Filomeno Fortes: Na experiência das epidemias 75% da população infectada não vai ter sintomas
01-05-2020 | Fonte: Jornal de Angola / Forbes Portugal

No edifício-sede do IHMT (Instituto de Higiene e Medicina Tropical), em Lisboa (Portugal), junto ao Hospital de Egas Moniz, dias antes do início do confinamento generalizado em Portugal e no mundo, o médico e especialista Filomeno Fortes, director da instituição, avisa que a pandemia Covid-19 pode ser controlada, mas que é preciso uma vacina.
 
Uma avaliação feita a partir de anos como membro e líder de equipas que tentaram controlar epidemias de vírus com letalidade muito superior, em Angola, como a do Ébola, Marburg e a febre amarela. A entrevista foi concedida à revista “Forbes Portugal”, publicada há poucas semanas, e é retomada pelo Jornal de Angola pelo interesse que encerra. Trechos da conversa foram suprimidos, porque, entretanto, hoje já estão desfasados da realidade.
 
Neste momento, há diferentes cenários em relação à evolução da epidemia do novo coronavírus. É um perigo tal para a saúde pública que deva assustar as pessoas desta maneira ou deve equiparar-se à disseminação do vírus da gripe normal?
 
Acho sempre importante fazermos um pouco de História. No século XIV, houve uma epidemia brutal de peste bubónica, que matou milhões de pessoas no mundo. Mais recentemente, em 1918, tivemos aquela que talvez seja a epidemia mais desastrosa da Humanidade, a chamada epidemia da gripe espanhola. Houve, no período de um ano, 50 milhões de mortos. Estamos a falar de uma verdadeira epidemia com uma carnificina muito elevada. Depois, fomos tendo outras epidemias, como a epidemia da varíola, declarada erradicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) só em 1980, sendo que o período de erradicação dessa doença se tinha iniciado em 1967. Dizimou também milhares de pessoas. Mais recentemente, começámos com outros tipos de epidemias, de uma forma geral ligadas a vírus, raramente ligadas a bactérias.
 
 
Mas relativamente a esta nova estirpe de vírus?
 
Ao coronavírus é um vírus que, tradicionalmente, já há alguns anos, vem provocando epidemias, e sempre a nível respiratório - um dado muito importante. Isto significa que são vírus que se transmitem com alguma facilidade pelo ar e que podem provocar muito mais mortes do que vírus que não são tão facilmente transmissíveis por via aérea e que não atingem tão facilmente os pulmões. Um exemplo: o Ébola, um vírus que se transmite por contacto pessoal ou através do contacto da pessoa com material muito contaminado, o que quer dizer que a transmissão do Ébola não é tão fácil como a transmissão do coronavírus, que pode ser através do espirro, da tosse.
 
De acordo com a sua experiência no acompanhamento de epidemias, quais são os primeiros elos que quebram nas economias afectadas?
 
O impacto social de, por exemplo, uma holoendemia como o VIH/Sida não é o mesmo de uma doença com um disparar tão violento, tão brusco. O impacto do VIH/Sida vai-se verificando ao longo dos anos. Há uma população que vai morrendo muito lentamente com essa infecção, ao contrário do que acontece nesta situação: são muitas pessoas que morrem ao mesmo tempo, o pânico é muito maior, as repercussões em termos de relação comercial são muito grandes e, em termos turísticos, é uma catástrofe. Países como Portugal, onde o turismo tem um grande impacto, se tiver um grande número de casos de coronavírus, vai lidar com uma certa tendência em que as pessoas deixam de viajar para o país. E, do ponto de vista social, há um problema grave que se chama estigmatização. E infelizmente estamos a verificar isso a nível mundial. Se eu tiver os olhos rasgados e uma aparência asiática, eu sou automaticamente estigmatizado, porque venho eventualmente da China e posso ser um potencial transmissor da doença.
 
 
Como tem acontecido por todo o mundo ...
 
Vou dar-lhe um exemplo do que aconteceu comigo em 2006. Eu era director do controlo de endemias em Angola e tivemos a maior epidemia do vírus de Marburg de toda a história da Humanidade. É um vírus igual ao do Ébola, com as mesmas características. Durante a epidemia, desloquei-me ao Japão, que tem uma capacidade de controlo epidemiológico muito grande. E mesmo apesar de ter passado por vários países - lembro-me de ter passado pela África do Sul e por outro país, porque não temos voo directo - quando chego ao aeroporto, tenho um agente sanitário japonês à minha espera na porta do avião. Ele já tinha a informação de que havia um cidadão angolano, que vinha de Angola, país afectado por uma epidemia de Marburg. Eu fui afastado, isolado, controlado pela equipa sanitária do aeroporto. Fizeram-me um rastreio e, todos os dias, no hotel onde eu estava, era controlado, recebia telefonemas para saber se estava bem ou se estava com febre. Tudo até abandonar o país.
 
 
Isso acaba por ter impactos económicos...
 
O Durante a epidemia de Ébola, há três anos, ou na epidemia de Marburg em Angola, o que acontecia era que as pessoas oriundas das províncias afectadas por esta doença não eram aceites pelos familiares. Os produtos destas províncias não poderiam ser transaccionados para outras províncias. O impacto económico sobre estas populações que já têm dificuldades em sobreviver é muito grande nestas situações. Aqui, o acesso à informação é muito importante. Quanto mais escondermos informação, pior é para a população. A falta de informação leva a que as pessoas reajam muito mais tardiamente, e que se exponham mais facilmente.
 
 
Mas tão importante quanto disponibilizar o máximo de informação possível é também a assertividade dessa informação.
 
A informação tem de ser atempada e correcta. Eu vivenciei o controlo de uma epidemia de febre amarela em Angola há dois anos. O controlo da epidemia era feito fundamentalmente pela vacinação. Começaram a circular duas informações que desmobilizaram as populações para a vacinação. A primeira era que a vacina tirava potência sexual. Naturalmente, os homens começaram a pensar que não se iam vacinar. Uma segunda informação incorrecta era que, depois de se apanhar a vacina, tinha de se ficar três dias sem beber bebidas alcoólicas. Isto queria dizer que, a partir de sexta-feira, não tínhamos homens para vacinar. E, em, África, há ainda o recurso ao tratamento tradicional. Se eu não tiver o cuidado de informar a população para não recorrer à medicina tradicional, porque não vai ajudar, vão-se colocar em risco outras pessoas e o próprio curandeiro, é um desastre. Isto aconteceu com a epidemia de Ébola em África, há meia dúzia de anos, e em Angola, na epidemia de Marburg, em que as pessoas fugiam dos hospitais e corriam para os terapeutas tradicionais, que não estavam preparados em termos de biossegurança, o que fez com que muitos se infectassem e morressem.
 
 
Já presenciou, na sua experiência de monitorização de epidemias, algum caso de disrupção forte das economias das regiões afectadas?
 
Em Angola, quando tivemos a epidemia de Marburg, em 2005, a epidemia centrou-se muito numa província no Norte do país, na província do Uíge. Nestas situações, os países têm a possibilidade de decretar medidas mais ou menos severas de controlo de fronteiras com outras províncias ou com outros países. Estrategicamente, em Angola, numa primeira fase, considerou-se isolar a província. É uma província que vive muito do comércio. Mas ponderou-se que isto poderia ter consequências graves na economia daquela população, pelo que o Governo angolano resolveu não fechá-la. A epidemia de Ébola, por outro lado, atingiu fundamentalmente três países no Corno de África, com muito baixa renda e muitas deficiências sanitárias, onde a população vivia muito de atravessar as fronteiras para sobreviver em outros países. O impacto dessa epidemia foi uma subida do índice de pobreza, que ultrapassou os 60%, algo violentíssimo.
 
 
Como se pode quantificar e prever o impacto económico de uma epidemia?
 
Depende do tipo de epidemia. Na febre amarela, como existe uma vacina eficaz, o impacto não é muito grande, porque o período de controlo da epidemia é curto. A partir do momento em que eu identifico a epidemia, lanço uma campanha de vacinação. E é uma vacina que, a partir do 5º, 7º dia, a pessoa que apanhou a vacina já tem anticorpos, portanto, está protegida. Quer dizer que, num mês, com uma boa acção de mobilização e vacinação, controlo uma epidemia de febre amarela. Uma epidemia de Ébola não posso controlar. Por isso, justifica-se quase o fecho das fronteiras, porque o indivíduo que atravessa a fronteira vai transmitir a doença a várias pessoas. Aí, o impacto no PIB é muito maior. E porque são muitas pessoas a adoecer ao mesmo tempo e muitos a não irem trabalhar, a produtividade diminui. Quer dizer que as pessoas deixam de fazer o seu comércio livre.
 
 
Angola é um país com uma economia muito debilitada. Se a Covid-19 se propagar no país vai gerar ainda mais dificuldades.
 
Estamos com um índice de pobreza neste momento entre os 45% e os 55%. Se acontecer uma epidemia destas, que faça com que a população deixe de produzir, que o Orçamento Geral do Estado aloque dinheiro para meios como máscaras, mobilização de quadros, que o país não tem e que vai precisar, o índice de pobreza vai passar dos 60%, naturalmente. Neste momento, Angola é um país que corre o risco de chegar aos 65% de pobreza e pobreza extrema inclusive. Aí entra a segunda parte do impacto económico e financeiro. É que os países vão ter de recorrer ao FMI e ao Banco Mundial. E isto tudo significa endividamento económico do país. A médio, longo prazo, vamos ter um impacto nas economias destes países.
 
 
Qual é o padrão na evolução das epidemias?
 
Na experiência das várias epidemias, 75% da população que for infectada não vai ter sintomas. Há 25% que vão ter manifestações da doença. Desses, 25% em média, entre 10% a 15%, poderão desenvolver quadros graves. Destes que vão desenvolver quadros graves da doença, se a manipulação for feita atempada e correctamente, vamos ter entre 3 a 4% de mortalidade. Se olharmos para as estatísticas do que está a acontecer com esta epidemia, é sensivelmente o mesmo fenómeno. Há o primeiro pico da doença, em que a mortalidade pode chegar aos 15, 20%. Para dar uma ideia, com Marburg, nos primeiros três meses, tivemos 90% de mortalidade. Fizemos um esforço e conseguimos baixar para os 60% e depois para os 45%. E o vírus de Marburg e o Ébola são muito mais agressivos do que o coronavírus. A segunda comissão deve ser de mobilização e educação para a saúde. E aqui a palavra-chave deve ser combater o pânico.
 
 
Como é que a cooperação pode ser reforçada para evitar este tipo de cenários?
 
Em relação às emergências, a nossa estratégia é que, logo que Angola assuma a coordenação da CPLP, se organize em Angola uma conferência sobre cuidados de saúde primários e que nessa conferência estejam presentes pontos focais de Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, para se discutir uma equipa de resposta de forma imediata e pronta a emergências com representantes de cada um destes países. E, a partir daí, montarmos um projecto de formação, capacitação, principalmente, na área da vigilância epidemiológica. Estamos a jogar com outro factor importante: a partir de 2021, Portugal vai assumir a presidência da União Europeia. Nós queremos alinhar a presidência de Portugal da União Europeia e de Angola da CPLP para melhorar os sistemas de saúde dos PALOP.
 
 
Quais são as perspectivas para que se termine este período de alterações no dia-a-dia das pessoas e empresas, com adiamento de planos e grandes eventos?
 
A OMS não pode declarar o fim de uma epidemia enquanto não passarem seis meses sem nenhum caso notificado. As medidas de excepção têm a ver com aquilo a que nós chamamos prevalência. Quando nós acompanhamos o gráfico, há uma subida e há uma descida no número de infectados. Quando sentimos que houve uma descida de pelo menos mais de 60% dos casos, começamos a considerar a situação sob controlo.

 
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