações que se mostrou surpreendido com o caso, dizendo-se ainda desconhecedor do sucedido. Neste momento, o pequeno Milkin está traumatizado (não são todos que se habituaram ao manipular de uma arma), não brinca, nem vai sozinho à escola, não vai à rua e chora constantemente.

O grande «sururú» é por altura em que o garoto vê um polícia. Coloca-se, perdidamente, em fuga (pernas prá que te quero!). Diante deste novo problema, Miguel Neto não pretende ficar de braços cruzados. Fará tudo o que estiver ao seu alcance, nem que para tal tenha que mover montanhas, para chamar os agentes à razão por tal procedimento.

No chavão que já lhe é característico, foi lapidar: «em 30 anos de independência, já é tempo suficiente para a nossa Polícia ter nível».
 
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