«Os reflexos da depreciação da taxa de câmbio na quadra natalícia», por João Lusevikueno
17-11-2005 | Fonte:
Nas últimas semanas, tem-se observado manifestações de certa perplexidade com os resultados da desvalorização contínua e acentuada do dólar e consequente valorização do Kwanza.

A taxa de câmbio é uma variável económica de grande importância, pois baseado nela são realizadas as transações no comercio internacional entre os países, ou seja, em sua definição formal é o preço em moeda nacional de uma unidade de moeda estrangeira.

Os bancos comerciais têm acompanhado essa tendência do BNA, que tem intensificado os seus leilões, injectando liquidez em divisas, provocando assim a queda do dólar em relação ao Kwanza, o que por sua vez aumenta o excedente de dólares no mercado e escassez de kwanzas, pratica essa que, segundo alguns observadores, poderá ter os seus custos na economia nacional, num futuro próximo ou longínquo, mas que não vale a pena estarmos aqui a aflorar.

O mercado informal tem de uma forma tímida acompanhado essa tendência, mantendo no entanto margens altas em relação aos bancos comerciais o que permite a alguns especuladores praticarem actividades de arbitragens através das “Kinguilas”, aproveitando-se assim da pouca cultura bancária, falta de informação e da própria força do hábito, por parte dos nacionais, para arrecadarem “algum” e assim prepararem a compra do bacalhau para o natal. Os stocks de dólares que detêm ficará assim na algibeira, esperando timidamente por futuras desvalorizações do kwanza.

Em muitos países, uma desvalorização real da taxa de cambio é considerado o melhor instrumento para reduzir déficit em transações correntes e por sua vez na Balança de Pagamentos. Um aumento da taxa de cambio real significa uma desvalorização da moeda nacional em relação à moeda estrangeira, o que leva ao encarecimento dos produtos estrangeiros no país, reduzindo as importações, por outro lado os produtos nacionais ficam mais baratos para o comércio internacional, o que leva a um aumento das exportações e uma consequente melhora do saldo comercial do país e vice-versa.

No caso angolano, o governo utiliza o câmbio para estabilizar a própria economia. A política tem significado que despesas do governo que ameaçam dar origem à inflação devido à emissão de grandes quantidades de Kwanzas para a economia são desencorajadas, através da compra, pelas autoridades cambiais ao Banco Nacional de Angola, destes Kwanzas excessivos com dólares resultantes ou das receitas do petróleo ou de empréstimos contra promessas de futuras receitas do petróleo. A desvalorização do dólar é bom para a economia nacional porque valoriza a moeda nacional e vai de encontro aos objectivos traçados pelo governo, relativamente ao controlo da estabilização macroeconómica.

No entanto, a apreciação da taxa de câmbio "real" pode tornar as importações mais competitivas e as exportações menos competitivas porque o aumento dos custos domésticos motivados pela inflação esmaga os aspirantes a produtores que não podem aumentar os seus próprios preços de venda por causa da imutabilidade da taxa de câmbio. Por exemplo, o que vem do Brasil torna-se mais barato e isso desincentiva a produção nacional. Os preços internacionais constantes em termos de dólar combinados com uma taxa de câmbio fixa significam que os preços de exportações e importações não sobem proporcionalmente com os outros preços na economia.

Numa altura em que se aproxima a quadra natalícia e porque em Angola, não existe um padrão estabelecido de remuneração aos trabalhadores (alguns funcionários recebem os seus salários fixos em dólares, outros há que os têm fixos em Kwanzas, uma terceira parte que recebe em dólares ao câmbio do dia, a chamada indexação USD/UKZ, alguns que recebem das duas formas e correm rumores de que há uma quarta parte que recebe em Euros), as flutuações cambiais que se tem registado nos últimos dias poderão provocar os seguintes efeitos aos três grupos de assalariados em Angola:

1- Os que têm salários fixos em dólares serão penalizados, porque perdem poder de compra ao cambiarem a moeda em kwanzas para depois adquirirem os seus bens.

2- Os que detêm os seus salários fixos em kwanzas beneficiarão, porque a moeda nacional aprecia-se no mercado e em termos reais, aumenta o poder de compra dos consumidores.

3- Os que recebem em UKZ serão prejudicados, porque recebem à taxa estabelecida pela entidade empregadora (ou pelos bancos) que normalmente costuma praticar uma taxa inferior comparativamente ao mercado informal onde os produtos são adquiridos.

Os bens vendidos no território nacional dificilmente acompanham as oscilações cambiais em termos de preços, isto é, quando o Kwanza valoriza-se, o preço das mercadorias não baixa, a não ser nas lojas em que se venda os produtos tanto em dólares como em kwanzas.

O ano teve uma taxa cambial média que rondou os 88.59 na paridade USD/Akz e de repente, no inicio do mês de Novembro começou a registar uma variação média diária negativa muito superior à 1,5 %.

A época natalícia, tem sido de há uns tempos para cá, o balão de oxigénio para muitas empresas que durante o ano contabilístico detêm uma facturação baixa ou quase nula. Aproveita-se a oportunidade para a assinatura de contratos com diversas entidades públicas e privadas para o fornecimento de cabazes de natal. Ora, se as encomendas foram efectivadas à uma taxa de câmbio alta, na conjuntura actual, pode provocar situações de perdas cambiais e financeiras. Para se protegerem, as empresas terão que vender os produtos a um preço que proporcione margens de lucros, que terão que ser altas. Essa situação tem reflexos no IPC.

O governo estabeleceu objectivos e metas relativamente aos índices macro-económicos que pretende legitimamente cumprir, vem ai muito provavelmente o ano das eleições, tal como deve haver outros objectivos político-económicos que não conseguimos descortinar. Mas os timings para diversas medidas as vezes, é que levam os consumidores a colocarem interrogações, por causa dos deveres e obrigações que têm para com a sociedade. Essa desvalorização do dólar, macroeconomicamente tem as suas vantagens, mas coloca inquietações natalícias, do ponto de vista microeconómico, dependendo sempre do tipo de assalariado ou comerciante que somos.

Artigo de opinião assinado por João Lusevikueno
Bancário
 
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