Novelas brasileiras causam danos na língua portuguesa
27-12-2005 | Fonte: AGORA
A influência da globalização de telenovelas pouco sugestivas e educativas, aliada a falta de incentivos, não só nas crianças como também em adultos e o hábito pela leitura, são factores que contribuem na debilidade do processo de expressão e aprendizagem nas diferentes faixas etárias em Angola. Segundo o Jornal Agora num breve contacto com populares, constatou-se que a sua correcção passa necessariamente por uma formação rigorosa dos professores, pela intervenção dos agentes de comunicação e pelo acompanhamento dos pais.
Vera Matos, professora de metodologia e investigação do curso de pedagogia no Instituto Superior de Educação (ISCED), disse existir no português brasileiro uma influencia muito negativa na aprendizagem da língua portuguesa, motivado por novelas em certos ambientes sociais, uma vez que as crianças e não só, vêm-nas nos canais de televisão locais e brasileiros.
“Existe muita gente que não fala a língua materna e como o português não é a língua materna, há, de facto, uma grande vontade de se aprender uma língua que não é sua. É melhor aprender mesmo à maneira brasileira, do que não falar ou expressar mal”, notou a docente.
Uma outra questão referida prende-se com a diferença gramatical entre o português brasileiro e o “padrão”. Estes podem ter uma influência negativa e possuir características brasileiras que não se enquadram no português genuíno, devendo os professores cuidarem do bom português nas instituições de ensino.
Por outro lado, a docente caracterizou o português angolano como uma fusão do seu próprio desenvolvimento, com introdução de palavras não brasileiras nem portuguesas, mas de origens das próprias línguas.
Para ela, a introdução de programas e novelas de produção nacional na grelha de programas da TPA seria um passo importante para se inverter o quadro actual, devendo este processo ser reforçado com a aprendizagem da língua portuguesa a todos os níveis de ensino, por se constatar ainda uma grande deficiência em termos de expressão e de escrita por parte dos estudantes universitários.
A par dessa situação, o músico e professor universitário Carlos Lopes, afirmou que muito se pode aprender das novelas brasileiras quer ao nível da formação, mas elas não são propícias para os angolanos aprenderem a falar correctamente o português. No seu entender, deve-se educar e incentivar o público a uma boa leitura literária e outras publicações como livros e jornais.
Não obstante os factores já referenciados, Carlos Lopes adiantou que tem encontrado sérias dificuldades em dialogar com os estudantes do terceiro curso de engenharia na Universidade onde lecciona, sobre tudo nos exames orais, pelo facto de os mesmos não conseguirem explicar nem interpretar, notando-se logo a partida que não dominam o português.
Já o responsável da biblioteca Camões da Embaixada de Portugal e professor de português da Universidade Lusíadas de Angola, as novelas podem não apenas influenciar na aprendizagem da língua portuguesa, como também na aquisição da hábitos e costumes, o que leva muitos jovens a tomarem atitudes comportamentais negativas pelas quais são influenciados.
Para Jomo Fortunato, Director do Instituto do Livro e Disco, os angolanos falam a vertente da língua portuguesa que está próximo da “norma”, europeia, sendo esta de Coimbra, o que pressupõe dizer que eventualmente se tenha adoptado uma língua portuguesa que decorre do contacto directo com a colonização portuguesa, mas que a sua “norma” nada tem haver com a vertente brasileira.
O interlocutor acredita que caso não sejam tomadas as medidas urgentes, registaremos nos próximos tempos resultados negativos, ao que se poderá chamar de “salada”, quer do ponto de vista da linguagem escrita, como da oral.
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