Ministro do Comércio nomeia filha para directora-adjunta do seu gabinete
28-01-2006 | Fonte: Semanário Angolense (Dani Costa)
Antes, o ministro tirou a mãe da menina, sua antiga «cara-metade», dos Recursos Humanos do ministério e entregou-lhe o comando do departamento do Comércio Externo

Uma forte onda de contestação instalou-se no interior do Ministério do Comércio, porque o titular da pasta, Joaquim Icuma Muafumba, um dos representantes da Unita no Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (Gurn), preferiu enveredar pelo nepotismo em vez de promover os quadros desta instituição do Estado com base nas suas capacidades intelectuais e profissionais. O governante surpreendeu tudo e todos ao nomear a filha, Nilsa Cláudia Muafumba, para o cargo de directora-adjunta do seu gabinete, dando razão ao velho ditado segundo o qual, «quem tem padrinho na cozinha não morre a fome».

Os funcionários mais antigos do Ministério do Comércio, alguns dos quais testemunharam a passagem dos vários ministros que estiveram no «Palácio de Vidro», disseram ao Semanário Angolense (SA) que nem queriam acreditar quando receberam o despacho da nomeação, afixado posteriormente numa das vitrinas da instituição. É que nenhum dos seus predecessores se dera ao luxo de promover filhas, amantes ou antigas namoradas, independentemente do facto das leis em vigor não condenarem esta prática.

Uma das razões evocadas pelo ministro para a contratação da rapariga tem a ver com o facto dela ter alguns conhecimentos de inglês. Mas a verdade, ao que apurou o SA, é que ela não domina fluentemente a língua de Shakespeare. Por isso, a atitude do ministro faz com que muitos dos seus subalternos acreditem, piamente, que ele esteja mais preocupado em acomodar, material e financeiramente, as pessoas que carregou consigo, entre as quais a sua «querida» filha. Esta foi citada pelas nossas fontes como «uma simples aluna do terceiro ano do curso de informática, no Instituto Superior Privado de Angola (Ispra)». «É uma humilhação para as pessoas que estão há muitos anos no Ministério do Comércio», desabafou uma antiga funcionária.

Num país em que o acesso ao primeiro emprego continua a ser uma tremenda dor de cabeça, a rapariga, com apenas 24 anos, entrou pela porta grande. Estima-se que esteja auferindo um salário fixado entre os 60 e 70 mil kwanzas, sem contar com os outros subsídios a que tem direito. No escritório do «papai» Muafumba, a «bacharel» em Informática, como citou garbosamente o ministro (ver caixa), foi chamada para coadjuvar Francisco Mubengai, o primeiro homem que dirigiu o Ministério da Ciência e Tecnologia, actualmente a exercer a função de director do gabinete do ministro.

A promoção em causa segue-se a uma outra que deixara os trabalhadores daquele organismo do Estado com os cabelos ainda mais arrepiados. Quando ascendeu ao cargo, em substituição de Vitorino Hossi, Muafumba não teve pudor e tratou logo de nomear para um posto superior a mãe da menina. A senhora, que nos foi identificada apenas como Marcelina, saiu do sector de Recursos Humanos para dirigir o apetecível departamento do Comércio Externo.

Desde que chegou àquela instituição, o actual ministro tem criado muitos anticorpos, sobretudo em relação ao processo de promoção e exoneração de quadros. A despromoção de alguns quadros como Paula Francinetti, a funcionária Orlanda, antes colocada nas Actividades Comerciais, e outros são assuntos do dia-a-dia. Embora pudesse trazer consigo o pessoal do seu gabinete (não passando necessariamente pela filha), os funcionários acreditavam que o governante primasse pelos quadros internos.

Segundo apurámos, Muafumba preferiu «importar» cérebros, alguns dos quais de outras empresas públicas. Entregou a direcção dos Recursos Humanos a Filipe Mualengue, um quadro da empresa de seguros Ensa, mencionado como sendo primo do ministro, e um outro cidadão identificado como Valente, a quem entregou o cobiçado sector de Contabilidade e Finanças. «O ministro trouxe-o ao ministério para dirigir explicitamente a área do dinheiro», confirmou a fonte deste jornal.

Descrito pelos funcionários, como boa pessoa em termos de relações humanas e materiais (o homem fez regressar os cabazes ao ministério), o ponto fraco do ministro assenta exclusivamente na excessiva valorização daqueles que lhe são próximos.

«É minha filha. Qual é a maka?»

Instado a pronunciar-se sobre às nomeações que tem vindo a efectuar no Ministério do Comércio, particularmente sobre o seu rebento, Joaquim Icuma Muafumba atirou sem contemplações: «Este país continua doente. No meu gabinete só coloco pessoas da minha confiança, como o director, director-adjunto e a secretária. Não existe nenhum decreto-lei que diga que não posso nomear a minha filha». E acrescentou: «se tivesse menos habilitações e qualificação não o fazia. No ensino médio foi uma boa aluna, agora está no terceiro ano de Informática. Acham que devia prejudicá-la por ser minha filha?».

Entretanto, o ministro garantiu que não nomeou a mãe da miúda devido à sua antiga relação, mas por ser um quadro antigo e capacitado da instituição, alegando ser uma das poucas senhoras instruídas no pelouro que dirige, argumentando, ainda, «que quadros com ensino médio no ministério são contados pelos dedos».

A falta de técnicos qualificados na instituição foi o motivo que o fez «importar» alguns cérebros, segundo Muafumba declarou ao SA, exemplificando que Valente, que controla o dinheiro, é economista, ao passo que a anterior chefe de departamento de Finanças, Laurinda, «não tem sequer o ensino médio. Isso é uma loucura».

O ministro negou a alegação segundo a qual Filipe Mualengue seja seu parente, reconhecendo somente que são conterrâneos. Requisitou-o supostamente por ser um homem formado em recursos humanos, uma área que deseja fundir com a secretaria-geral. Por outro lado, Muafumba disse, peremptoriamente, que também afastou pessoas que levou ao ministério: «Agi da mesma forma em relação aos senhores David Malonga e Albano Pedro, consultor jurídico. O meu sobrinho, o jornalista Paulo Julião, trabalhou aqui como assessor de imprensa, mas exonerei-o porque não executou cabalmente as suas obrigações».

www.semanarioangolense.com
 
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