Abel Chivukuvuku à VOA: "Não teremos eleições em 2006"
08-12-2005 | Fonte: VOA
Abel Chivukuvuku(na foto), um dos líderes da nova geração da UNITA, diz que o Presidente da República não tem uma agenda para Angola e considera a corrupção e o clientelismo como os grandes males do país.

Entrevistado pela Voz da América, o ex-chefe da bancada parlamentar do maior partido da oposição refere ainda que o governo não tem visão estratégica e que segmentos relevantes da comunidade internacional perderam a capacidade de influenciar o sistema angolano devido aos interesses económicos.

No que diz respeito ao papel da Assembleia Nacional, onde é deputado, Chivukuvuku diz que aquele órgão perdeu relevância do ponto de vista político, sendo apenas necessário no quadro da funcionalidade das instituições. O dirigente da UNITA evitou falar do seu partido e das suas ambições políticas.

VOA- As próximas eleições gerais em Angola continuam a dominar a política doméstica angolana. Acha que teremos eleições em 2006 ou o senhor é também dos que pensa que serão mais uma vez proteladas?

AC- Penso que os indicadores que nos vêm de pronunciamentos de entidades do Estado altamente colocadas e que têm a ver com a programação e com a organização das eleições dão-nos o prognóstico que provavelmente não teremos eleições em 2006. Mas para mim, o mais grave é que, do ponto de vista geral, considero que o governo, o Presidente da República, não têm uma agenda para o país nos vários domínios.

O país neste momento não tem uma agenda política. Os actores essenciais, os partidos, as organizações cívicas e o governo deveriam ter dialogado e estruturado uma agenda, para que todos saibam quais são os prazos e os actos que serão realizados e de que forma serão executados. Neste momento estamos a andar à cabra cega. Nem sequer os próprios actores principais, e é provável que nem sequer o próprio Presidente da República saiba o que quer fazer, se as eleições serão simultâneas ou não, e quanto é que vão acontecer. Qual é o sinal de credibilidade e de confiança que se pode dar ao país se as próprias instituições não conseguem ter um programa, uma agenda.

Mesmo no domínio económico não existe agenda. O que estamos a observar é o surgimento de pequenas obras em função do crédito da China, do aumento das receitas petrolíferas e de outros sectores, mas todas elas desconectadas de um programa estratégico de reconstrução nacional.

VOA- O MPLA já propôs uma agenda nacional de consenso. Não lhe satisfaz?

AC- Tenho muito respeito pelos que fizeram aquela Agenda Nacional de Consenso, mas ela não tem conteúdo absolutamente nenhum. Devíamos projectar Angola daqui a cinquenta anos, imaginávamos Angola daqui a cinquenta anos, púnhamos no papel esta Angola e regressávamos para o presente e diríamos: desta Angola ideal, o que é que nos cabe fazer nos próximos cinco anos. E em cada cinco anos cumpríamos uma etapa no caminho da realização do país.

Hoje as coisas estão a ser feitas de maneira atabalhoada, sem programação estratégica e sem a moralização devida para este tipo de programas. As coisas continuam a ser feitas num ambiente de corrupção e desvios, em que as estruturas superiores são as que mais roubam, são as que mais desviam. Do meu ponto de vista, este governo não tem visão, não tem projecto, não tem um quadro estratégico de organização.

VOA- Qual será a imagem do país no exterior se as eleições forem uma vez mais adiadas?

AC- Por razões várias, segmentos relevantes da comunidade internacional perderam a capacidade de influenciar o sistema angolano. Também penso que o essencial não seria olharmos para o papel da comunidade internacional, mas vermos o que é que os angolanos, como actores, organizados ou individualmente, podem fazer para que se clarifique o quadro nacional. Os partidos políticos, as igrejas, as organizações da sociedade civil podem jogar um grande papel na clarificação do quadro nacional. O país não pode ficar prisioneiro de uma pessoa que não consegue decidir, que não está a decidir o que é que deve ser feito.

VOA- O que é que o leva a dizer que segmentos importantes da comunidade internacional perderam a capacidade de influenciar o sistema angolano?

AC- Eu penso que perderam esta capacidade em função do quadro internacional e de interesses económicos. Hoje, no quadro internacional, o problema energético tornou-se um problema estratégico. Angola é o segundo maior produtor do petróleo na África ao Sul do Sahara, e isto fez com que determinados interesses priorizassem a dimensão de interesses económicos e estão se marimbando para a agenda política. Se os angolanos vivem bem ou não, isto não lhes diz respeito.

O que lhes interessa é terem o seu quinhão, a sua parte da produção petrolífera e acabou. E nestes termos não estão interessados em criar dificuldades na relação com o sistema, tendo em consideração que o nosso sistema funciona em modelos de chantagem internacional. Vejamos o exemplo do processo Angolagate, na França. Em função disso, a empresa petrolífera francesa foi punida. Portanto, o nosso sistema funciona com modelos de chantagem e não com modelos de valor.

VOA- Não acha que também existe uma certa apatia, um certo conformismo, por parte da sociedade civil e da oposição política?

AC- É preciso ter em consideração o quadro histórico do nosso país. Tivemos um conflito muito duro durante muitos anos, e como subproduto deste conflito tivemos muita violência no país que vem desde o 27 de Maio, onde muitos angolanos desapareceram. Tudo isso também condicionou o quadro psicológico nacional. Hoje estamos numa nova era e nesta nova era é preciso que sejam os actores políticos fundamentais a fazerem despertar o cidadão. Fazer com que o cidadão deixe de ser apático, fatalista e reivindique os seus direitos.

A partir do momento em que o país conseguiu estabelecer a paz e a estabilidade já não há razões para que continuemos a protelar os valores que nós próprios assumimos como sendo estruturantes do nosso sistema político. Também é preciso que os actores políticos ajudem no sentido de acabar com o clientelismo que, em certa medida, amordaça muitos segmentos que olham para os seus interesses privados e que podem ser lesados com o activismo político. Por isso deixam-se apáticos.

VOA- Acha que o efeito Bongo poderá ter reflexos em Angola?

AC- É muito negativa a tendência de certos dirigentes pensarem que são os únicos que conseguem. E sinceramente não consigo compreender que alguém pense que, por exemplo, numa população de dez milhões da habitantes só ele consegue dirigir o país. Enquanto persistirmos neste tipo de atitudes não daremos um quadro de seriedade aos nossos país. Angola também já vai num longo caminho, o nosso Chefe de Estado já está há mais de 25 anos, e quando se está muito tempo numa determinada função acaba-se com a capacidade de criar fenómenos novos, de criar iniciativas, entra-se na rotina.

Por isso é que o país neste momento não tem agenda política, não tem agenda de reconstrução económica e social, não tem agenda de dignificação do angolano, vamos vivendo o dia a dia. Mas penso que em Angola, talvez possamos assistir o mínimo de bom senso, em que os actores entendam que há momentos de desenvolver o sentido de missão, e há momentos de pensar que é tempo de sair. E os actores que não souberem ser assim correm sempre o risco de saírem em situações negativas.

VOA- Permanece a ideia e que a Assembleia Nacional tem sido subalternizada pelo governo. O senhor também pensa assim?

AC- É preciso ter em conta a cultura política prevalecente neste país, o facto da própria Assembleia estar em funções há doze anos sem eleições que pudessem injectar sangue novo no seu seio; a maioria absoluta de um partido e mesmo as entidades principais da própria Assembleia não pensarem em deixar um legado e poderem um dia dizer que enquanto fui Presidente da Assembleia Nacional fiz daquilo um órgão sério.

Não existe este sentido de missão, de deixar legado. Por causa destes factores, considero que hoje a Assembleia Nacional é um órgão necessário para o quadro da funcionalidade das instituições, mas já não é um órgão relevante do ponto de vista político. E entendo que já não será possível dar-lhe relevância enquanto não tivermos novas eleições.
 
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