Retrato dos 30 anos: «Angola em primeiro»
05-11-2005 | Fonte: Expresso
HÁ 30 anos, a República (Popular) de Angola nascia cercada de inimigos e entre o ribombar dos canhões de tropas estrangeiras que se aproximavam de Luanda.

Hoje, a capital é uma placa giratória por onde se cruzam todos os fios da política africana e um palco onde medem forças e disputam influências os Estados Unidos, a Europa e as potências emergentes, China, Brasil e Índia.

A aspiração a um papel de potência regional à alturas das dimensões e recursos naturais do país foi durante três décadas hipotecada pela guerra. Suscita ainda polémicas apaixonadas e constitui uma arma de eleição por parte dos adversários políticos do Presidente Eduardo dos Santos, árbitro e único responsável das grandes opções de Angola em matéria de política externa há um quarto de século.

Mas o balanço é globalmente positivo. Angola está em paz com os seus vizinhos e com todo o mundo. Nas duas organizações sub-regionais em que participa ao nível da África austral e central, é um interlocutor incontornável para a estabilização da paz, por força do seu potencial militar e da sua intervenção nos dois Congos.

A abolição dos vistos com a Zâmbia e a Namíbia e o reforço das relações com Moçambique vão no sentido de uma participação mais activa na SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral), apesar da rivalidade ainda não superada com a África do Sul.

Mas Angola projecta a sua influência além do quadro regional, nomeadamente na África Ocidental.

Sem fazer parte do «núcleo duro» da União Africana, Angola é regularmente consultada sobre as questões que afectam o continente. A reivindicação de um lugar no Conselho de Segurança da ONU foi uma forma desajeitada de forçar o reconhecimento formal de uma «situação de facto».

O pragmatismo que caracteriza a política externa de Eduardo do Santos contradiz a «arrogância» de que é frequentemente acusado. E o facto de Angola ser hoje vista como um aliado «fiável» dos EUA (que só reconheceram o Governo de Luanda em 1993) é um êxito invulgar, que não se deve reduzir à «diplomacia do petróleo».

De facto, nunca os interesses petrolíferos americanos estiveram ameaçados em Angola, nem no tempo do maior alinhamento com Moscovo. A abertura ao Ocidente antecedeu a queda do Muro de Berlim, como parte da estratégia de paz que permitiu a assinatura dos acordos de Nova Iorque em 1988.

A «viragem para o Oriente», espectacularmente concretizada com a assinatura do empréstimo de 2000 milhões da China, foi a saída que Angola encontrou para escapar às pressões consideradas excessivas do Ocidente para condicionar as políticas internas.

Mas é uma aliança de conjuntura. Os receios de alguns de ver Angola transformar-se num satélite de Pequim não parecem mais justificados que as antigas acusações de venda do país aos EUA. «Angola primeiro» continua a ser a palavra de ordem.
 
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