Será 2006 «o ano do fim do princípio do fim da pobreza»
03-01-2006 | Fonte: Expresso
Será 2006 «o ano do fim do princípio do fim da pobreza» em África, segundo a fórmula de John Stiglitz, vice-presidente do Banco Mundial e Prémio Nobel de Economia? Este banco e o FMI admiram-se perante as boas perspectivas económicas do continente, para o qual prevêem um crescimento de 5,9%, o maior desde a década de 70.

É certo que o crescimento global é puxado pelos altos preços do petróleo e outras matérias-primas, que não beneficia por igual todas as regiões. Mas há outras mudanças positivas na África subsariana, como a redução dos conflitos (em número e/ou intensidade), a estabilização macro-económica e o aumento dos investimentos.

Mas as causas da «bonança» denunciam também a sua fragilidade. O Darfur continua a sangrar e uma nova guerra pode eclodir entre a Eritreia e a Etiópia. A África Ocidental e o Corno de África são barris de pólvora. Não haverá paz duradoura sem acabar com a miséria e a má gestão dos recursos naturais e humanos, e neste plano os progressos são demasiado lentos, o que gera revoltas.

As crises de 2005 (Etiópia, Togo, Guiné-Bissau) são um aviso para a dúzia de países que irão às urnas em 2006. O Uganda (com eleições gerais em Março) e o Chade encabeçam a lista dos novos «países em risco», que inclui também a Zâmbia (com eleições gerais em Outubro) e o Senegal (com legislativas em Abril).

Além de Angola (ainda sem calendário eleitoral), dois países de língua oficial portuguesa irão votar em 2006. Em Cabo Verde, as legislativas de Janeiro e as presidenciais de Fevereiro preparam-se num clima de «normalidade democrática», com o PAICV de José Maria Neves na «pole position». Em São Tomé e Príncipe, pelo contrário, prevê-se uma luta sem quartel entre o MLSTP (no Governo) e o Presidente Fradique de Menezes nas eleições legislativas e presidenciais, previstas por lei para Março e Julho.

2005 marcou uma mudança na forma como o mundo olha para África, «potencial ameaça» para o Ocidente e em particular para a Europa (terrorismo, emigração ilegal, drogas e pandemias) e «objecto de desejo» para as potências emergentes (China, Índia, Brasil). O perdão da dívida a 13 países africanos pelo G8, que entrará em vigor em Janeiro, foi um passo tímido. Mas a UE não consegue desbloquear a segunda Cimeira Euro-Africana, ao passo que Pequim acaba de anunciar a primeira Cimeira China-África, em Outubro, em Xangai.
 
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