O império do Espírito Santo em Angola
11-12-2005 | Fonte: Expresso
Portugal está a regressar à exploração de diamantes em Angola através da Escom, uma empresa do Grupo Espírito Santo que, nos últimos dez anos, se transformou no principal investidor nacional naquele país africano. A empresa, que detém concessões mineiras em parceria com capitais russos, australianos e angolanos, também facilitou a chegada dos chineses a Angola e quer entrar, agora, no negócio do petróleo.

Desde 1992, a Escom diversificou a sua actividade aos sectores da aviação, explorando 16 rotas de voos regulares, pescas, onde vai dispor de 7 navios pesqueiros, obras públicas e imobiliário, construindo um arranha-céus de 25 andares na baía de Luanda, estando agora a colher os frutos de ter apostado no mercado angolano em tempo de guerra, quando tudo ainda era incerto.

Além de Angola, a empresa também está presente no vizinho Congo-Brazzaville, na África do Sul, em Moçambique e, brevemente, na Guiné-Equatorial. Em Portugal, a Escom tem uma actividade mais limitada, mas ganhou notoriedade com a negociação das contrapartidas da aquisição dos novos submarinos para a Marinha e de helicópteros para a Força Aérea.

Em entrevista ao EXPRESSO, Helder Bataglia (na foto), presidente da Escom - um homem que conhece a África a palmo, onde passa metade do ano -, afirma que no conjunto das concessões de diamantes estão envolvidas reservas que atingem «50 mil milhões de dólares».

Em 1992, logo após os Acordos de Bicesse, Helder Bataglia recomeçou do zero a actividade do Grupo Espírito Santo em Angola. Era o homem certo para esta missão. Cresceu e estudou em Benguela e tem uma relação muito profunda com o país. Passa, agora, mais de metade do ano em África, onde a Escom tem 85% da actividade.

O facto da Escom ter investido em Angola, ainda durante os anos de guerra, em sectores como os da saúde e do saneamento básico, contribuiu posteriormente para ter acesso a negócios mais interessantes como o dos diamantes?

Quando demonstrámos a nossa pretensão de ter uma concessão no sector dos diamantes, o risco era todo nosso. A nossa concessão foi aprovada pelo Governo antes da paz, ao fim de um período de seis a oito meses de negociação. Nessa altura, os diamantes estavam associados a um cenário de guerra e nós quisemos dar um sinal de que são uma actividade como qualquer outra, em que um grupo respeitável também pode investir. Associámo-nos a um dos maiores grupos do mundo, a Alrosa (que já lá estava com um projecto no Catoca).

Além dos russos, a Escom acaba de se associar aos australianos?

Com o advento da paz, houve outro grupo - a empresa australiana BHP Billiton - a maior na mineração a nível internacional - que se associou a nós em exclusividade para trabalhar o mercado angolano de mineração. Acabámos de assinar oito concessões com a BHP Billiton em Angola. Com estas duas parcerias, ficamos numa situação importante a nível mundial na mineração de diamantes.

Vai tornar-se o principal negócio da Escom?

As reservas são tais que são números gigantescos. No conjunto das concessões, estamos a falar em 40 a 50 mil milhões de dólares.

E no petróleo?

Gostaríamos, como é evidente, de ter um dia uma participação no sector petrolífero. Ainda não houve essa oportunidade. Mas decidimos entrar, também, no sector da energia: vamos ser concessionários da Barragem do Luapasso (25 MW), que fornecerá energia às explorações diamantíferas e fará distribuição de energia eléctrica de uma forma permanente às populações da zona mais carenciada da Lunda Norte.

A vossa estratégia para Angola já previa esta diversificação de negócios?

Tentámos investir em áreas que nos pareciam importantes e rentáveis, para nós e para a parte angolana, do ponto de vista social. Existe um compromisso da nossa parte de tentar desenvolver sectores de alguma maneira ainda fragilizados pela situação político-militar - o das pescas, por exemplo. Montámos uma empresa de carga aérea - inicialmente, a Air Gemini era apenas de carga aérea - porque não havia trânsito nas estradas. Nós levámos centenas de milhares de toneladas de mercadorias a todos os pontos do país e fomos responsáveis pelo transporte das cargas de apoio das Nações Unidas às populações carenciadas do interior.

Como surgiu a parceria com os chineses?

Surge, fundamentalmente, depois de conhecerem as nossas experiências em África. Dessa relação nasceu uma empresa sedeada em Hong Kong - a China Beiya Escom (a Beiya é uma empresa estatal de material ferroviário). Eles acham que nós (portugueses) temos um potencial enorme e, pelo nosso posicionamento em África, que podíamos viabilizar ainda mais o seu relacionamento com estas áreas do Mundo.

Os chineses demonstram um grande interesse por África?

O interesse dos chineses é motivado pela energia e pela cooperação. O conceito chinês de desenvolvimento da política externa é muito importante.

A Escom beneficia de comissões ou contrapartidas?


Não trabalhamos com comissões, o que existem são compensações que os países nos dão por termos facilitado e ajudado a que as coisas se desenvolvessem. São negócios e concessões em África e na China.

Corre o risco de ser considerado um «testa de ferro» dos chineses?

Não há «testas de ferro» para os chineses. Há cooperação e relações de amizade. Temos uma relação com os chineses de 400 anos. Se nós pudermos contribuir para que a China veja Portugal como um parceiro importante nesta cooperação, teremos dado um passo fundamental que não tem preço.
 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação
Foto-Destaque
Foto-Destaque
Questionário