Joffre Justino em entrevista exclusiva ao AngoNotícias
26-07-2004 | Fonte:
Nascido em Nampula, Joffre Justino, foi até muito recentemente um dos mais destacados representantes da Unita em Portugal. Formado em Economia e com um Mestrado em Economia e Sociologia do Espaço Lusófono, pela Universidade Lusófona, exerce actualmente a actividade de director de uma Escola Profissional em Lisboa, a EPAR.

Na sequência da sua participação no espaço de comentários do AngoNotícias, desafiamo-lo a responder a algumas questões que deixou em aberto. Assim sendo, respondeu prontamente ao nosso convite e de seguida publicamos a entrevista, concedida.

[AngoNoticias] Dr. Joffre Justino, como antigo militante da Unita, cada vez mais na reserva, como afirmou, considera-se desencantado com a política ou acha que o espaço actual é para novas “figuras” politicas?

[Dr. Joffre Justino]
Existem as duas razões para as pessoas da minha geração… Por um lado sou dos que entendem que devemos abrir espaço às novas gerações, ás que não viveram os conflitos por nós vividos e que por isso poderão mais facilmente concentrarem-se na resolução dos problemas reais do país. Por outro, o desencanto é uma realidade. Sou um socialista, um homem da Esquerda Democrática, habituei-me a imaginar a UNITA enquanto partido da Esquerda Democrática, tal qual estava definido nos seus estatutos originais. Ver hoje a UNITA na Internacional Democrática do Centro, à Direita portanto, sem que tal resulte de uma decisão do Congresso do Partido, à revelia aliás das decisões do Congresso, facto que temia que viesse a acontecer e contra o qual me bati, abertamente como se sabe, é razão para me assumir na “reserva da República”.

No entanto, penso que existe um largo espaço de intervenção social e politico não partidária para as pessoas como eu e, por aí, encontrar-me-ão várias vezes…pugnar pelo Desenvolvimento Sustentado, pela Democracia, pelos Direitos Humanos, pela estabilidade e Reconciliação Nacional serão os meus motes para os próximos tempos…esse espaço passará por uma experiência e vivência académica, universitária, que penso que acontecerá na Universidade Lusófona de Angola, onde desenvolverei o que melhor sei fazer – ensinar!

[AN] Tem sido sobejamente aceite e indiscutível pela opinião pública, o espírito democrático que impera na actual direcção da Unita, mas discutível tem sido a postura adoptada como maior partido da oposição. Nesse sentido, revê-se a 100% na actual linha orientadora da direcção da Unita? Como define o Dr. Isaías Samakuva como líder da oposição?

[JJ]
A UNITA é um Partido da Oposição? Se se tem mostrado enquanto tal esse é o seu principal erro…A UNITA é um Partido que está no Governo, que cimentou a sua posição aí, por consequência dos Acordos de Bicesse, do Protocolo de Lusaka e do Memorando de Entendimento…a actual Direcção da UNITA, provavelmente não adaptada à nova realidade, incomodada que está pelas picadas dos mosquitos, os pequenos partidos da Oposição, parece que se deixou arrastar para a mais incomoda das posições – querer ser o que não é, querer parecer o que não é…ninguém a entende hoje.

Quanto ao dr. Isaías Samakuva trata-se de um homem bom, extremamente ponderado, inteligente, mas que está a conduzir um partido, com uma base de Esquerda, para a Direita, o que impossibilita a demonstração das suas potencialidades enquanto um importante dirigente da Direita Democrática Angolana, como virá a ser um dia…hoje está manietado e incapaz de ser líder… até porque a UNITA aliás, reafirmo, não é um partido da Oposição…esse é um erro da actual Direcção que, assim, se quer afastar da herança da anterior Direcção do dr. Savimbi.

[AN] Ficou também conhecida a sua posição crítica, face à integração de Quadros/dirigentes da Unita no Governo de Reconciliação e Unidade Nacional. No seu entender a Unita deveria abdicar desses lugares, sobre pena de ser “julgada” em conjunto, pelo sucesso ou fracasso das actuais politicas governativas? Uma eventual retirada não poderia comprometer o processo de reconciliação em curso?

[JJ]
Aqui haverá um erro da vossa parte. Tive uma posição critica quanto à integração de dirigentes da UNITA no governo quanto esses dirigentes foram forçados, ou quiseram, apresentar-se com capas como a da UNITA RENOVADA etc., como se lembra.

Com o Memorando de Entendimento defendi, por escrito, a nossa manutenção no Governo, mas reequacionando os membros lá presentes. O dr. Jorge Valentim, pela sua experiência e idade, deveria ser membro do Conselho da República e ter um estatuto equivalente na UNITA, não deveria estar no Governo, deveria ser um embaixador itinerante de Angola no Mundo. O dr. Vitorino Hossi, pela sua intensa anterior actividade, deveria estar a representar Angola, por exemplo, na Organização Mundial do Comércio, dada a extrema qualidade da sua prestação na área, a dr.ª Hamukuaya deveria estar a representar Angola na OMS, etc. A renovação deveria ter sucedido já nos membros da UNITA no Governo, como provavelmente e, aliás o que sucedeu de certa forma, nos membros do MPLA.

Não me parece que uma eventual retirada pudesse comprometer o processo de reconciliação. O que me parece mais é que este processo tem de ser ainda mais dinamizado e que a participação da UNITA no Governo, de forma mais empenhada, facilitaria uma intervenção internacional Angolana mais forte e internamente motivaria os Angolanos e as Angolanas para a reconstrução nacional e, daí para uma mais rápida reconciliação nacional.

Estamos a perder tempo a discutir assuntos do passado e a utilizar pouco tempo a preparar planos, iniciativas, medidas de desenvolvimento económico e social. A UNITA deveria estar no governo como mola dinamizadora de um governo inovador, democrático, participativo – não tem sucedido.

[AN] Acha que já estão criadas as condições para a realização de eleições livres e justas em Angola? Pela sua leitura como experiente (ex)político, que data apontaria para a realização das próximas eleições em Angola?

[JJ]
As próximas eleições têm de ser vistas enquanto um elemento de um plano de desenvolvimento económico e social. As eleições não são para gerar conflito são para alimentar a estabilidade. Assim só posso entender que o processo eleitoral tem de recomeçar imediatamente com um estudo do recenseamento das populações, com o seu recenseamento geral e total a seguir, com a organização das estruturas administrativas locais depois e finalmente com a campanha eleitoral e as eleições. 1992 mostrou que o acto eleitoral não se faz em 9 meses…goste-se ou não.

Ora se estamos em Julho de 2004, Penso que as eleições deveriam suceder entre Março e Setembro de 2006, desde que preparadas desde já. Mas surgiram já outras opiniões mais balizadas sobre tal…

[AN]Se as eleições fossem hoje, quem ganharia, o Mpla ou a Unita?

[JJ]
Penso que hoje as eleições seriam ganhas pelo MPLA. Uma vitória militar, uma governação que se manteve dentro da lógica democrática, por erros que tenham havido e por limitações financeiras que tenham existido, dificultadoras do desenvolvimento que todos gostaríamos para a terra, não limitariam o impacto desta vitória sobre o eleitorado. Mas quanto mais tarde forem as eleições menor será este impacto no eleitorado. Por outro lado as indecisões da UNITA que acima refiro ajudaram bastante o MPLA.

[AN] Apesar de estar afastado do país, que avaliação faz da actual situação vigente em Angola? Houve ou não evolução? De 1 a 20, que nota daria ao trabalho realizado até ao momento pelo Governo?

[JJ]
Considerando as limitações, os bloqueamentos impostos pela comunidade internacional, que se finge de fora de uma guerra civil onde esteve e onde foi parte, penso que o Governo teve uma prestação de média de 13…muito próxima do Bom portanto. A situação vigente em Angola se comparada com a situação de países vizinhos onde existiram conflitos semelhantes mas bem menores, para sorte deles, realça o papel do GURN, o que lamentavelmente esta direcção da UNITA não entende.

A nível local no entanto entendo que muito há que fazer. Como disse, ainda que indirectamente, o dr. Carlos Feijó, recentemente, há que descentralizar, desconcentrar e para isso há que apostar a sério, a fundo, na qualificação dos recursos humanos da administração central e há que criar mais e mais quadros para a administração local e regional. É urgente esta tarefa e seria uma das tarefas onde gostaria de dar uma prestação, por exemplo.

Por outro lado, vivemos um tempo em que alguns, da dita comunidade internacional, com enormes problemas de consciência interior, nos têm dificultado enormemente a vida e se falavam em reconciliação e se falavam na experiência de reconciliação de Mandela, parece que não sabem olhar para a nossa experiência, talvez menos explicita, talvez menos elaborada intelectualmente, mas visivelmente e globalmente, bastante positiva em média. A nossa experiência merecia ser relatada, trabalhada em um contexto sociocientifico e mostrada ao mundo como um case study, goste-se ou não. Os Angolanos não têm razão de vergonha com o vivido nos últimos dois anos, bem pelo contrário.

[AN] Qual é a sua opinião sobre o trabalho jornalístico desenvolvido hoje em Angola? Existem mais Jornalistas ou mais “Pasquins”?

[JJ]
Existem Jornalistas, bons jornalistas, que trabalham em condições muito difíceis…há que criar mais e melhores condições para os mesmos e penso que o meu amigo Ismael Mateus tem feito um bom trabalho para isso no Sindicato dos Jornalistas.

Pasquins? Não os vi…trata-se certamente de uma afirmação de quem não entende que os exageros, que os tem havido e muito, e ainda bem, na comunicação social em Angola, resultam das limitações em que vivem e trabalham os jornalistas. A Democracia vive também destes exageros e temos de conviver naturalmente com eles e é tal que temos, todos, vindo a habituarmo-nos. Não é fácil eu sei, mas é uma experiência obrigatória.

[AN] Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?

[JJ]
Apostem em Angola, apostem em nós, apostem em cada um de vocês! Acreditem que temos potencialidades, mesmo que misturadas entre muitas dificuldades e nuvens cinzentas. Temos mostrado que sabemos perdoar, e reencontrar caminhos como poucos Povos do Mundo. Estamos, todos juntos, de parabéns.
 
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