«Angola - 30 anos», por Ismael Mateus
11-11-2005 | Fonte:
É humanamente impossível resumir trinta anos da vida de Angola em tão poucas linhas, sobretudo se esses anos foram, como os nossos, de tensões, rivalidades e contradições. A nota mais dominante da nossa vida talvez tenha sido esse caminho ziguezagueante de Angola. Altos e baixos. Decepções e alegrias. Tudo à mistura construíram, nestes trinta anos, o grande orgulho que a generalidade dos angolanos sentem. Quando olhamos para trás, não é possível evitar as mágoas de um 27 de Maio. Não há famílias que não tenha sofrido com esse momento negro da nossa história. Mas há também a sexta feira sangrenta e a guerra. Os inúmeros massacres feitos (pasmemo-nos) em nome do povo, os milhares de inocentes mortes, os mutilados, os campos minados, as pontes, cidades e fabricas destruídas. Não foi fácil passar por esses momentos em que estávamos envolvidos numa guerra sem percebermos, realmente, por que motivo estávamos nela. Vimos sucederem-se as tentativas de paz, de debalde em debalde, sem descortinarmos afinal o que impedia que a reconciliação. Houve até alterações constitucionais para a criação de cargos de vice presidente, mas nem assim, a paz veio.
Apesar disso, ao longo dos trinta anos sempre tivemos provas de que a reconciliação era possível. Primeiro, foi a política de clemência e de depois a de reconciliação nacional. Poucos se lembrarão já hoje, mas foi ainda na década oitenta que vimos antigos dirigentes da FNLA entrarem para a cúpula do MPLA e depois para o parlamento e governo. Até Daniel Chipenda que abandonara o Mpla nos anos sessenta, a certa altura voltou e com ele a grande família desavinda do Mpla que se reconciliou. Ainda assim nada disso foi bastante para acabar, em definitivo com a guerra. Todavia, quantos mais anos ela levava, menos razões havia para os angolanos se matassem uns aos outros. Tinha que acabar como acabou...
Nos ziguezagues destes trinta anos, Angola morria diariamente e, ao mesmo tempo – e sem qualquer contradição – renascia diariamente nos pequenos gestos. Ver os jogos de Angola Cuba, ganhar o campeonato africano de juniores em basquetebol, fazer os jogos da África central, ver Joaquim Dinis, ver Ndunguidi jogar no primeiro de Agosto, Ver Alfredo Melão correr, ver Bernando Manuel ganhar provas, ver Abel Campos a jogar no Benfica, ver os hoquistas angolanos no primeiro mundial de hóquei em Patins faziam qualquer angolano encher-se de um orgulho tal que, em nós, o país renascia um bocado. Depois, também do desporto, vieram outros nomes como o Paulo Bunze, a Palmira Barbosa, Zé Carlos Guimarães, o Jean Jacques e toda uma geração de angolanos que conseguia com o seu suor fazer-nos esquecer, por breves momentos de glória, a guerra, a dor e o luto.
Nestes trinta anos de ziguezagues, a economia andou de programa em programa numa busca inglória por um programa económico indolor e sem apertos de cinto. Não foi, obviamente, possível encontrar isso e, hoje, a economia melhora e o povo piora. Enquanto se festeja o crescimento económico, (dizem Angola terá um dos maiores crescimentos do mundo) nas grandes cidades angolanos come-se em contentores e lixeiras os restos do lixo. O luxo dos Jeeps PRADO ( nos bairros de Luanda diz-se que cada utente desse tipo de carro está COM PRADO) contrasta com o aumento de desempregado que faz diariamente novas dezenas de raboteiros, kinguilas e bloqueiros (fazedor de blocos de cimento). Pior ainda, lá onde há negócios, os grupos económicos, nascidos e criados entre as figuras do regime, dominam tudo o que “respire”. Do pequeno negócio do pão-burro ao grande negócio dos petróleo, vemos os mesmos nomes, as mesmas caras e as mesmas famílias, como se todos nós, os outros, não tivéssemos direito a mais do que os restos. Ainda assim, contraditoriamente, sorrimos e estamos felizes.
Há hoje mais oportunidades que antes. Até um cidadão sem nome de família( leia-se família tradicional luandense) nascido num musseque ou no interior já pode, via banca, criar o seu jornal, a sua fabrica ou o seu terreno. Mesmo assim, a distribuição de oportunidades e de riqueza é muito deficiente e ainda é uma fonte de conflito. Os poucos ricos são muito ricos e sempre os mesmos. São chamados de donos do país. Se nada for feito, um dia nos fartaremos dessa ideia de que o país tem donos, quando até muitos desses “nossos” ricos também são cidadãos de outros países e, antes, nada fizeram de especial pelo país.
Enfim, temos nestes trinta anos um ponto de viragem. Quer se queira ou não, o país está a mudar. Os angolanos estão a reconciliar-se e nunca o patriotismo e o orgulho nacionais estiveram tão fortes. Quem pensou em mudar a bandeira e o hino pode deixar isso para os próximos dez anos, porque agora... a moda passou. Canta-se o orgulho angolano e a angolanidade e canta-se nos velhos e novos géneros. O Kuduro impõs-se, apesar de tudo, e o Semba não se tornou no único e exclusivo género angolano como muitos queriam. Nestes trinta anos os angolanos aprenderam a reconhecer a sua dimensão africana (somos africanos e estamos em África) e as suas próprias raízes, como as Mbuenzenas de Mito Gaspar e Tunjila Tuajokota, a Tchianda dos Sassa Tchockue; Kintuene de Cabinda ou sunhula do planalto central.
Um país e um povo que fazem uma trajectória destas, redescobrindo-se e renascendo ciclicamente das suas próprias cinzas, só pode ser especial. E nós somos de facto especiais, goste-se ou não.
Só nos faltam algumas pequenas coisitas como diminuir a ambição desmedida, a distribuição de oportunidades e, já agora, muitos campeonatos africanos de basquetebol e pelo menos uma ou duas vitórias no mundial de futebol.
Artigo de opinião, assinado por Ismael Mateus
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