A revelação é do General Gato: “Savimbi morreu em 1991”
01-03-2006 | Fonte: Angolense
Fui ter com ele para falar dos acontecimentos em torno do 22 de Fevereiro de 2002, data da morte do líder fundador da UNITA, mas fui confrontada com a sua revelação: “o velho Jonas morreu em 1991. Depois, disse-me que, na verdade, o líder partidário nunca aceitou ideias de direita, mas que era um homem de esquerda pura. Tem a palavra Lucamba Gato, o general que trata Savimbi apenas por Jonas

Quando é que resolveu aderir aos ideais perseguidos por Jonas Savimbi?

Estávamos em 1974, numa altura em que havíamos terminado a nossa formação secundária. Era um período de tensão, pelo que os jovens mais dinámicos foram obrigados a posicionarem-se, uns atrás da FNLA, outros no MPLA e na UNITA. Nós também não escapamos a isso e aderimos a este grande movimento. Ouvi pela primeira vez o velho Jonas num comício, na sua chegada ao Huambo. O primeiro contacto directo só ocorreu no Bié, em 1975, numa reunião da juventude.

Conte-nos pormenores desse encontro.

O que sobressaia era um homem cativante, impressionante na sua análise dos problemas políticos, económicos e sociais. Naquela altura, tínhamos já capacidade de entender e não haja dúvidas de que era um homem que ocupava espaço, impressionava pela profundidade da sua análise, pela forma como via os fenómenos sociais e, logo a seguir, fomos trabalhar, ficamos engajados em tarefas práticas. Tive o azar de pertencer ao sector da logística, uma área de trabalho estratégica, em que se tinha de lidar directamente com o velho Jonas. Lembro-me de um pormenor que ficou marcado, como se fosse ontem. Aconteceu numa altura em que havia pouca gasolina, em 1975. Eu era o responsável pelo sector logístico. Naquele momento, ele estava a passar e o responsável pelo manuseamento do combustível estava a abastecer um carro (breve pausa), ele chamou-me e perguntou: “o que é isto?”. É que a pessoa que estava a abastecer estava a trabalhar com um tambor que deveria ser usado para combustível para aviões, mas apenas estávamos a usar o recipiente. Esvaziamos uma cisterna para vários tipos de tambores, inclusive para os que eram usados para combustível de aviação. Lembro-me que aquilo foi um vendaval. Só consegui esclarecer tudo no dia seguinte, quando o mais velho estava mais calmo. É que ele ficou convencido de que estávamos a gastar o combustível de avião para outros fins. Quando tive oportunidade esclareci tudo e foi assim que ficamos muito amigos. Nunca mais nos largamos. Cheguei a ser seu director de gabinete, representante em França e secretário-geral. Estivemos sempre muito próximos.

Para além de ser rigoroso, que outros aspectos ressaltavam na figura do então líder da UNITA?

Ele era um homem de rigor. Como seu director de gabinete tinha que ser o último a dormir e o primeiro a acordar. Isto significa que eu dormia menos de duas horas por dia, porque ele praticamente não dormia, ainda era muito jovem, tinha uma capacidade de trabalho extraordinária. Eu sabia que ao acordar, por volta das seis horas da manhã, receberia o telefonema do doutor Savimbi para fazermos o ponto da situação sobre vários problemas, desde internacionais até nacionais. Falávamos tanto de questões administrativas como políticas. Era preciso estar a altura dessas conversas e, como ainda éramos jovens, aguentávamos. O doutor Savimbi era uma pessoa com uma grande capacidade de trabalho, muito organizada e de mobilização. Era simplesmente uma pessoa impressionante.

Quando é que tornou um dos generais do exército da UNITA?

Na UNITA, o general não era obrigatoriamente um comandante de pessoas. No meu caso, quando fui promovido a General era Embaixador em França. Soube através da rádio que tinha sido promovido. Isso significa que quando o velho Jonas promovesse alguém para General, era um sinal de que essa pessoa estava a altura de entender problemas de estratégia política, militar ou económica. Não estava em causa apenas a capacidade de comandar homens, mas o sentido de visão e programação. Foi uma experiência edificante. É verdade que como todos os líderes que marcaram a história da humanidade cometeram erros, Jonas Savimbi também cometeu erros de apreciação e análise. Mas, na soma geral sobressai o que foi positivo, não só na luta de libertação nacional mas também no combate pela democracia. Talvez vou fazer-vos uma grande revelação, contrariamente ao que sempre foi dito, o Jonas nunca foi pró ocidental. Nunca foi. Nas suas convicções mais profundas tinha ideias contrárias. Quem levou o Jonas para as posições que coincidiam com o ocidente foi Agostinho Neto, ao proclamar em Angola um estado de partido único, com uma economia centralizada, com a história do poder popular, fez com que Jonas Savimbi fosse para outro lado procurar espaço e aliados para se poder aguentar. Este homem de que vos falo era um homem de esquerda, da esquerda chinesa, responsável. Sempre foi um homem de esquerda (aumenta o tom de voz), mas as circunstâncias internacionais fizeram com que em dado momento se afastasse das suas posições por opções tácticas. Encontrou espaço nessa corrente e houve convergência de ideias entre as posições do velho Jonas com as dos ocidentais. Se de um lado Agostinho Neto preconizou um Estado de partido único e do outro um indivíduo falava de democracia multipartidária, economia de mercado e um Estado de direito, evidentemente que foi ouvido pelos ocidentais. É assim que ele conseguiu os acordos. Mas, dizer que foi um homem de direita, por conotação simples com os apoios que recebeu da África do Sul, não corresponde a verdade.

Até aqui focou apenas o lado positivo de Savimbi, mas estamos a falar de uma pessoa que foi acusada de ter cometido graves atrocidades na Jamba...

Sabe que todos os grandes líderes cometeram erros. No caso de Agostinho Neto, vimos em 1977 coisas terríveis. Mas, não é por isso que se diz que Neto não fez nada, que só matou. É verdade que Savimbi dirigiu um partido em condições de luta difíceis, numa altura em que, muitas vezes, o debate era limitado. Tudo se limitava ao rigor, disciplina e ordem. Muitas vezes isso redundava em questões de injustiça. Estamos hoje a rever o nosso passado, tentamos rever o passivo da UNITA e a história de Jonas não tem só o passivo, que foi mau, como ele próprio reconheceu numa conferência em Abril de 2.000. Talvez não tivesse sido necessário ir por aquele caminho. Acho que o Jonas pecou por excesso de zelo naquilo que eram as suas convicções. Ele acreditava numa Angola mais justa, mais africana e mais acolhedora para todos. No meio desse projecto ele não permitia qualquer tipo de veleidade. Era preciso ter cuidado com o velho Jonas em algumas questões fundamentais. Primeiro, era preciso trabalhar duro. Depois, a ordem. Ele detestava a desordem, a confusão.

Em terceiro lugar estava a justiça. Ai daquele que não repartisse correctamente os bens disponíveis. Quando ele desse um saco de sal para distribuir numa aldeia, então o enviado devia distribuir tudo justamente. Se fosse desviado um quilo de sal, ele perguntava se lhe faltava sal e nesse caso esse indivíduo era fortemente sancionado. Finalmente, cuidado com a conspiração. Nunca devias entrar na conspiração política contra ele. Ele gostava do debate, tínhamos reuniões intermináveis, todos os dias. Mas tudo tinha que ser falado na reunião, se ele ouvisse dizer que houve um encontro onde ele fosse contestado, haveria problemas. Isso, penso que nenhum líder toleraria, muito menos num ambiente de pressão interna e externa. Foi assim que tivemos algumas dificuldades em que muitos que com alguma justeza tentaram questionar uma ou outra questão acabaram por se perder.

Mostrou-nos até agora uma figura extremamente profissional, mas será que havia por trás daquele homem tão temido uma faceta profundamente humanista?

Ele era um pai de família que gostava de cuidar das suas crianças. Também tinha momentos de retiro com a esposa. Para mim, notei nele uma particularidade: De manhã, cumprimentava os seus colaboradores olhando nos seus olhos e dizendo: “como estás, tudo bem?”. Esse exercício foi repetido durante anos fez com que ele conseguisse saber quando é que alguém tinha um problema ou não estiva bem. Nesse caso, ele podia mandar chamar depois, perguntar directamente ou até enviar um bilhete. Ele sabia entender aqueles que estavam próximos dele. Agora me vem a memória um episódio. Uma vez estávamos a sair, iríamos para fora. Ele desejou-nos boa viagem, mas depois de trinta minutos mandou chamar-me. Então disse: “Mas você está a ir para aquele sítio, é onde tens as crianças, mas não me disseste nada. Olha, está aqui mais dinheiro para levares para os pequenos”. Ele disse-me que eu como pai, precisava pensar nessas questões. São pequenos aspectos que mostravam o seu lado humano. Várias pessoas, mesmo os seus adversários políticos internos, sabiam que ele não deixava de ser um ser humano, com as suas fraquezas, com as suas reacções de homem. É verdade no Jonas ressalta mais o lado político, mas não deixou de ser uma figura humana. É verdade que quando um dos seus filhos começou a atacá-lo aqui em Luanda, vi-o e, contrariamente ao que deixou transparecer, ele estava sentido. As pessoas pensavam que era irrelevante, que o velho não ligava, mas senti que ele tinha sido atingido, embora tenha tentado mostrar que não.

O malogrado líder da UNITA é apontado por alguns círculos como um homem de guerra, que em nenhum momento quis abandonar as armas. Mas, o que é que vocês comentavam sobre os caminhos para a paz?

Não concordo com isso. A guerra não se faz só. É preciso duas pessoas. Nós que conhecemos um pouco a gênese do problema sabemos que essa não é a verdade. Os objectivos são sempre políticos, a guerra estala sempre quando o dialogo rebenta. Historicamente as guerras explicam-se sempre porque emergiram depois de terminarem as hipóteses de diálogo. Sou dos que acredita que a nossa história foi tão dura, tão difícil, tão atribulada, que prefiro olhar para frente. Se olharmos para trás só veremos o que nos divide. Precisamos encontrar até o mínimo que nos une. Quando o mais velho falava de Angola dizia sempre que a guerra tinha que parar um dia. Nenhum líder tem um programa político para ser desenvolvido em guerra. Esta guerra que o país viveu não começou depois da independência como ouvi por ocasião das comemorações do 11 de Novembro. Não é verdade. No nosso país, a guerra civil começou antes da independência e vou aqui defender uma tese minha, é que a negociação da independência do país em três dias custou caro. Foi obra do falecido Agostinho Neto, Holden Roberto e de Jonas Savimbi. Como é que conseguiram discutir e assinar em três dias os acordos para a independência de Angola. Esse foi o grande erro. É ali onde tudo nos escapou. Depois, foram as consequências. Três dias de negociações mal conduzidas levaram a trinta anos de guerra civil. A verdade é esta, agora os historiadores que aprofundem essa questão para que possamos mostrar aos nossos filhos a verdadeira história desse país.

Pelo rumo que a UNITA toma agora, muitos historiadores defendem que o partido em que milita era Jonas Savimbi. Até que ponto isso é verdade?

Era um pouco isso. A UNITA era um projecto do velho Jonas e de mais alguns companheiros. Sou dos que pensa que na soma geral, ele representava cinquenta por cento do esforço global da nossa força política.. Não há dúvidas sobre isso. Fruto do seu carisma, da sua experiência, faz imensa falta. Mas já não está, os tempos são diferentes. É preciso que tenhamos a capacidade nos adaptar a essa nova era. Mas, isso leva algum tempo. Aí de nós, se no dia seguinte a morte do velho encontrássemos uma solução. Seria uma solução falsa.

Jonas Savimbi foi ou não traído?

Penso que o velho Jonas morreu em 1991, quando os interesses geo-estratégicos do mundo mudaram profundamente. Nessa altura ele foi retirado de circulação. Em 2002 aconteceu apenas a execução de uma sentença que já havia sido ditada em 1991. Aqueles que entendem a estratégia política e diplomática entenderam que Jonas deixou de ser uma carta no baralho daqueles que ganharam a guerra fria. Era preciso abandoná-lo e não só o fizeram como foi um contra-senso colocar Jonas Savimbi, que todos os anos era recebido na Casa Branca, no mesmo rol que Sadan Hussein, Fidel de Castro, Kadafi e outros. Principalmente, é difícil entender que tal tenha acontecido de um dia para outro. Portanto, há coisas mais profundas do que o que aconteceu a 22 de Fevereiro de 2002. Na história recente, foi a primeira vez que o Conselho de Segurança aplicou sanções a um partido e até perseguiu uma pessoa. Mas é a nova ordem mundial.

Nos primeiro momentos, como é que reagiu a notícia da morte do seu companheiro de luta?

(Silêncio por alguns instantes). Foi difícil.

Acreditou logo?

Tive poucas dúvidas. Eu não estava junto dele, estava em outra região, mas acompanhava os acontecimentos e escrevia no meu diário. Por aquilo que escrevia, quando ouvi a notícia na Rádio Nacional disse: “É provável”. Em outros momentos teria logo dito que não, mas naquele dia aceitei a probabilidade. No dia seguinte confirmei. O sentimento foi... de certa surpresa, apesar das poucas dúvidas. Mas era preciso manter a lucidez, era o mais velho do grupo na área em que me encontrava.

Onde estava?

Ia ao encontro do velho Jonas. Pedi que parássemos cerca de três dias para reflexão. Depois, ditei uma mensagem que ainda tenho aí para o vice-presidente em que dizia: “Estamos contigo. O velho caiu, você avança”. Mal sabia eu que o Dembo também já tinha morrido. Um dos camaradas que estava comigo tinha sido director de gabinete dele. Então, perguntei: “Quando ele recebe mensagens responde logo ou leva tempo para responder?”. Ele disse-me que o vice-presidente lia as mensagens de manhã e respondia a todas durante a tarde. Então, conclui que havia algum problema. Passada uma semana recebi a confirmação da morte do vice-presidente. Então, um camarada olhou para mim e disse-me: “Agora és tu”. Eu questionei, se era a minha vez de morrer (risos). Então, escrevei no meu diário uma palavra que não posso dizer aqui. Escrevi: “Agora estou estou f... mas tenho de assumir a minha responsabilidade” (risos). Depois disseram-me, se o presidente e o vice já morreram e a ofensiva continua, então tudo isso é para ti. Virei-me para o camarada que me disse isso e perguntei-lhe se uma ofensiva que me levasse o iria poupar. Decidimos retiramo-nos para uma montanha. Mantivemos a serenidade e a calma durante uma semana de reflexão. Éramos seis pessoas que precisavam decidir. Pensamos que conhecíamos outros caminhos, mas o da paz é difícil e desfecho desconhecido. Uns disseram-me que eu deveria ser o presidente, mas não pensei que fosse o mais importante, precisávamos fazer a opção da negociação. Pensei que era preciso estabelecer contactos com o Governo. Por dificuldades com o material de comunicação tivemos que entrar em vários canais, incluindo piratas. Caímos na rede de um individuo na Lunda Norte a quem ditamos uma mensagem, mas, quando a mensagem chegou a Luanda, ninguém acreditou. O homem não sabia escrever, mas foi a pessoa que apareceu na rede. Felizmente, depois a mensagem foi aceite. Propusemos o cessar fogo e as negociações.

Estamos a chegar ao fim da nossa conversa, onde ressaltou que bebeu muito do doutor Savimbi. Até onde vão essas influências?

Foi uma convivência de uma vida, de 1974 até 2002. Estou a tentar colocar num papel aquilo que foi a minha experiência de vida com o doutor Savimbi. Ainda não tenho idade para publicar as minhas memórias, mas talvez até publique o meu diário para que as pessoas saibam o que foi a nossa vivência, não só com o velho Jonas, mas do país. A história da humanidade é a história das guerras.
 
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