“Os Departamentos de Marketing das grandes empresas são dominados por estrangeiros desconhecedores da nossa realidade”
25-06-2020 | Fonte: Marimba Selutu (Fernando Guelengue)

O impacto da Covid-19 na sociedade como um todo está a ser assustador e no sector cultural é sem sombras de dúvidas violento. Os espectáculos, exposições…etc., desapareceram. Mas com as pessoas a passarem mais tempo em casa, o consumo de livros e os audiovisuais – TV e internet – viram o seu consumo a disparar, entre as pessoas com mais renda. Há também inovações que decorrem da situação de confinamento, vi peças de teatro exibidas em apartamentos e filmadas para o YouTube, que têm atraído uma audiênciasignificativa. O desafio agora é começar a investir em plataformas, em Angola, que permitam comercializar produtos culturais nas TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação). Quem é o diz é o jornalista Raimundo Salvador, em entrevista ao portal Marimba Selutu.
 
É o realizador do programa radiofónico Conversa à Sombra da Mulemba e que está sem um patrocinador de referência. Como é que estáser gerida a sobrevivência do espaço? 

Perdemos o patrocínio da Unitel. A nossa relação era ou foi sempre muito difícil. A operadora levava em média 9 meses para executar os pagamentos e por isso acumulávamos dívidas sucessivas que até hoje não temos como pagar. O mecenato angolano apoia actividades com base no “amiguismo” e sem critérios de valor, salvo raras excepções. Futilidades são o foco dos nossos mecenas, infelizmente. Um programa como o nosso é um alvo abater na ópticado nosso dito jet 7 barroco, que adora revistas e programas para “dondocas” e similares. Este grupo as vezes leva alguns sustos quando se apercebem que um artista como o Kiluanji Kia Henda é respeitado lá fora, o seu trabalho é noticiado. Assustam quando se apercebem que a música do Robertinho é dançada nos parques de Paris e que um famoso produtor americano curte Artur Nunes. Isto acontece porque não conhecem, não têm noção do valor artístico da produção cultural do país. Os espaços da comunicação social que têm como alvo colocar em evidência os elementos descritos não são considerados.


Continua a ser um crítico das opções dos poucos patrocinadores e dos audiovisuais em termos de promoção cultural?


É mais fácil promover futilidadades como os “Dabeleza” ou os “chics” que falam nas televisões do vestido glamoroso de assado ou grelhado. Esta é a triste marca de um País com uma história gloriosa, uma cultura rica e diversa, mas que tem uma classe empresarial que desconhece a sua dimensão, algo que afecta também segmentos expressivos da comunicação social.


Há tempo perdemos o Matumona, figura histórica do Ngoma Jazz. Você ouviu uma reacção oficial? Zero. E o Matumona é central em todo processo de modernização e consolidação da música angolana. Procure uma destas empresas que ainda está a ganhar dinheiro, como os quatro maiores bancos, e proponha um projecto de valorização do legado do Ngoma Jazz. Certamente não terás apoios. E porquê? Porque os departamentos de Responsabilidade Social e Marketing destas entidades são dominados por estrangeiros, preconceituosos e desconhecedores da nossa alma, gente que resume a nossa alma ao kuduro e arredores.

Como encara o momento actual do jornalismo cultural no nosso País?

O jornalismo cultural está cada vez pior, salvo algumas excepções ou rasgos individuais de alguns jornalista e realizadores, como o espaço Poeira no Quintal da Radio Nacional de Angola. A televisão pouco ou nada oferece, começando pela pública e passando pelos canais privados. É triste a assistir ao não retorno de um programa como o “Quintal do Semba”. A história está ausente da Comunicação Social pública e privada, não temos noção da importância da memória como ferramenta para conhecer o passado, compreender o presente e, claro, e projectar o futuro.


O Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente terá prestado algum apoio alimentar aos músicos desfavorecidos. Como encara essa dinâmica?


Temos milhares de músicos. E quem deve ser apoiado? Como é que o Ministério da Cultura está a promover este apoio? Desconheço E os músicos não são os únicos artistas, temos outras dezenas de disciplinas artísticas. Os entes públicos, a meu ver, devem ter como foco a busca ou a viabilização de meios que possam permitir aos artistas trabalhar e ter renda. E como fazer? Também não sei. E é preciso notar que a situação difícil é global, claro que as regiões mais pobres são as mais atingidas.

A fusão dos ministérios que hoje procura dar resposta aos problemas culturais, turísticos e ambientais, não é muita coisa para estar ao lado de um ministério estratégico como é o da Cultura?

Um país com as características de Angola demanda a existência de um Departamento Ministerial focado nos aspectos culturais, capaz de formular e propor políticas assentes numa premissa básica: não é possível projectar desenvolvimento económico sem ter em conta a nossa dimensão cultural.
O grupo carnavalesco Recreativo Kilamba foi contemplado com um financiamento internacional para desenvolver as suas actividades. Isso pode ser resultados de críticas sobre a necessidade de organização estrutural dessas instituições?
O Grupo Carnavalesco Kilamba existe juridicamente, tem contabilidade organizada, conta bancária e planos de trabalho. O Kabocomeu não tem esta estrutura, o União Kiela, da minha amiga Maravilha Dias dos Santos, também não. Se a Sonangol decidir patrocinar o Kabocomeu vai ter dificuldades administrativas, porque o Kabocomeu não existe juridicamente, não tem conta bancária. A antiga ministra da Cultura, Rosa Cruz Silva, já estava a trabalhar num programa para institucionalizar os grupos carnavalescos, que deveriam ser transformados em associações. A base do trabalho já estava erguida e, infelizmente, com a sua saída a coisa morreu, hoje voltamos a tocar num assunto que já estava a ser equacionado.

O País perdeu um dos seus grandes comandantes do Carnaval de Luanda, o artista Pedro Vidal. Como olha para esta perda?

Eu sou do Kassenda e estudei no Prenda. De certa forma também sou do União Dez de Dezembro e o Vidal também é meu comandante, uma figura admirável, um carnavalesco, um artista como poucos. Foi 14 vezes considerado o melhor comandante do Carnaval, o único que não é originário das grandes linhagens familiares do Carnaval de Luanda a atingir o pódio. Vidal compunha e fazia coreografias. O seu sonho era transformar o seu grupo numa máquina capaz de gerar receitas para os seus integrantes.


PERFIL

Raimundo Salvador, 47 anos, natural de Ombadja, comuna de Xangongo, província do Cunene. É Jornalista há mais de 20 anos e fundador do ProjectoCultural Conversa à Sombra da Mulemba.

 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação