Isaías Samakuva diz que a Unita aprendeu com os erros do passado
20-01-2006 | Fonte: VOA (Diogo Paixão)
Isaías Samakuva diz que o seu partido aprendeu com os erros do passado, e que o discurso político utilizado em 1992 merece agora uma certa reflexão. Na entrevista à Voz da América, o líder da UNITA reconhece que o seu partido cometeu muitas falhas.
O substitudo de Jonas Savimbi denunciou, por outro lado, a intolerância política e alguma hesitação na preparação das próximas eleições. Para Isaías Samakuva, existe uma política deliberada de atrasar o processo eleitoral. O líder da UNITA sublinhou, por outro lado, que a paz social está longe de ser alcançada.
Dentro de quatro mese Angola vai assinalar quatro anos desde que alcançou a paz. Que avaliação faz destes período de paz?
Nós registamos ainda algumas situações que, de uma forma ou doutra, levam determinados sectores a pensar que a paz ainda não chegou. Estes dias mesmo, nós temos na província de Benguela pessoas deslocadas que deixaram as suas áreas de residência, porque estão a ser perseguidas por pessoas de um outro partido. E estas pessoas que estavam convencidas que estavam numa situação de paz e de reconciliação nacional escrevem-nos, mandam-nos enviados a perguntar se na realidade estamos em paz ou não.
Quer dizer que volta-se à velha história da intolerância política...
A intolerância política continua a verificar-se, sobretudo na província de Benguela. Infelizmente, aqui e acolá, também surgem alguns actos, mas de acordo com os relatórios e factos que temos constatado, nestes últimos dias a província de Benguela é aquela que nos tem preocupado mais. Há gente armada, está identificada, com o tipo de armas e quantidade de munições que tem, as autoridades de Benguela estão informadas e nós esperamos que à todo o momento possam tomar medidas concretas, para, não só desarmar estas pessoas, mas também tranquilizar aqueles que se sentem perseguidos. Estes aspectos que ocorrem aqui e acolá, muitas vezes deixam-nos a pensar que talvés sejam apenas resquícios de um conflito que foi longo, mas outras vezes começamos a pensar que talvés seja algo direccionado com algum objectivo político. Então podemos dizer que do ponto de vista militar a paz está a se consolidar, mas do ponto de vista político há estes aspectos. Também do ponto de vista económico esta paz ainda não atingiu todos os sectores da nossa sociedade. Há aqueles que vêem a sua situação a deteriorar-se.
A preparação das próximas eleições continua a dominar a política doméstica angolana. Como analisa a condução deste processo?
Eu diria que o processo tem andado com algumas hesitações. Os angolanos gostariam de ver as eleições realizadas tão cedo quanto possível e não esperariam por um período de quatro anos, que afinal é mais um mandato, para uma situação em que as instituições do país têm os seus mandatos expirados. Há hesitações, há lentidão que, se por um lado pode se justificar com as dificuldades em termos de condições que o país tem, por outro lado também penso que sugerem alguma indecisão e até mesmo uma política deliberada de atrasar as coisas, visando alguns objectivos.
Receia que as eleições podem não ocorrem este ano?
Os receios começam a ser reais. É bom que o processo seja transparente, é bom que haja uma agenda política que seja do conhecimento dos angolanos. Hoje parece que estamos a andar às apalpadelas e fazermos as coisas de forma casuística, o que deviamos evitar.
Em 1992 algumas sondagens apontavam para uma vantagam da UNITA nas eleições, mas o seu partido terá cometido alguns erros que lhe foram fatais ...
Este é um debate que de tempos em tempos as pessoas procuram levantar, não sei se deixamos isso para a história. Erros? Penso que houve vários erros, não só da parte da UNITA, mas também de todo o processo. A UNITA em si creio que aprendeu com os erros que cometeu, não sei se valerá apena mencioná-los aqui, mas creio que as eleições de 1992, que foram as primeiras para os angolanos, realizaram-se num clima onde as pessoas não analisaram concretamente a situação do pais. A forma como a própria campanha foi realizada não foi ao encontro das questões essenciais do eleitorado. Foi uma corrida para um objecrtivo sem explicar devidamente o eleitorado aquilo que se pretendia antigir.
Reconhece que o discurso político utilizado na altura não ajudou muito o seu partido?
Não direi tanto que o discurso político não ajudou o partido, mas talvés a forma como o discurso político foi transmitido às populações merece da nossa parte hoje uma certa reflexão.
A UNITA parece ter perdido a a vitalidade do passado. Afinal o que se passa? Não receia que esta situação venha a levar o seu partido a obter piores resultados que em 1992?
Nós estamos num contexto completamente diferente, em que os choques devem ser substituídos pelo diálogo, em que se deve procurar transmitir a nossa mensagem, tendo sempre em vista o sentimento congregador, o sentimento de unidade nacional. Estamos num contexto completamente diferente, e o que é curioso é que, se por um lado estes choques agradavam há alguns (talvés também um pouco à maneira angolana de quem dá melhor baçula) por outro lado penso que é tempo de introduzir uma nova mentalidade. Achamos que o tempo dos choques passou.
Para si quais são os grandes males do país?
São muitos. Sinceramente não sei por onde começar, mas posso mencionar alguns, e um deles é a exclusão social. Há aqueles que se sentem donos do país, donos de tudo e que olham para os outros apenas como uns servos. É um grande mal que este país tem de ultrapassar. E em consequência deste mal, os angolanos não gostam de dialogar, não conversam sobre os problemas comuns que os afecta, e as decisões que se tomam servem a uns e não servem a outros. Os angolanos continuam ainda a pensar em termos partidários e não em termos de nação. E eu estou preocupado. Nós vamos para o CAN como se fossemos um partido e não como um país. Este é um grande mal e podia enumerar muitos como a corrupção.
À nível dos partidos com assento parlamentar, a bancada parlamentar da UNITA é aquela cuja liderança sofreu, até agora, mais mexidas. Isto não reflecte uma certa crise?
Não, não há crise nenhuma. O próprio contexto recomendava isto. Como deve saber, o grupo parlamentar da UNITA constitui-se, diria mesmo de uma forma irregular, em que os deputado suplentes assumiram as suas posições no lugar dos deputados titulares, que não estavam lá para tomarem os seus lugares, e à medida em que a situação se foi normalizando houve necessidade de se ajustar o quadro orgânico e a própria liderança do grupo parlamentar. Estamos agora num processo de movimentação de deputados para responder às exigências da Assembleia Nacional, visando conformar o grupo parlamentar às normas do Parlamento.
Mudando radicalmente de assunto, como é que estão as suas relações com Jorge Valentim, Lukamba Gato e Abel Chivukuvuku? Consta que a corrente não passa.
Não sei se é assim que se deve classificar as nossas relações. Eu considero que somos todos militantes e quadros do partido e nas nossas funções temos como guia regulador do nosso comportamento os estatutos do partido. Eu não tenho razões de queixa no que diz respeito as nossas relações pessoais, e em termos de trabalho, as nossas relações regulam-se na base dos estatutos do partido.
Então está tudo bem?
Está, não temos relações tensas. Naturalmente se alguém (não é só os que citou) mas se qualquer outro militante não se comportar com que os estatutos exigem poderá sofrer as consequências previstas nos próprios estatutos.
Mas no passado as suas relações com Chivukuvuku já foram melhores...
Naturalmente a minha posição também era diferente, não é a que ocupo hoje.
O senhor sente que continua a gozar no seio do seu partido, do mesmo apoio e da mesma simpatia que teve por altura da realização do nono congresso ou acha que alguma coisa mudou?
Esse julgamento hoje só poderia ser avaliado nas reuniões da comissão política. Só assim eu lhe daria dados concretos, mas posso dizer dizer-lhe que as reuniões da comissão política até aqui realizadas demonstraram que este apoio tinha aumentado. Estamos a prever uma próxima reunião da comissão política, pois são passados já seis meses depois da última reunião, e eu não tenho dúvidas nenhumas que a situação se mantém, mas não sou eu a dizer. A minha avaliação neste contexto é suspeita, esperemos que sejam os próprios militantes a dizer.
Olhando para as estruturas internas da UNITA, vê-se que existem poucos brancos, poucos mestiços e até mesmo poucos kimbundos, e, para ser mais genérico, diria mesmo pouca gente do Norte. Não acha que é tempo de se distribalizar a UNITA? Não acha que a UNITA ganharia muito mais com isso?
Não há dúvidas que esta é uma realidade que tem razões várias, mas também aquilo que se diz em relação às questões tribais e raciais, deve-se compreender que, não é que a UNITA tenha uma filosofia ou princípios que impeçam a entrada no seu seio de pessoas de outras regiões, de outros grupos étnicos ou raciais. O que se diz hoje é um discurso do passado que não se ajusta à realidade. Se formos a ver, do ponto de vista étnico, a UNITA hoje está em todo o país, tem apoios enormes em todo o país, tem representantes destas regiões na própria Assembleia Nacional. (...) É normal que a UNITA, que permaneceu durante muito tempo e fez como base uma área com uma densidade populacional que é a maior do país, tivesse no seu seio indívíduos desta tribo, mas hoje a UNITA está expandida em todo o país. (...) Mas isso não É só na UNITA, vejamos a direcção do MPLA.
Mas no MPLA parece existir um maior equilibrio...
Está você a dizer, mas não é assim que eu vejo. Como eu digo a tribo maioritária devia estar representada na proporção da sua percentagem no país em todos os sectores, e não é isto que acontece. (...) Portanto não é só na UNITA onde uma tribo aparece em maioria, noutros partidos também outras tribos aparecem em maioria na sua direcção.
Isto responde também a questão dos brancos e mestiços?
Em parte responde, mas penso que há outras razões. A UNITA, como sabe, nasceu nas áreas rurais, onde as condições são difíceis e o branco, e até mesmo o mestiço, estava nas cidades, em condições cômodas. Ora este homem que está habitiuado a uma vida de leite, não vai comer batata doce ou mandioca ali onde aqueles outros estão, e estão habituados a comer isso. Iso é uma realidade. Se formos a ver, os brancos que estão na UNITA, na sua maioria são aqueles que nasceram, cresceram ou viveram nestas áreas ou estiveram mais próximos destas camadas das sociedade. Estavam habituados a isso. E por conseguinte isto criou até uma mentalidade tal que, a gente chegava por exemplo com o general Chassanha e muitos diziam «oh, o branco também aceita isso, está aqui também a comer pirão connosco»? Portanto são questões reais que não podem ser negativizadas.
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