"Abordagem do SA é séria e não incitará manifestações racistas", Paulo de Carvalho
20-11-2004 | Fonte: Semanário Angolense (Severino Carlos)
O sociólogo Paulo de Carvalho(na foto) considera positiva a abordagem do Semanário Angolense ao fenómeno de «descoloração» do poder em Angola e não acha que isso possa incitar manifestações racistas ou de divisão da sociedade.

O sociólogo, que é por sinal um mestiço, vai mais longe e diz mesmo tratar-se da primeira vez que vê uma «abordagem séria» desse assunto num órgão de comunicação social angolano, apesar de ser um tema tabu na sociedade angolana.

Para Paulo de Carvalho, a matéria foi tratada com a devida responsabilidade e com fundamento em dados estatísticos e elementos factuais concretos. «Ao contrário de determinadas outras abordagens, esta não peca, por exemplo, por reproduzir discursos com interesse político. Do ponto de vista jornalístico, é uma abordagem séria e responsável», realçou.

O sociólogo acredita que os temores e desassossegos suscitados em certos segmentos da sociedade têm a ver não tanto com a matéria em si mesma, mas com receios do aproveitamento que se possa fazer por sectores políticos menos escrupulosos. « Mas, no fundo, não é para aí que aponta a abordagem feita pelo Semanário Angolense.»

O sociólogo corrobora, entretanto, a observação feita pelo nosso jornal: «o poder escureceu mesmo», diz ele também. Mas, relativamente às alterações étnicas e raciais ocorridas no Governo e na direcção do Mpla ao longo das primeira e segunda Repúblicas, Paulo de Carvalho diz ser necessário sustentar isso com métodos quantitativos mais rigorosos para que se possa aferir em que medida essa mudança ocorreu. «Mas que essa mudança ocorreu, ocorreu. Falta agora é saber por que razão isso aconteceu», sublinhou.

Ao esmiuçar esse aspecto, ressalvou, porém, que não se tratou de um fenómeno que tenha sido propriamente induzido. «Embora não acredite muito em espontaneidades nessa matéria, sobretudo em Angola, da mesma forma que acho que Gilberto Gil ou Pelé, a seu tempo, não se tornaram ministros no Brasil por mero acaso, ainda assim não acho que o fenómeno em Angola tenha sido premeditado», disse o sociólogo.

Olhando, por exemplo, para o forte peso, no interior do poder político, que havia inicialmente por parte de grupos brancos e mestiços, Paulo de Carvalho entende que isso se ficou a dever, em primeiro lugar, «à participação na luta armada», e, em segundo lugar, «a uma certa proximidade de ideais e de interesses em relação a quem dirigia, Agostinho Neto». Na visão do sociólogo, a questão étnica apenas entra em cena mais tarde.

Mas, segundo ele, é importante referir um outro aspecto que tem a ver com o facto de durante a Primeira República se ter criado um clima inibidor de qualquer referência a esse fenómeno.


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