«Angola, interesse nacional e jornalismo» por Nicolau Santos
15-04-2006 | Fonte: Expresso
A notícia em Angola não é a corrupção ou o atropelo dos direitos humanos, mas as melhorias visíveis em todos os planos

Na madrugada de 28 de Março de 1985, uma dezena de jornalistas portugueses e 40 jornalistas espanhóis aguardavam na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas, no Berlaymont, a conclusão das negociações para a adesão de Portugal e Espanha à então Comunidade Económica Europeia. Quando às três da manhã vimos aparecer, com ar cansado, o então ministro português das Finanças, Ernâni Lopes, e o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, Fernando Móran, os nossos colegas espanhóis romperam numa enorme salva de palmas e num cântico das Astúrias, de onde Móran é natural. Nós mantivemo-nos mudos e quedos, achando verdadeiramente insólita aquela manifestação.

Com o passar dos anos tornou-se claro o posicionamento da imprensa e dos jornalistas espanhóis quando está em causa aquilo que é considerado o interesse nacional: um apoio sem reservas externamente, o que não invalida que tudo se discuta internamente. Foi assim no caso da resistência do Governo português à compra do Grupo Champalimaud pelo Santander (Portugal foi apelidado de República das Bananas), foi assim quando a EDP comprou a Hidrocantábrico (e a imprensa espanhola apoiou a suspensão por três anos dos direitos de voto da eléctrica portuguesa, com o argumento de que tinha capitais públicos), foi agora assim com as reservas à OPA lançada pela alemã E.ON sobre a Endesa, quando a mesma OPA mas da catalã Gas Natural tinha sido apoiada.

Vem isto a propósito da visita de José Sócrates a Angola e da oportunidade que levou o «Público» a fazer um trabalho, na mesma altura, sobre a situação dos direitos humanos naquele país. Não antes, não depois, mas exactamente na semana em que Sócrates foi a Luanda.

Como é óbvio, não está em causa o direito do «Público» a fazer as manchetes que e quando entender. Mas já é mais surpreendente que aproveite a boleia ministerial para o efeito. E que faça manchete dos direitos humanos.

Com efeito, para quem, como eu, visitou Angola em 1993, 1997, 2005 e agora, a notícia não é a existência de corrupção ou o atropelo dos direitos humanos. A notícia, a excelente notícia, é que as melhorias são visíveis em todos os planos, do político ao económico, passando pelos direitos sociais e humanos.

Certo, está-se ainda longe das boas práticas e as eleições continuam adiadas. Mas a tendência é claramente no sentido positivo - e é isso que deve ser enaltecido, valorizado e apoiado por Portugal.

Angola tem hoje governantes que pela sua competência e seriedade poderiam integrar qualquer governo europeu (exemplo: o ministro-adjunto do primeiro-ministro, Aguinaldo Jaime). Na televisão pública assiste-se a debates de bom nível, onde a oposição se faz notar pelas suas críticas. Os semanários independentes são ferozes nos ataques a Eduardo dos Santos e ao MPLA. As ruas de Luanda conhecem um trânsito tão intenso que faz lembrar Hong-Kong. Nota-se um claro esforço de reabilitação urbana e de melhoria no saneamento básico e abastecimento de água dos musseques.

O FMI, que se tem mostrado muito crítico em relação a Luanda, acaba de elogiar o desempenho da economia angolana, dando razão à equipa económica que não aplicou a draconiana receita que os homens sem rosto lhe queriam impor. É verdade que nos negócios há a filha do Presidente, políticos e militares. Mas não é obrigatório aceitar sócios angolanos indesejáveis. O BPI está lá sem ter cumprido essa condição, o BCP também. E há muitos outros exemplos.

Por isso, levantar a questão dos direitos humanos em Angola durante a visita de José Sócrates pode ser politicamente correcto, mas não retrata a situação e é contrário ao interesse nacional. Mas como é óbvio, nada disto justifica o violento ataque da Angop e do «Jornal de Angola» contra o «Público» e o seu director - a provar que em Luanda ainda há quem não entenda o que é a imprensa livre, independente e de referência.
 
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