«Vale a pena acreditar em Angola»
23-04-2006 | Fonte: Jornal de Angola
Um dos homens mais ricos de Portugal, Américo Amorim esteve, pela segunda vez em Angola em menos de quatro meses, desta vez fazendo parte de uma delegação de empresários que acompanhou o primeiro-ministro português a Angola. O propósito é sempre o mesmo: investir no país e participar do relançamento económico de Angola. Habituado à concorrência, Américo Amorim diz que há muito por se fazer em Angola, várias áreas por explorar.

Na sua segunda entrevista ao Jornal de Angola, Américo Amorim fala dos planos de levar o Banco Internacional de Crédito (BIC) instituição a qual está ligado, a todos os distritos do país, aborda a sua parceria com a Sonangol na Galp Energia , bem como revela a vontade investir no sector imobiliário, na construção de hotéis, shoppings, residências sociais e escritórios.

O senhor esteve cá há pouco menos de quatro meses, desta vez fazendo parte de uma delegação de empresários portugueses. O que o traz a Angola mais uma vez?

Estou cá, mais uma vez, porque tenho confiança no processo de Angola. É um país que teve uma situação de guerra muito longa com custos enormes para a sua economia, para a sua população, para o seu bem-estar. Agora que tem o privilégio de ter paz não tenha dúvidas que, com todo o seu potencial económico, é um país em que vale a pena olhar e acreditar.

Que significado tem, para si, a visita do primeiro-ministro português com uma delegação de 77 homens de negócios, onde o senhor também está incluído?

Pessoalmente vim a Angola, desta vez, primeiro a convite do nosso primeiro-ministro; segundo, porque penso que esta visita tem reflexos extremamente positivos, por um lado porque é sempre bom ter o enquadramento político das relações bilaterais e, por outro, porque veio um grande conjunto de empresários, de vários quadrantes económicos. Portanto, pode se ter uma visão mais ampla dos sectores, das disponibilidades, e proporciona níveis de contactos diferenciados com membros do Governo, provoca opiniões positivas, mais favoráveis, e dá uma amplitude mais forte das possibilidades do país.

O senhor detém 25 por cento de um dos bancos mais recentes a operar no mercado angolano, o Banco Internacional de Crédito (BIC). Como compreender está sua aposta no sector financeiro?

Significa uma aposta num sector que me liga 30 anos de experiência, é a quinta instituição que comecei a partir do zero. É uma área de que gosto, porque normalmente dá às economias um grande contributo para o seu desenvolvimento. Temos outros projectos que virão oportunamente, mas entendemos começar por aqui. Foi uma oportunidade de circunstância.

Angola tem hoje mais de 12 bancos. Recentemente um outro banco de capitais portugueses passou à instituição de direito angolano. Que análise faz da concorrência no mercado financeiro angolano?

Conheço razoavelmente, talvez não tanto quanto gostaria, o mercado financeiro mas o suficiente para ter uma opinião. A concorrência é uma coisa que me fui habituando na minha existência, portanto não há nada chocante em aceitar isso como um factor natural. Porque prevalece sempre a capacidade de administração, os objectivos da instituição, a visão dos seus accionistas no empenho que queiram dar à administração executiva no projecto de médio e longo prazos. Esta aposta que estamos a fazer no BIC é um projecto nacional, como já referi aos administradores. Quero dizer com isto que, para além de Luanda (na expressão que tem), devemos abrir agências em todos os distritos de Angola e tocar, de uma forma positiva, nas cidades e nas áreas onde haja população visíveis, mesmo em sítios onde haja dificuldades económicas, por causa da guerra. Que seja um elemento contributo de confiança. Mesmo que algumas destas agências levem alguns anos a rentabilizar, isso está aceite pela instituição, mas criar a motivação da sociedade civil e espelhar confiança numa nova era. Isso também faz parte do projecto, no seu espírito.

O senhor tem uma longa ligação com bancos. Em grande parte deles acabou por vender as suas acções. Isso vai acontecer também com o BIC?

Não. Em Portugal eu estive no processo de fundação de quase todo o sistema privado depois da Revolução. Estive na fundação do BPI, em 1977, com Santos Silva. Em 1984, com o Dr. Mário Soares, na era Ernani Lopes, que revolucionou o sistema financeiro. Antes de me retirar do BPI, preconizei-a fazer uma grande instituição financeira de carácter não só como banca para a indústria, para negócios, mas também um banco comercial. Como na altura não era essa a visão das pessoas do BPI, nomeadamente o seu presidente, portanto a não-aceitação deste pressuposto após a abertura do sistema financeiro português era uma atitude airosa sair do BPI e iniciei, a partir do zero, aquilo que é hoje o Banco Comercial Português (BCP), onde estive durante 10 anos como presidente do conselho superior. Tenho de ter as minhas próprias convicções sobre o futuro e, também, saber por quê existimos como instituições, quem serve e os seus fundamentos. Portanto, não tenho de estar nas coisas de que não gosto, quando têm orientação diferenciada do espírito com que elas nascem, nunca ei de ficar em coisas em que me sinta menos confortável.

Isso não deverá acontecer com o BIC?

Não, porque, em Angola, o BIC é como uma criança angolana que se faz por amor. Este estado de espírito já o expressei naquilo que sinto. Acho que este país tem tudo para ser diferente no futuro, acho que a instituição tem de ter uma cobertura nacional tão rápida quanto possível, ser um elemento contributo ao desenvolvimento da indústria, do comércio, do artesanato, das pequenas e médias empresas. Só assim cumpre a sua missão dinamizadora dentro do país. E isso está a ser cumprido. Tenho a certeza e confiança na actual administração da instituição. Gosto de ver o sistema financeiro, ver na banca, a pirâmide do sistema económico, sobretudo dinamizador da economia, da actividade local de apoio às pequenas e médias empresas e ser um factor de contributo da mudança positiva neste país. Portanto, isto explica um pouco as razões da minha saída. Algumas das instituições em que estive são autênticas circunstancias que forçaram-me, porque houve desvios do espírito inicial sobretudo da forma como as coisas se processaram. O tempo decorrido dá-me alguma razão, em alguns casos.

Como é que o senhor vê o banco BIC nos próximos dois anos?

Fizemos um plano estratégico há alguns meses e está a ser cumprido. Isso é algo que me apraz registar positivamente. Na altura, manifestei a minha irreverência dizendo que seria possível, com um bom plano, rigoroso, pensar-mos na instalação de uma agência por semana. Percebi que houve algumas reacções contra esta ideia. Mas a minha experiência já noutra altura, em Portugal, provou-me que isto é possível. E quando hoje, estamos no mês de Abril, e de Janeiro para cá, iniciamos a construção de cerca de 30 agências distribuídas pelo país, dá-me a convicção que não é impossível no fim do ano termos as cerca das 60 agências, cumprindo aquilo que foi o objectivo. Estaremos ao fim do ano a nível das 65 agências. Este projecto está claramente definido e é o pressuposto, é o entendimento e foi concordado prosseguir no próximo ano de 2007. Estamos também a pensar na sede, porque as estruturas crescem muitíssimo e temos de pensar também em centralizar as operações da instituição. Estamos no ritmo que foi proposto, estamos no crescimento que foi identificado. Às vezes, há algumas condicionantes, o que é normal, não damos os passos que queremos sobretudo nas grandes cidades como Luanda, temos a profunda preocupação com formação profissional das pessoas. Não é fácil, mas a vontade e o espírito é muito forte para superar mesmo as dificuldades de qualidade humana. O ensinamento das pessoas é um acto que também disponibilizamos desde a primeira hora, vimos que os recursos humanos são escassos, mas temos este estado de alma para prosseguir na formação das pessoas para o país.

O que mais lhe atraiu no mercado financeiro angolano para este projecto do BIC?

O que me preocupa em primeiro lugar são os recursos humanos e a sua qualidade. É o primeiro valor a tomar em consideração na economia. O segundo é o dinheiro. Desde que consegui arranjar uma equipa humana com conhecimento do país, com experiência do país, não tive a menor dívida. Tendo isso mais ou menos assegurado, o resto são coisas que vamos resolvendo. O dinheiro nunca abunda, mas vai havendo para aquilo que for necessário para produzir na economia. Os homens e a sua qualidade é que são os bens escassos da natureza.

Um dos principais concorrentes cá no país é um banco detido pelo BPI. Trata-se de uma instituição já bem posicionada no mercado nacional. Está concorrência não o preocupa?

Ter concorrência é um acto da economia de mercado que os empresários aceitam naturalmente. Não estou incomodado com a competição, no final da corridas as velocidades são sempre diferentes. Naturalmente há sempre aqueles que correm mais nas maratonas, portanto estamos sempre numa maratonas. A qualidade dos colaboradores, na resistência atlética, nos serviços que vão ao público, na receptividade, se o público se sente reconfortado ou não, no apoio que se dá à actividade económica, na atitude de estar no país, no apoio que se dá às instituições de carácter social, no próprio espírito social da instituição, no bem-estar dos colaboradores...enfim.. há muitas variáveis que faz os corredores de fundo ou os menos corredores para chegar à meta. Isto é um acto na vida humana e desportiva e é um bocado como na economia.

Que outras áreas de negócios no país podem interessar ao empresariado português, o senhor incluído?

O futuro só a Deus pertence. Vontade tenho, alma tenho. Como é sabido, recentemente comprei uma posição na Galp Energia em Portugal. Tenho imensa satisfação que a Sonangol tenha aderido, de forma clara, ao projecto. Penso que esta opção, com relação a Angola, é extremamente positiva, há de ter uma expressão relevante no capital da Galp Energia, nas relações bilaterais entre os nossos dois países. A partir daqui, há que intensificar a oportunidade de colaboração no segmento da energia, dos petróleo e a exploração, etc., entre a Galp Energia e a Sonangol. O que podermos fazer mais na expansão na península Ibérica, o que Galp Energia pode também fazer aqui em Angola. Tudo isso está a ser objecto de diálogo e não tenho dúvidas: há boa vontade das partes de prosseguir e intensificar as relações. Vamos fazer mais coisas no futuro, que é agradável para os dois países, e a sociedade só beneficia com mais conforto e comodidade.

Esta nova etapa das relações empresariais que Portugal e Angola estabeleceram com a vinda do primeiro-ministro português, terá a ver com o facto de Angola hoje estar a olhar mais para os gigantes asiáticos?

Não tenho receio dos chamados gigantes asiáticos. Penso que Angola é um país suficientemente grande, potencial e economicamente forte no continente africano para não menosprezar as relações internacionais desde a Ásia aos Estados Unidos, desde a América do Sul à Europa e, em particular, a Portugal, que é um pequeno país, mas simpático. Angola deve sempre recepcionar as oportunidades que lhe são oferecidas pela globalização da economia que está em curso.

Como é que surge está união entre a Sonangol e o Grupo Amorim para a Galp Energia?

Surge de um diálogo natural, de conversas mantidas em Angola, em que manifestei o por que não me apoiavam neste assunto em Angola. Portanto, as partes convencionaram isso e penso que é muito positivo pela importância que isto tem. Teve um forte impacto no Governo português e na economia, porque a Sonangol é uma empresa expressiva na economia angolana, é uma empresa cujas subsidiárias vão estar cotadas no mercado de capitais, que está na expectativa até ao fim do ano. Ela está identificada como uma boa empresa, uma grande empresa. Portanto, tem uma legibilidade muito forte para a própria Sonangol, penso que isso foi muito bom reciprocamente para ambos.

Qual a participação do grupo Amorim na Galp Energia e onde é que aparece a Sonangol no meio desta parceria?

A Amorim Energia, a holding em que estou com a Sonangol, vai er entre 33 a 34 por cento do capital da Galp. AENI, italiana, que é uma grande empresa de petróleo e gás, já tem 33 a 34 por cento. Ao longo deste ano as negociações continuam, está clarificado todo o processo, e vamos ter 33 a 34 por cento da Galp, algures ao longo deste ano, segundo os acordos que temos. Portanto, entre a Amorim Energia e a ENI há um acordo de gestão e um acordo de accionistas. O Governo Português tem cerca de 30 por cento, mas pretende também que a empresa seja privada. Então vai haver uma OPA (Oferta Pública de Aquisição), a colocação da empresa na bolsa ainda este ano. Numa primeira fase, como mínimo de 20 por cento, depois, posteriormente, mais. Portanto, significa que a empresa tem o rumo de vir a ficar, na sua base global, entre a Amorim Energia e a ENI. A ENI tem só uma entidade e a Amorim Energia tem dispersão entre o Amorim e a Sonangol. Portanto, são posições relevantes, pois são dois terços da empresa que ficam sobre esta linha de orientação e o resto ficará, no mais curto espaço de tempo, no mercado de capitais. Há aí uma pequena posição com que o Governo português ficará através da Caixa Geral de depósito. Não sei se são dois, três ou quatro por cento. Isto é uma discussão de protecção de alguns assuntos sensíveis que o Governo português, naquilo que representa área sensível na economia portuguesa, entende por bem que o Estado deva ter uma eventual intervenção se verificar situações de conflitos, ou anormais, porque é uma área que mexe com o país e o seu abastecimento.

Qual é a percentagem da Sonangol na Amorim Energia?

A minha Holding tem 55 por cento e a Sonangol tem 45. Em termos directos isso representa entre 14 a 15 por cento aproximadamente na Galp. Mas é bastante representativo, porque é um bloco uno, um bloco de accionistas que quiseram tomar esta participação, e é uma posição de influência na companhia portuguesa. Não é uma posição menor, trata-se de uma posição que tem o seu impacto accionista que determinará, com a ENI e obviamente também com o Governo, aquilo que falei, o rumo e orientação da empresa estrategicamente.

Em Portugal, o Grupo Amorim está em peso no sector imobiliário. Haverá alguma pretensão de investir em Angola neste segmento?

De facto, uma das empresas do grupo Amorim, a Amorim Imobiliária, tem uma grande dimensão em Portugal, basicamente em Lisboa. A volta de Lisboa temos segmentos específicos, escritórios, residências sociais, shoppings (temos muitos). É obvio que a curto prazo, não sei quando, mas a curto prazo é um sector que vamos começar a fazer coisas aqui em Angola. Temos o “know how”, temos um critério bem correcto das coisas, temos as equipas técnicas. Acho que com tanta coisa que se pode fazer aqui em Angola, seria insensato não pensarmos em mobilizar recursos e quadros para construirmos esta linha de segmento da economia.

Fala-se, para já, na construção de um Hotel cinco estrelas, avaliado em mais de 60 milhões de dólares?

Ainda não está decidido, está em perspectiva, mas ainda não é concreto. Portanto, não posso fazer uma afirmação de concreto. O estado de espírito é de avançar para outros segmentos que o grupo, na sua dimensão e diversificação, faz em Portugal. Como disse, temos estrutura, temos quadros, portanto podemos fazer isso. Fizemos as coisas em Portugal, Espanha, em França, na Polónia… portanto, temos alguma dimensão, experiência, algum bom rigor… ganhamos, na exposição de Mipim, em Cannes (França), dois prémios para Portugal de melhor qualidade na Europa, nomeadamente um shopping modelo, na cidade de Coimbra, e outro no Algarve, pela sua qualidade e originalidade. São prémios raros e Portugal recebe dois prémios neste sector. Por isso, posso dizer que temos no grupo equipas técnicas magníficas, de altíssima qualidade, temos engenheiros, arquitectos, quadros, pensadores, homens do meio ambiente, etc. Acho que é justo e é lógico transportar isso aqui para Angola.

Recentemente, o presidente do Grupo Amorim Imobiliária disse que o Hotel deveria surgir num prazo de dois anos e meio a três anos e que teria entre 200 a 250 quartos e já disse que seria erguido no centro da cidade....

É possível. O preço pode ser aquilo que for, desde que o hotel surja. Penso que Luanda tem uma lacuna de hotéis de alta qualidade. Acho que é possível ter um ou dois hotéis de altíssima qualidade, penso que esta lacuna existe claramente. Além da quantidade é preciso também apostar na qualidade. Luanda é capital de um país que vai ser muito grande, é um imperativo que haja hotéis de qualidade.

Angola está paz apenas há três anos e ainda busca a estabilidade macro-económica. O que o faz investir em Angola?

Angola é dos países de África de expressão portuguesa com mais riqueza e a sua riqueza também é mais diversificada. Isso, à partida dá a atracção, é normal que assim seja. Moçambique também é muito importante, mas temos de convir que é mais distante, tem menos capacidade de gerar riquezas.
 
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