Responsáveis do cofre de previdência da polícia sem acesso aos gabinetes
26-03-2019 | Fonte: O País

Há pelo menos duas semanas que as altas chefias do Cofre de Providência do Pessoal da Policia Nacional (CPPPN) não têm acesso livre aos seus gabinetes de trabalho. O “bloqueio”, que chegou a afectar o pessoal da limpeza, é consequência de um minucioso inquérito à gestão de Luís Alexandre naquela instituição mutualista.


Fonte deste jornal confirmou o “bloqueio” do acesso aos gabinetes de trabalho da alta hierarquia do CPPPN e a colocação das instalações sob vigilância policial 24 horas ao dia, tendo sido arredada desta função uma equipa de seguranças pertencente ao vasto império de empresas criadas dentro da instituição. Apesar de as fontes oficiais negarem, sabe-se que decorre uma minuciosa investigação à gestão do comissario Luís Alexandre, presidente do Cofre de Previdência do Pessoal da Polícia Nacional, CPPPN, que tem vindo a ser sucessivamente contestado, dada a longevidade da sua permanência no cargo e o aglomerar de denúncias, apontando irregularidades na gestão da instituição mutualista, dentre outras.


Na primeira quinzena deste mês, por ordem do “mando superior da Polícia Nacional”, os responsáveis, inclusive o presidente do Cofre, terão sido intimados a entregar as chaves dos gabinetes, enquanto durante certo tempo até ao pessoal de limpeza contratado para a manutenção das instalações chegou a ser proibido de lá entrar. Os rumores de “graves irregularidades” no cofre ganharam corpo tão-logo Ambrósio de Lemos foi rendido na chefia da Polícia Nacional por Eduardo Panda. O então novo comandante chegou a lançar farpas graves à liderança do Cofre e tudo indicava que estava de olho na instituição e tomava como investigáveis as múltiplas denúncias.


Data deste período uma autêntica “debandada” de quadros do Cofre, quando polícias receberam ordem de regresso aos seus órgãos de origem. Internamente, alguns responsáveis que chegaram a “colocar” no órgão os seus protegidos (filhos incluídos), tomaram igualmente providências e desfizeram-se dos sinais evidentes de nepotismo. Entre os membros da instituição (estima-se que sejam 120 mil) consolidou-se o sentimento de que a actual equipa à frente do cofre tinha chegado ao fim da linha. Choveram cartas de denúncias de todo o lado, com um grupo mais ousado a propor a realização de uma assembleia extraordinária para analisar a vida da instituição, certos de que por essa via, conseguiriam destituir o já impopular presidente Luís Alexandre. Entretanto, este, ancorado na legitimidade do seu ainda válido mandato, sempre encontrou atalhos para contornar a pressão interna e adiar a implosão, o que, aparentemente, se consolidou com a “inesperada” saída de Panda da liderança do Comando Geral da Polícia Nacional.


O aparente “alívio” foi sol de pouca dura. Paulo de Almeida, apesar de ser um “velho conhecedor das makas” do Cofre, não resistiu à forte pressão dos associados e às constantes denúncias postas a circular de todas as formas possíveis e imagináveis. Uma fonte familiarizada com o processo conta que era “insustentável” manter o silêncio diante de tantas denúncias, vindas até do interior dos próprios órgãos do Cofre. Ao que tudo indica, um inquérito estará a correr trâmites nos órgãos de administração da justiça. Fontes que apelaram ao anonimato confidenciaram a OPAÍS que documentos e depoimentos em posse destes órgãos são “suficientemente confiáveis para dar início a um inquérito”, pelo que a PGR estará a investigar as denúncias. Enquanto isso, uma assembleia extraordinária tornou-se inevitável, à margem da qual, Luís Alexandre, acossado e desgastado com o rumo das coisas, apresentou a demissão, segundo confirmaram fontes concordantes. Estatutariamente deveria ser substituído pelo seu vice, que consequentemente se terá “solidarizado” com o seu chefe, pelo que o cofre ficou sem liderança, acabando à guarda de uma comissão até que as coisas se consertem.

Sabe-se que foi uma aposta da actual liderança a constituição de uma série de empresas de caris comercial na esperança de investir os valores arrecadados pela via da contribuição mutualista, atendendo que, pela sua natureza, o Cofre não busca o lucro. Enquanto herdeiro de similar organização da polícia colonial, o Cofre é detentor de um vasto património imobiliário, ao qual acresce as aquisições realizadas recentemente, tanto no país como no estrangeiro. Sabe-se que terá sido constituído um conglomerado de empresas nos mais variados ramos de actividade económica com a mesma finalidade de multiplicar os activos da instituição.

Algumas fontes falam em 16, enquanto outras apontam 24 diferentes empresas criadas e segmentadas em actividades como imobiliária, saúde, informática, comércio a retalho, educação, segurança, entre outros ramos, aglomeradas em torno de um tal “Grupo C”, ao qual terá sido dado pelo próprio Cofre um bilionário empréstimo proveniente dos activos da associação mutualista. Todavia, os denunciantes consideram que, por essa via, foram instituídos “salários milionários para os pseudo-administradores das empresas, pessoal desnecessário, (expatriados incluídos), enquanto os associados passam por processos humilhantes para aceder aos benefícios”. “Nunca entendemos por quê o Cofre tem tantos trabalhadores. Nunca entendemos qual é a principal utilidade de uma série de expatriados contratos, com destaque para cidadãos portugueses, e nunca vimos o benéfico resultante da multiplicação das nossas quotas acumuladas em biliões de Kwanzas”, questiona um associado.

O fracasso do sonhado centro comercial Ango-Chi, uma megalómana parceria entre a instituição e investidores chineses que se propunham trazer para Angola uma série de manufacturados do gigante asiático, e chegou a dar ares da sua graça nos tempo do nosso ‘boom’ económico, chegou tão logo a tutela do sector do Comércio divisou graves irregularidades na superfície erguida no Camama e ordenou o seu encerramento. Ao que constou, irregularidades migratórias dos expatriados, violação de normas e regras de sanidade e comércio para lá do licenciado terão sido apenas algumas das “graves irregularidades” de que o Ango-Chi chegou a ser acusado.

De lá pra cá já houve tentativas de reabertura, mas debalde. Outra reclamação dos associados é em torno da atribuição de residências. Segundo alguns, os critérios “não são claros” e em alguns projectos da instituição “é possível divisar inquilinos beneficiados e que não reúnem requisitos para tal. Podemos falar até de pessoas que não pertencem à Polícia”. O projecto habitacional vila Azul é, na verdade, a aparente cereja no topo do bolo que é constantemente exibida pela equipa de Luís Alexandre, que prometeu milhares de casas em todo o país, mas que nunca passou da promessa à realidade. O pouco património erguido terá sido distribuído a altos funcionários da corporação (logo pessoas com melhores salários) em detrimento do pessoal de base, com maiores necessidades, denunciam as nossas fontes.

Luís Alexandre terá sido o homem que “resgatou” a áurea do Cofre da Polícia Nacional, antes transformado num corpo inerte que mais servia para proteger o património do que propriamente promover a acção mutualista para a qual se destinava. Numa grande entrevista que concedeu a OPAÍS, chegou a admitir “que estava à frente da organização tempo suficiente e demais”, pelo que estava a equacionar seriamente a possibilidade de retirada. Gabava-se de ter feito uma verdadeira “revolução” na instituição e exibia uma organização mutualista com associados satisfeitos, fruto dos múltiplos benefícios e que já se estava a tornar em consultora para a criação de similares para outros sectores, tal tinha sido o sucesso do projecto. O comissário da Polícia Nacional, com formação em Ciências Económicas, ambicionava fazer do Cofre a organização mutualista “melhor-sucedida do país” e que, ao fim do seu mandato, prometia deixar saúde financeira invejável.

O agora presidente demissionário recusou-se a responder às nossas perguntas remetendo- nos à advogada do Grupo C que, entretanto, refuta todas as acusações e reitera que a “criação das empresas foi autorizada pelos associados, atendendo que a vocação do cofre não é o lucro, pelo que precisava de montar um dispositivo para rentabilizar os seus activos”. A advogada promete provar, com documentos existentes, como o processo de criação do Grupo C foi caucionado pelos associados. “Todas as acusações publicadas são falácias, e estamos disponíveis a esclarecer as coisas”, garantiu. Os associados do Cofre confundem a sua organização, que é de carácter mutualista e sem fins lucrativos, com o Grupo C, um consórcio de empresas de que o cofre é accionista com 51% de acções e que busca multiplicar os activos da organização.

 
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