O Mercado Petrolífero e o Coronavírus
24-03-2020 | Fonte: Flávio Inocêncio, Phd

Estamos a viver um momento sem precedentes. O impacto que o coronavírus está a ter nas nossas vidas é muito profundo. O coronavírus é um evento de tipo “cisne negro”, termo dado por Nassim Taleb a eventos pouco prováveis e raros também muito difícil de prever. As consequências económicas serão profundas, em especial para o sector petrolífero, tema desta reflexão.
 
E neste momento o mercado petrolífero e o preço do petróleo estão a ser afectados pelo que eu chamo dos “gémeos da desgraça”, o coronavírus e a guerra de recuperação de quota de mercado entre a Arábia Saudita e a Rússia.
 
Em primeiro lugar, importa referir que o coronavírus está a exercer uma pressão muito grande na procura agregada por petróleo global que situa nos 100 milhões de barris por dia (Bpd). De acordo com a Agência de Energia Internacional a procura caiu cerca de 2 milhões de barris apenas este semestre e considerando que alguns dos principais países consumidores estão ainda longe do pico da epidemia, por isso é provável que a queda na procura seja permanente e continue até final do ano.
 
Do lado da oferta mundial por petróleo, estamos a assistir uma guerra por quota de mercado entre a Arábia Saudita e os seus aliados do Conselho de Cooperação do Golfo e por outro lado a Rússia. Tanto a Arábia Saudita como a Rússia fizeram parte de um acordo histórico sobre cortes de produção em 2016 que permitiu uma recuperação do preço do petróleo. Esse acordo seguiu- se ao período entre 2014-16 onde a Arábia Saudita seguiu de forma unilateral uma estratégia de recuperação de quota de mercado para impedir que os produtores de xisto norte-Americanos ganhassem quota de mercado.
 
 A recusa Russa em continuar os cortes previstos no acordo de 2016 é que convenceu a liderança Saudita a regressar para uma estratégia de recuperação de quota de mercado com o aumento da produção e descontos de preço no seu crude e neste momento estão a produzir cerca de 12 milhões Bpd, de uma base de cerca de 10 milhões BpD.
 
É nesse contexto que temos de perceber o preço de petróleo e os fundamentais, que são a procura e da oferta mundial por petróleo. A pressão é para um excesso de oferta e um colapso na procura que se pode estender até final do ano. Acresce a isto o facto de termos uma recessão mundial que pode ser muito grave e afectar ainda mais a procura mundial por todo o tipo de matérias primas, incluindo o crude.
 
Por essa razão é importante que o Executivo Angolano tenha uma estratégia com vários cenários possíveis e deve por isso preparar-se para o pior cenário. Nesse cenário podemos ter um novo normal e assumir que o preço do petróleo pode chegar a 20 dólares o barril e manter-se a esse preço por um período significativo. Nesse novo normal podermos também assistir a um colapso parcial da indústria de xisto nos EUA e uma diminuição da produção de produtores com custos elevados como é caso de Angola, aliado a falta de investimentos em novos projectos petrolíferos.
Os mercados bolsistas já reflectem essa incerteza e as empresas petrolíferas cotadas em Bolsa estão a perder valor. Muitos projectos petrolíferos estão a ser adiados ou abandonados e as grandes petrolíferas (as “Majors”) estão já a implementar medidas de emergência para
 
preservar cash-flow e para preços baixos no médio prazo (1 a 2 anos) com planos de ajustamento da mão de obra e corte nos investimentos de capitais (CAPEX).
 
No caso específico de Angola, temo que este possa ser um dos piores anos dos últimos 18 anos. O Orçamento Geral do Estado foi elaborado com base num preço de petróleo a 55 dólares o barril e deve ser revisto imediatamente. A queda do preço de petróleo vai também afectar as reservas internacionais líquidas do país e forçar uma desvalorização do Kwanza.
 
A curto prazo, os efeitos serão graves e o país deve preparar-se para um potencial programa de assistência internacional já que vai ser necessário refinanciar a dívida, numa altura onde cerca de 60% da receitas servem para pagar dívida. No sector petrolífero é importante que tanto o Ministério da tutela, como a Agência reguladora tomem já medidas em concerto com os parceiros da indústria para o impacto que se avizinha que vai ser provavelmente o pior que temos memória.

 
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