«Savimbi foi um monstro, um Hitler africano», diz João Cravinho em entrevista ao Expresso
07-11-2005 | Fonte: Expresso (Luísa Meireles)
A palavra chave para definir o actual momento das relações entre Portugal e Angola - 30 anos após a independência e três depois da paz - é desanuviamento. Quem o diz é João Cravinho(na foto), secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação. Angola é uma potência emergente, afirma, e Portugal só pode congratular-se com isso. Na forja estão medidas que poderão ajudar os empresários portugueses a investir no grande «colosso africano».
Como é que estão as relações entre Portugal e Angola?
Há um desanuviamento de tensões em termos históricos. Não se deve nem a este Governo nem ao anterior, mas ao percurso da História. A descolonização foi um momento muito difícil, e Angola sofreu depois disso uma longa guerra civil. É evidente que, nesse processo, houve factores que perturbaram seriamente a relação com Portugal. Isso acabou. Hoje, há perspectivas completamente diferentes das que existiam há uns anos e há, sobretudo, abertura de espírito e facilidade de contactos. Creio que houve erros graves no passado que tiveram efeitos negativos.
Tais como?
É extremamente difícil de perceber que tivesse havido, durante tantos anos, um forte apoio dentro da sociedade portuguesa a Jonas Savimbi. Sejamos honestos: Savimbi foi um monstro, um Hitler africano. Felizmente, nunca chegou ao poder. Deveria ter havido em relação a ele um distanciamento que não houve por parte da sociedade portuguesa, e isso prejudicou muito seriamente a relação entre Portugal e Angola.
Angola está a crescer muito, mas tem havido um desinvestimento por parte das empresas portuguesas no país. Se o Governo português entende que Angola é uma aposta, que pode fazer para contrariar esta tendência?
Segundo as previsões, Angola crescerá 15% este ano e 27% no próximo. Mas o facto interessante é que esta enorme taxa de crescimento tem de ser dividida em duas partes: o sector petrolífero e o não-petrolífero. A que eu considero ser mais interessante é o crescimento deste último sector, que aponta para uma taxa de 11% em 2006. É o aspecto mais atractivo para as empresas portuguesas, que podem contar com um mercado em franco crescimento, em que podem ter mais-valias consideráveis e que será cada vez mais competitivo e exigente. Estamos a trabalhar para melhorar as bases institucionais para o investimento externo, nomeadamente com a criação de uma instituição financeira junto da cooperação, que será dirigida ao crédito de risco e ao crédito de garantia, numa associação entre o Estado e parceiros privados, nomeadamente bancos privados, para empresas portuguesas que estejam interessadas em trabalhar nos países de expressão portuguesa.
A linha de crédito para Angola (100 milhões de dólares) não pode ser aumentada?
Sê-lo-á, seguramente. Há trabalho técnico que está a ser feito nesse âmbito, mas o grau de procura dessa linha de crédito indica que há boas bases para pensarmos em aumentá-la.
Encara-se a criação de uma plataforma logística?
Essas infra-estruturas surgem quando houver um volume suficiente que o justifique. Se evoluírem positivamente dentro do próximo ano, ano e meio, em termos de investimento português, parece-me que será uma evolução natural.
Angola está a afirmar-se como uma potência regional, com fortes relações em todo o mundo. Portugal fica a perder, nesse contexto?
Nós temos relações privilegiadas com Angola. É um país irmão, que comunga da mesma língua e que tem um contacto histórico com Portugal que dispensa mais comentários. Só podemos ver com bons olhos que Angola cresça internacionalmente e tenha uma presença de peso cada vez mais avultado. Naturalmente que isso envolve relações mais profundas com potências em outras partes do mundo, em África e fora de África, mas isso não põe em causa o relacionamento com Portugal. Pelo contrário, vemos isso com muito bons olhos, tal como apreciamos a grande projecção do Brasil.
Angola é uma potência emergente?
É uma potência emergente, um colosso africano, com formidáveis desafios pela frente. Ninguém imagina que é fácil dar resposta às legítimas expectativas da população. Mas o truque fundamental é conseguir fazer com que aquele potencial de riqueza angolana reverta a favor do país como um todo. Ouvindo com atenção o discurso do Governo angolano, percebe-se que ele está muito apostado em fazer face a esse desafio. A nós, cabe-nos saber apoiá-lo nessa tarefa.
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