Lopes Paulo, trucidado pelo pendantismo
13-06-2020 | Fonte: Correio Angolense

Há dois meses, quando a cúpula do MPLA decidiu que Pinda Simão tinha demasiados problemas no Uíge, e a que a sua natureza e saúde constituíam contratempos a uma boa governação, o nome de Lopes Paulo foi um dos que circulou nas discussões.
 
O então secretário do Presidente da República para os Assuntos Económicos preenchia um dos critérios que tem marcado quase todas as nomeações ao nível de governadores: é que, tal como Pinda Simão, é bakongo. Logo, o princípio da etnização, prevalecente no provimento de cargos, sobretudo em províncias afastadas do litoral, estava cumprido.
 
Sob esse ponto de vista, o surto de “mucuakuiza”, que parece animar reivindicações que se observam em algumas províncias, nomeadamente no leste, encontraria em Lopes Paulo um fusível.
 
Sem perceber que esteve perto de sair perto do Presidente da República pela porta grande, Lopes Paulo continuou a fazer coisas que, agora, o levaram a deixar o palácio presidencial pela porta dos fundos.
 
Vão para aí dez dias, escreveu uma carta ao Presidente da República na qual a dizia que a equipa económica do Governo é a principal responsável do mau estado da economia. Segundo o “queixoso”, a situação económica do país só não é pior porque ele, Lopes Paulo, vinha travando estoicamente os desvarios de Manuel Nunes Júnior, ministro de Estado da Coordenação Económica, e José de Lima Massano, governador do Banco Nacional de Angola, seus inimigos desde a primeira hora. 
 
Ao primeiro, Manuel Júnior, com alguma razão, convenhamos, recusou submeter-se hierarquicamente. Ao contrário dos seus antecessores, Ricardo Viegas D’Abreu e Alcino Isata, Lopes Paulo nunca tomou Manuel Nunes Jr. como seu chefe.
 
“Eu sou secretário do Presidente da República, não sou seu assessor”, disparou à primeira tentativa de MNJr pô-lo a trabalhar sob as suas ordens. Em relação ao governador do BNA, José de Lima Massano, Lopes Paulo tinha o problema de se colocar no pedestal e fazer comentários como se de analista de TV continuasse a ser.
 
O ex-secretário do Presidente da República ganhou exposição por causa dos palpites que debitava na TPA. Mas, tal como aconteceu na estação televisiva pública, também ao nível do Governo Lopes Paulo tornou-se mais conhecido pela sua irreprimível tendência para a gritaria do que pela exibição de conhecimentos e substância.
 
Dele, dizem renomados economistas deste país, nunca se viu um “paper” sobre coisa alguma. Cresceu à custa da gritaria na TPA e da militância partidária.
 
Acontece que gritos, pelos vistos, já não lhe enchiam as medidas. Cochichar também não. Vai daí, inspirou-se e enviou a carta com que acabou literalmente queimado.
 
Na quarta-feira da semana passada, Lopes Paulo atravessou pela segunda e última vez a porta do gabinete de João Lourenço a quem fez a entrega da fatídica carta.
 
Tal como José Eduardo dos Santos fazia no passado, João Lourenço leu a carta e ali mesmo marcou uma acareação para o dia seguinte.
 
Na quinta-feira, na presença de Manuel Júnior e de outros membros da equipa económica João Lourenço ordenou que Lopes Paulo lesse em voz alta a carta que lhe entregara na véspera. A leitura da carta ainda não ia a meio e Lopes Paulo já dava sinais de inenarrável sofrimento. Dir-se-ia que ele não estava apenas embaraçado; ele ficou sem chão e sem boca.
 
Ali mesmo o Presidente concluiu que tinha na sua secretaria para os Assuntos Económicos não um assessor, mas um intriguista que não acrescentava nada à sua equipa.
 
Perdido na importância do cargo, dos carros e outras benesses, Lopes Paulo parecia uma encarnação mal parida dos antigos futunguistas: era arrogante, vaidoso e  cheio de empáfia. Porém, ao contrário dos antigos ases de José Eduardo dos Santos, Lopes Paulo não era paciente, não tinha aliados lá dentro e os adversários que escolheu são dez vezes mais bem preparados do que ele. Miala e Kopelipa só começaram a bater de frente quando perceberam que José Eduardo dos Santos gostava dessa concorrência. Toninho Van-Dúnem (Tony Blair) e Carlos Feijó (Chiluba) fizeram a mesma coisa.
 
Porque queria ficar com a bola toda, Lopes Paulo não percebeu que, se por um lado João Lourenço se fez de morto quando lhe deu ouvidos, por outro lado o PRb não tem o hábito do seu antecessor de cultivar guerras entre a entourage.
 
 Por outras palavras, Lopes Paulo foi um arrogante que não passou de um mau aprendiz de intocável. Ser secretário do PR e membro do Bureau Político do MPLA já não são garantias suficientes. É preciso ter a última palavra. E essa estava na carta que levou ao seu chefe.   Em suma, mais um “moço” sai das altas esferas, trucidado pelo seu pendantismo.

 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação