Bolsa vai acelerar privatizações angolanas DE (Tiago Freire)

A bolsa de luanda deverá estar em funcionamento perto do final do ano e é instrumento para acelerar privatizações de empresas angolanas

Angola está perto de contar com uma praça financeira moderna. As empresas portuguesas, sobretudo do sector financeiro, jogam um papel essencial num processo que irá acelerar a abertura da economia angolana às regras do mercado, defende o responsável pela criação da Bolsa de Luanda, António Cruz Lima.

Qual o ponto da situação no lançamento da bolsa?

Falta constituir a própria bolsa, que vai ser uma sociedade anónima. Convidámos para participar os bancos comerciais e as empresas do Estado, líderes da economia angolana, de forma a constituir o capital social da bolsa. Prevíamos um capital à volta dos 7,7 milhões de dólares, mas poderá chegar aos 15 milhões de dólares, a julgar pelos pedidos de subscrição que temos recebido. Isto vai permitir fazer uma bolsa já com critérios mais modernos, com um sistema de negociação com mais opções. A escritura está prevista para 16 de Março e, depois de confirmados os sistemas técnicos, vamos precisar de mais uns seis meses para preparar tudo, juntamente com os accionistas, para ver se temos a bolsa a funcionar no final do ano.

Quem são esses accionistas?

Temos vários, como a Sonangol, a Ensa, a Endiama, o Porto de Luanda, o Fundo de Desenvolvimento, do Estado, e ainda os bancos, como o BAI, o BIC, o Banco de Fomento de Angola, o Millennium Angola, entre outros.

E quanto à Caixa Geral de Depósitos e ao Santander?

Não, esses vão integrar o conjunto de outros bancos através da Associação de Bancos, uma vez que não têm sido muito activos nas negociações para a criação da bolsa. Os quatro bancos mais activos nesta questão têm sido o BAI, que é privado, e esses três bancos de matriz portuguesa (BFA, BIC e Millennium Angola). Ainda vamos a tempo de falar com a CGD e o Totta, mas já não estamos em condições de estar agora à espera e à procura de investidores.

Que percentagem da bolsa ficará nas mãos do Estado?

Para o Estado andará à volta dos 43%, indirectamente através de empresas estaduais que vão entrar. A presença da Banca anda à volta dos 20%.

E quanto ao interesse das empresas em estarem cotadas?

Falámos com vários gestores de topo de várias empresas, e temos três bancos que demonstraram interesse em serem os primeiros, o Millennium, o BIC e o BFA, que já apresentaram a sua proposta, para estarem cotados logo à partida.

Além dos bancos, que outras empresas vão estar no mercado?

Há algumas empresas na linha da frente mas que nós achamos que temos de trabalhar mais com elas. Há empresas do Estado, algumas ligadas ao ramo petrolífero. Nos cimentos e no sector das bebidas também há muito interesse.

E quais são essas empresas?

Está em análise, por exemplo, a Sonangol, algumas companhias do grupo, mas seria especulativo dizer desde já quais são. Também algumas empresas do sector cimenteiro, e até empresas novas. Precisamos de reconstruir o país economicamente e isso não se faz só com as mesmas 50 empresas de sempre.

Há mais empresas portuguesas que tenham demonstrado interesse formal?

Todas essas empresas estão à espera da constituição da bolsa, para se pronunciarem com mais detalhe. A questão da abertura da bolsa em Angola infelizmente tem sido encarada com alguma desconfiança, mas agora a acção do Governo está aí, a decisão está tomada e foram dadas todas as condições materiais. Acredito que muitas empresas possam aparecer quando o mercado estiver em funcionamento, até porque o Estado poderá aproveitar para dispersar as posições que tem em várias companhias e também consórcios de concessões, como é o caso dos minérios, ferro, diamantes, petróleo.

A companhia aérea é uma das empresas que pode ir para a bolsa?

Eu gostaria muito que assim fosse, mas não estava preparada quando começamos este processo. Espero que seja possível a TAG recuperar devidamente e que tal aconteça. É também muito importante que as empresas angolanas possam concorrer em sectores que são ainda monopólio do Estado. A bolsa vem aí e vai ajudar as empresas para que haja mais concorrência em sectores como as telecomunicações, os caminhos de ferro, os cimentos e a aviação civil.

O facto de passar a existir uma bolsa pode acelerar o processo de privatizações?

Tenho a certeza que sim. Não é fácil de fazer imediatamente em muitas empresas porque estas têm problemas de organização. Em todo o caso, a Bolsa de Valores vai ser a oportunidade única e incomparável para o Governo dispersar pelos angolanos e outros investidores o capital de empresas do Estado. É uma forma melhor de obter financiamento e é mais transparente, apesar das ‘golden shares’ e instrumentos afins que se possam emitir. É uma forma de fazer os angolanos participarem na recuperação económica do país.

Quanto às ‘golden share’, o Estado vai ter posições dessas em sectores estratégicos?

Não há uma decisão política tomada. Vai ser decidido caso a caso, embora eu seja contra as ‘golden share’.

E qual é a sensibilidade do Governo?

O Governo está bastante aberto nas questões relacionadas com o investimento privado, e com muita vontade de recuperar de 30 anos de destruição. Temos visto iniciativas concretas na Banca, na indústria, nos diamantes, que o Governo ajudou. Não acho que haja qualquer tipo de preconceito ou resistência, o que se vê pelo incentivo à implementação do mercado de capitais.

A instalação desta bolsa poderá dar vida ao “capitalismo popular” em Angola. Será que há poupanças para canalizar para a bolsa e isso será visto com naturalidade?

Vejo Angola muito melhor do que a Rússia em termos de passagem de um sistema para o outro. As pessoas perceberam que era necessário mudar de plataforma. Em trinta anos de independência, Angola tentou o socialismo em 15 e leva 15 a tentar a economia de mercado. A passagem para um novo sistema teve dificuldades e viu-se que não foi feita da melhor forma, não beneficiou todos, pelo que é preciso ir gradualmente. O mercado de capitais é uma forma de envolver as pessoas na arrumação desses sonhos e vontades. No que toca às poupanças, temos que admitir que elas não existem. Há consumo no estrangeiro, por exemplo em Portugal, no Brasil, na África do Sul, há muitos problemas que levam à escassez. Há muitos gastos com educação e alimentação, e sobra pouco.

Espera-se um crescimento de 27% da economia angolana em 2006. Isto é sustentável?

Não vai durar para sempre a este ritmo, vai voltar à normalidade. Os investidores viram que Angola já é uma praça importante, que há estabilidade, o preço do petróleo triplicou, a China também ajudou. Vamos continuar a crescer, a investir e a produzir mais, mas não a este ritmo, até porque a base era muito baixa e está a subir.

Está previsto algum tipo de incentivos fiscais aos investidores na bolsa de Luanda?

Estamos atentos a isso e a estudar algumas medidas. Não está nada aprovado mas está tudo acautelado pelo Ministério das Finanças. Já pedimos autorização legislativa para que o Governo possa facilitar esta situação, talvez com benefícios fiscais para os investidores e os fundos de investimento, sobretudo no lançamento do mercado.

A informalidade da economia também não ajuda e esse é mais um desafio que temos com o mercado de capitais, fazer com que as pessoas que queiram investir na bolsa tenham todas um cartão de contribuinte e uma conta bancária, algo em que os bancos podem ajudar.

Que objectivo e resultados tiveram as reuniões que teve em Portugal, nos últimos dias?

Conseguimos alinhavar três protocolos com a CMVM, a Euronext Lisbon e o Millennium bcp, que serão assinados brevemente. O primeiro-ministro português vai em breve a Angola e essa será uma boa oportunidade para o fazer. Temos um protocolo com a CMVM para a formação dos supervisores angolanos, que poderão vir cá em grupos de até seis pessoas, para aprenderem, dentro da CMVM, os processos de supervisão; com a Euronext, teremos também responsáveis em Lisboa para formação no acompanhamento dos mercados; quanto ao Millennium, conseguimos apalavrar um acordo com o nosso Instituto do Mercado de Capitais, para que os seus formadores se especializem mais em domínio como a corretagem, a negociação, avaliação de empresas e IPO. Gostaríamos que estas entidades, sobretudo a CMVM e a Euronext, pudessem acompanhar José Sócrates a Angola para rubricar estes acordos.

Como está a situação da dívida a algumas empresas portuguesas, como as construtoras?

Creio que se vai encontrar uma boa solução, até, por exemplo, fazendo uma troca dessa dívida por activos no âmbito do mercado de capitais, ou por lotes industriais ou habitacionais.

Há actualmente um conflito entre a Cimpor e o Estado angolano no que toca à Nova Cimangola. É possível resolver este caso sem recurso aos tribunais?

Tive conhecimento de que já há um princípio de acordo neste caso. O acordo passa pela desistência dos processos e pela saída da Cimpor do capital da Nova Cimangola, vendendo a participação. O Estado poderia comprar a participação, porque tem direito de preferência, e depois vender na bolsa, e aí a Cimpor até poderia vir a comprá-la, se quisesse, o que poderia ser uma solução.

Perfil: António J. Cruz Lima

António Cruz Lima, de 40 anos, é o actual responsável pela criação do mercado de capitais em Angola, tendo um percurso dedicado à economia do seu país. Licenciado em Economia pela Universidade Agostinho Neto, com um mestrado em Finanças pela Universidade de Londres, foi director nacional do Orçamento até 1998, quando se dedicou à formação do mercado de capitais. Trabalhou como professor e em algumas ONG’s, fazendo parte da assessoria económica do Presidente angolano.


24 Feb 2006
Fonte:DE (Tiago Freire)    [Comentar]

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Comentários
celso almeida    CELSOTORRES@SAPO.PT
PENSO QUE A BOLSA DE VALORES É BEM VINDA A UM PAÍS EM FRANDO DESENVOLVIMENTO.

ncb    ncb@nexos.ao
mais uma vez os espertos sempre a frente não se esquesam que o macaco so almoça não janta. isso é uma forma legal de ficarem com as empresas publicas por meia duzia de tostões sem que o povo saiba quem comprou. è facil ver que agora o governo so cria empresas como Socidadedes Anonimas para a maldade vc tem muito jeito .

marilia ramos    lisboa
eu pessoamente considero, que a bolsa e as consequentes privatizações contituem uma excelente medida, até pq facilmente acarretarão o investimento privado para o país , e sucessivamente mas postos de trabalho , principalmente para os recém - licenciados nestas áreas nomeadamente. porém considero tambem a sociedade e principalmente as pessoas que aqui deixaram os seus comentários, como sendo pessoas muito pessimistas(com todo respeito) temos de acreditar nas potencialidades do nosso pais e deixar-mos de ver tudo apenas pelo lado negativo

Paciente Domingos ( Bob )    bob_domingos@msn.com
Essa Bolsa de valores é naturalmente muito importante para a Política Ecônomica de um País. Mas para Angola não é o momento certo, um País que suas infra-estruturas necessárias não funcionam, um País quase sem leis,sem metas ecônomicas e políticas, não é capaz de ter uma Bolsa de Valores funcionavél. Esta Bolsa de valores agora em Angola, só iria aumentar a roubalheira, e sujaria mais uma vez o nome de angola no exterior, porque esta Bolsa será cheia de escândalos. E onde estão os angolanos que sabem lhe dar com Bolsas de valores? Então ta claro, teremos um monte de estrangeiros trabalhando com nosso dinheiro na Bolsa de Angola; mais uma vez os angolanos vão chupar os dedos, e o bolo será só para os ladrões do M e os estrangeiros. Senhores Políticos, voces acham mesmo que neste momento o que Angola mais necessita é uma bolsa de Valores? Eu não acho. Existem muitos projetos e assuntos que seriam beneficos ao Povo, e deveriam ser prioridade. Prezados Senhores, vamos ter esta Bolsa de valores sim, mas por favor,dêm tempo ao tempo, e uma oportunidade ao país crescer realmente, e tirar seu povo da pobreza.

Anónimo    
Mania de grandeza, sempre na miseria, um pais que nem sequer conta com mais de 3 ciberneticos matematicos, a proliferação da colerà danos o nosso metro de desenvolvimento. muitos estados africanos com muita gente formada nem se atrevem a cometer besteiras como vocés. Um exemplo a Republica Checa não conta com um mercato de bolsas. Vocés querem somente ipotecar ainda mais o nosso futuro, ainda bém que jà começaram a a morrer aos pocos. bazei

Anonimo    
Esse senhor é contra as "golden shares" nesta fase em que o País se encontra? Ou eu não perecebo nada ou acho muito muito estranho! Gostaria de ouvir esclarecimentos dele, ainda q fosse neste espaço.

Abdul Aziz    abdulaziz@bol.com.br
É necessário que antes de qualquer política privacionista, sejam feitas pesquisas de opínião pública e auditorias imparciais para que não se entregue aos especuladores à preço de bananas, os bens de uma Nação construidos com tanto sacrifícios pelo povo.Aqui no Brasil privatizamos nossa infra-estrutura,enérgia, telefonia, rodovias(as que dão lucros),siderugias,sistema de águas, ferrovias e outros bens do eterno suor do povo, na época, a maiou menos oito anos atrás, os políticos e seus lobistas diziam que era para melhorar a situação social,agilizar os serviços, pagar as contas internas e externas e blá,blá, blá...Tudo mentira, o dinheiro das privatizações "o gato comeu e ninguém viu", as ferrovias continuam à míngua, as estradas esburacadas,continuamos na dependência de caminhões para transportar nossos bens de consumo,a violência aumentou, o Rio de Janeiro vive em guerra civil não declarada,os governos não tem acesso as populações desasistidas dos morros, que são controlados pelos chefes do tráfico de entorpecentes.Quem ficou feliz nessa história de privatizações no Brasil, foram os que lucraram com negociatas e os capitalistas estrangeiros que compraram a preço vil nossas riquezas.E todos nós sabemos que o capitalista não faz caridade! Quem mais lucrou no Brasil nos últimos anos foram os banqueiros(só perdeendo para o tráfico de drogas), o povo continua morrendo sem assistencia na porta dos hospitais, temos um código leis complexo, mas que não funciona.Através dessas privatizações duvidosas, está a política do NEO-COLONIALISMO, cuidado Angola não entregue seu sangue de maneira fácil mais uma vêz aos oportunistas que estão sentados em seus confortáveis escritórios à quilometros de distância.Antes eram o chicote e os grilhões; hoje invadem com o poder finanaceiro.abdulaziz@bol.com.br

max    max_moroni2000@yahoo.com
qual sao os gastos que se fasem com a educaçao e alimentaçao?angola é o segundo pior pais para se nascer.o desenvolvimento do pais so envolve o sector petrolifero e diamantifero?A as empresas angolanas jamais terao capacidades para competir com as companinhas estrangeiras?os intereces deste projetos sao pessoais e nao nacionais contruir um pais economicamente nao é com o numero de companias internacionais que so tenhem olhos nos sectores petroliferos e diamantiferos mas é apostar em primeiro plano no conjunto de companinhas nacionais envolvendo todos os sectores do pais.tem de se opooser resolutamente aos projetos pessoais desta casta borguesa ,porque ela a letra nao serve a nada,esta classe borguesa mediocre em seus ganhos em suas realisaçoes tenta mascarar a sua mediocridade por operaçoes de prestigio ao escalao individual .em efeito na historia esta fase borguesa é uma fase inutil quando esta casta desaparecer devorada pelas suas propias contradiçoes nos aperceberemos que nada se passou depois da independencia e tera de se comessar tudo do zero.

Marcos Mussa    Toronto-Canada
Confiança! É encorajador ouvir falar de iniciativas desta natureza. A bolsa de valores é uma instituição de extrema importância numa economia de Mercado. O único se não reside na fiabilidade e credibilidade das instituições de soberania consubstanciada na problemática da separação de poderes. Como todos soubemos Angola é ainda dominada por um homem. Não creio que o sistema judicial estaria em condições de dar o tratamento devido aos meninos do sistema, que venham a defraudar o sistema, como acontece em outras partes do mundo. Apesar de todos “cos” penso ser um paço que vale a pena dar, no cômputo geral trará mais benefícios do que frustrações. Pessoalmente, como profissional de contas e finanças perspectivo excelentes o aumento de oportunidades de negócios.

Ignobil    Cazenga
Eu acredito que a intencao e' boa, so que a entrada na bolsa de algumas empresas angolanas devera acabar com certos vicios que alguns CEOs de certas empresas nao devem querer que acabem. Ja pensaram que as empresas terao que ser todas auditoradas e mta gente nao esta disposta a ter as suas contas auditoradas, os bosses nao vao querer que as instituicoes que dirigem deixem de fazer o papel de banco emprestando dinheiro aos proprios dirigentes, acho um pouco prematuro abrir a bolsa em Angola, e o risco maior e' se essa bolsa crashar o dificil sera recuperar a credibilidade.... ...senhor presidente da republica pense bem antes de deixar que seja aberta a bolsa. Senhor Anonimo so um esclarecimento, o BAI e um banco de capitais mistos ou seja nao deixa de ser privado por ter dinheiro do estado, temos como exemplo tb a movicel que e' uma empresa privada e na verdade a Angola Telecom subscreveu 99% do capital social e todos sabemos que a AT e' do estado por isso do pto de vista jurido/legal o BAI e' um banco privado.

santander veigas    s.veigas@yahoo.com
Angola, vamos procurar não correr e sobretudo não queimar etapas...A ideia duma bolsa de valores é super, mas o país não tem condições para tal...vamos dar tempo ao tempo. Construamos a democracia, o Estado de Direito e infraestructuras sólidas...só então poderemos pensar numa Bolsa...Vamos nos bater contra a corrupção de Estado generalizada e trabalhemos para maior transparência em todos os escalões da vida:socio-económica do país. Senão de resto, lançaremos o país no descrédito...Simplesmente portugal, com todo o respeito por aquele país, não é um parceiro eficaz e suficiente para esta empreitada.

Anónimo    
Deixemos de coisas o BAI é um Banco Privado desde quando???? O que se fez da participação da Sonagol, ESTADO neste Banco??? Já que este era accionista Majoritario?

Ze Clever    
Temos de Comecar de uma forma ou de outra. Com $15 ou £7 milhoes a verdade eh que Angola nada tem a perder por deixar que gente inovadora tire do papel para a pratica os muitos projectos que precisam ser implementados. O mundo avanca e os que forem inteligentes nao perderao o comboio. Critique quem quizer, o progresso desde galileo ate os nossos dias tem sempre as suas vozes criticas que sempre atingem ouvidos surdos de tao absurdas