«Os angolanos, como todos os homens, são seres polígamos e pulam a cerca»
19-02-2006 | Fonte: Semanário Angolense (Dani Costa)
Não estivemos, precisamente, diante de uma sexóloga de carreira. Mas as ideias esgrimidas pela conhecida e calejada jornalista Amélia de Aguiar não deixam margens para dúvidas: é uma pessoa bastante entendida em questões de sexualidade. Sem apreensão nem espantos, ela, actualmente vinculada à Luanda Antena Comercial (Lac), debruçou-se sobre temas sempre actuais, e algumas vezes consideradas polémicas até em sociedades mais desenvolvidas que a nossa, como o sexo, o adultério, a infidelidade e a homossexualidade. Perante a bateria de questões do Semanário Angolense, Amélia Aguiar manteve-se calma e imperturbável. Tudo quanto se diz hoje em dia em Angola sobre «gays», orgias sexuais ou mesmo traições, segundo a nossa entrevistada, são repercussões de acontecimentos que ocorrem (ou vêm ocorrendo) desde o surgimento da humanidade. Até os episódios de Sodoma e Gomorra foram aqui mencionados para melhor compreendermos estes fenómenos nos nossos dias e neste país que Deus nos deu.
O que é que explica tantos casos de adultério e infidelidade em Angola? É que há muita «traição» mesmo de parte a parte...
Acho que o adultério e a infidelidade são situações inerentes ao ser humano, mas que não surgiram agora. Lembro-me de alguns romances famosíssimos dos séculos XV, XVI, XVII e XVIII, em que a infidelidade e o adultério existiram. Faz parte do dia-a-dia da pessoa humana. Só que agora é mais visível na comunicação social, que durante um certo período não abordava estas questões entre nós. Mas sempre foram assuntos levantados pela comunicação social de outras latitudes. Ficamos com a sensação de que são situações novas, mesmo quando já existiam, só que não tinham espaço na imprensa local. Acho que as questões em torno do adultério são muito pessoais.
Cada um que o comete saberá sempre por que faz. Existem várias causas, entre as quais económicas. Mas podem ser também questões de relacionamento, a nível da sexualidade, em que um dos parceiros não está feliz com o desempenho sexual do outro. Há até casos em que as pessoas pensam que têm direito a ser polígamos.
Quando são eles que pulam a cerca, fazem-no também, em parte, porque elas estão menos sedutoras?
Não. Isso também é muito pessoal, porque depende daquilo que o homem procura numa mulher. Devolvo-lhe a pergunta: será que, por exemplo, você procura que a mulher seja sedutora? Para si, isso é o mais importante? Para mim, acho que há coisas muito mais importantes num relacionamento, a começar pela espiritualidade da própria pessoa. É importante que seja uma boa pessoa, já que o ser humano é um ser moral. Tem de ser uma pessoa boa, com bons princípios, mas, claro, como todo o mundo, com as suas falibilidades. Todo o mundo é falível, mas tem que ser, essencialmente, uma pessoa boa, com inteligência e educação. Se uma pessoa só vai a um relacionamento à procura de sedução, então, também não há-de esperar muito deste relacionamento. Quem quer uma mulher sedutora, esbelta e elegante, se ela, por exemplo, tiver uma disfunção da tiróide e começa a engordar? Será que acaba o relacionamento? Acho que não, tem de ser muito profundo, tem de estar num plano muito mais espiritual do que físico.
E quando são elas, é porque estão a dar-se menos bem na cama?
Não creio que seja só isso. Volto a repetir que é importante que o relacionamento não seja meramente físico.
Acha mesmo que o físico não importa?
Claro que o físico tem a sua importância, mas até uma certa idade. Porque depois, tanto para o homem como para a mulher, a questão física ou sexual deixa de se colocar. A medida que o processo de envelhecimento vai decorrendo, tudo envelhece no ser humano. É a lei da vida, então há coisas que são primordiais. Se o sexo pode ter muita importância quando a pessoa tem 16, 17, 18 ou 20 anos, acho que a partir dos 40 também começa a deixar de ter importância. Regra geral, os angolanos, como todos os homens, são seres polígamos e pulam a cerca por causa disso. Os homens são polígamos por natureza, gostam de variar. Para além da sua poligamia, os homens também gostam muito de uma certa sensação de um falso poder. Ele gosta de pensar que é um ser extremamente potente, seja lá em que aspecto for, quando muitas vezes não é. Acho que muitos homens sofrem desta sindrome do falso poder. Por isso, vão pulando a cerca.
Podemos falar de uma certa «revolução sexual» no nosso país?
Diria que não estamos a sofrer nenhuma «revolução sexual» pelos índices de propagação da Sida e das doenças sexualmente transmissíveis. Porque uma revolução é uma situação que vem alterar algo que está mal e tornar-se boa.
Penso que não há nenhuma «revolução», a não ser que houvesse uma diminuição substancial da Sida como das outras doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a hepatite B, que mata mais do que a Sida, mas que é poucas vezes referenciada. É uma pena, porque deveria haver uma «revolução sexual», mas que passasse pelas escolas. Mas temos em Angola ou teremos, por acaso, algum sexólogo? Quem iria ministrar estas aulas de «revolução sexual»? Esta «revolução sexual» não seria nunca no sentido da libertinagem. Falar-se muito do sexo é bom, mas nunca no sentido da libertinagem. Seria no sentido da liberdade sexual, mas esta tem sempre uma componente que se chama responsabilidade. E onde não há responsabilidade, também não há liberdade.
Entre os angolanos, também já se fala de relações sexuais em grupo...
Se alguns angolanos gostam de sexo em grupo, também não estão a descobrir a pólvora, porque há outros povos no mundo que já fazem sexo em grupo desde tempos imemoriais. São estórias que já vêm desde o início da humanidade. Já me referi ao filme «Alexandre, o Grande», mas para quem gosta de História, vai encontrar todas estas descrições de Sodoma e Gomorra no princípio da humanidade. Talvez alguns angolanos só tenham chegado a estas práticas já um pouquinho tarde, quando alguns até já descobriram que, por causa das doenças transmissíveis, não é altura ideal para certas práticas, sejam elas a dois ou em grupo. Porque a fase da liberdade sexual foi em 1960, com a grande revolução dos «hyppies», que pregava o amor livre. Penso que esta fase do amor livre acabou na década de 80 com o aparecimento da Sida.
Se muita coisa ao nível do sexo já não os assusta, significa que os angolanos estão a deixar de ser puritanos?
Não creio que existam povos puros nem puritanos. Como já lhe disse, o ser humano é bom e mau, tem essa dualidade e é um ser muito falível. Então, como é que somos puritanos? Nós nunca fomos puritanos. Um povo que teve uma guerra de 30 anos, onde se violaram as crianças, as mamãs e as avós, por causa do feitiço, nunca foi puritano.
Definitivamente, o que está a acontecer connosco já ocorreu com os outros?
Todas estas situações vêm do início da humanidade. Sodoma e Gomorra até acabaram por desaparecer e é depois que vêm as grandes transformações morais do homem, após ter passado por todas estas desgraças. Tudo isso encontramos nos primórdios, inclusive nas pinturas e até nas grandes orgias. É só lembrarmos Nero, César, na Roma antiga, e quem conhece a História sabe que isso é tão velho como a própria humanidade.
Apesar de tudo isso, entre nós ainda há romance e sedução? Ou acha que temos relacionamentos mais mecânicos e menos emotivos?
Para mim, tudo na vida é pessoal. Nós podemos ter agora mais alguns constrangimentos do que antes. Considero constrangedor o facto de uma pessoa ter um relacionamento mecânico seja qual for o motivo, porque, se já disse que o ser humano é moral, então, tudo devia partir de situações de liberdades. O ser humano devia ter sempre a liberdade de escolher, mas é evidente que a vida não é assim tão linear, porque muitas vezes as condições materiais, que nós vivemos, ditam um pouco daquilo que nós somos: a personalidade que adoptamos.
Recuando um pouco, diga-nos lá uma coisa: quando a traição vem da mulher a primeira coisa que ocorre às pessoas é pensar em incompatibilidade sexual. Porquê?
Não sei se será sempre assim. É bom que não generalizemos as situações, porque as traições têm muitos motivos para acontecerem. Mas esse também é um bom motivo. Uma mulher pode trair o marido ou porque não cumpre com o seu dever conjugal ou simplesmente pelo prazer de pular a cerca. Como não há super-homens, ele, na sua personalidade de polígamo, acabará sempre por deixar muitas brechas em muitos lugares.
Mas conta muito a satisfação sexual para as mulheres?
Isso também é muito pessoal. Nunca fiz nenhuma pesquisa de opinião neste aspecto e acho que está aí um tema importante para se fazer. Dava um óptimo programa fazermos uma pesquisa de opinião, entrevistarmos, por exemplo, x mulheres de cada faixa etária, sexualmente activas, para sabermos se isso conta muito. Na minha opinião, acho que já contou mais. Para mim, pessoalmente, não posso falar pelas outras mulheres, como é lógico. Acho que isso também varia. As pessoas não são iguais o tempo todo. A mulher não é igual o tempo todo e acho que devo ter tido momentos em que isso podia ser muito importante. E outros onde isso não contava absolutamente nada. Se calhar, agora, é capaz disso não contar muito também.
Aceita a velha ideia de que o tamanho do sexo é documento?
Acho sempre que tamanho não é documento. Para mim, continua válida aquela velha máxima de que «os homens não se medem aos palmos». As coisas têm muito mais a ver com o empenho e desempenho do homem. Não tanto com o tamanho, porque haverá homens que podem ser muito abonados e não saberem o que fazer com tanto abono.
A falta de empenho e desempenho por parte da mulher também pode complicar as coisas?
Pode acontecer. Se a mulher não está muito empenhada, não se vai fazer grande coisa. Isso é mesmo uma questão de desempenho e de empenho. Mas, acima de tudo, é uma questão de sentimento.
Hoje por hoje temos amor e paixão ou mais interesse nos relacionamentos?
Nunca tive amigos por interesse (risos). E se há quem tenha, é uma pena, porque é um pouco da degradação do ser humano.
Não há pesquisa nem estatísticas fiáveis, mas a análise empírica indica que estão a ocorrer muitas disfunções sexuais. O que é que acha que se está a passar?
Não existem disfunções sexuais. Em todas as idades em que a pessoa já é sexualmente activa, sempre vai depender dos objectivos da pessoa. Às vezes, as pessoas estão mais viradas para os estudos, para a literatura, produção de obras de arte do que para a vida sexual. Sexo não é tudo na vida das pessoas. Pode ter a sua importância, mas em fase da vida activa. A frigidez também não tem muito a ver com a idade. Há pessoas jovens que não têm muito apetite sexual. Isso não tem muito a ver com a idade, mas sim com os objectivos que cada um tem na sua vida.
Qual é a opinião que tem de certos estimulantes, como a viagra e o famoso «pau de Cabinda»?
Sinceramente, nunca vi ninguém a experimentar nada disso. Mas penso que, como qualquer outro medicamento que vem para combater uma determinada doença, acho que a viagra foi uma solução óptima para as pessoas que tinham problemas de erecção. Apesar do sexo não ser tudo na vida, as pessoas dão-lhe uma grande importância. Uma pessoa que tiver a sua vida sexual em dia poderá ser uma pessoa mais saudável e acho isso importante. Nunca vi nada sobre o «pau de Cabinda». Acho que não é um produto científico aprovado, o resto poderá ser especulação e não vale a pena avançar mais nada. Mas, sobre a viagra, acho que é óptimo para os homens, em caso de problemas, poderem ter um medicamento que os ajude, mas desde que consultem inicialmente um médico. Acima de tudo, o que vale mais é a vida da pessoa, porque os prazeres da vida são momentâneos. Eles acabam e a vida continua.
Conhece algum truque para prender um homem?
Sou pela liberdade. 100 por cento a favor da liberdade, porque o ser humano só se realiza na sua plenitude, em todas as esferas da vida, se viver em liberdade. Portanto, nunca utilizaria esses truques. Na vida sempre só quero aquilo que me cabe de direito e penso que se o meu companheiro não está mais interessado na relação, ele tem todo o direito de ir embora. Se ela é gentil, é carinhosa e fiel, aqui estão os argumentos para se prender um homem.
Depois há os homens que se prendem para sempre. Normalmente os casamentos dos nossos pais duram ou duraram muito tempo. Às vezes terminam por causas naturais, como a morte. Actualmente, nós vemos jovens que também sabem manter os casamentos. Como sempre, tudo tem a ver com as duas pessoas, porque o casamento e o amor têm sempre um movimento biunívoco. Não será um movimento feito num só sentido.
Os homens querem-nas mais amantes ou mais cozinheiras?
Nem uma coisa nem outra (risos).
E você, Amélia, sente-se em «boa forma»?
Sim, em muito boa forma. Agora até estou a atravessar um óptimo período. Nunca mais fui atacada por nenhuma malária, que é uma questão de saúde pública. Sinto-me bem. Um filósofo, que tenho estudado muito, defende que «a melhor forma do homem ser feliz é viver livre de paixões». Então, a gente pode gostar dos outros, de uma forma racional, e fazermos tudo de uma forma racional, porque as paixões depois só acabam por atrapalhar.
Este é o seu lema também?
É o meu lema, porque as paixões provocam dependências. E as dependências não fazem bem à minha saúde. Nenhum tipo de dependência. Não gosto de dependência do álcool, do tabaco e muito menos dependência de um homem. Ainda posso manipular o álcool comprando-o ou não, mas manipular uma pessoa já é muito complicado.
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