A ascensão e queda de Coutinho Nobre Miguel, o “banqueiro do MPLA"
29-06-2020 | Fonte: LuandaPost

Doze anos depois de chegar ao topo da hierarquia do banco SOL, o mês de Junho de 2020 fica assim marcado como o fim do reinado de Coutinho Nobre Miguel na estrutura máxima administrativa da instituição bancaria, saindo pelas piores razões.

Os indícios de que as coisas não corriam bem no banco surgiram em Abril de 2019, quando os seus accionistas decidiram alterar o seu modelo de governação corporativa, socorrendo-se do Aviso N.º 1/2013, do Banco Nacional de Angola (BNA).
 
Com base neste documento, a Assembleia Geral, presidida por Mário António de Sequeira e Carvalho, PCA do grupo GEFI, braço empresarial do MPLA, decidiu pela nomeação de uma Comissão Executiva, e Coutinho Nobre Miguel, que acumulava as duas funções, passou para administrador não executivo mas foi mantido no cargo de PCA do SOL, sendo que, Mário Nascimento foi nomeado Presidente da Comissão Executiva.
 
Por essa altura, o banqueiro escolhido pelo MPLA para dirigir o Banco SOL, após substituir o veterano Sebastião Lavrador, fundador da instituição criada, inicialmente, para o fomento de microcrédito, via os seus poderes esvaziados.

Nove meses depois das mudanças efectuadas na estrutura do banco, Coutinho Nobre Miguel, que também já foi secretário de Estado do Tesouro, sai pela “porta pequena” do SOL. Pois, a Comissão Executiva do banco remeteu aos accionistas um relatório com mais de cem páginas que destapa “os graves problemas de solvabilidade e liquidez” do SOL, com origem na má qualidade da carteira de crédito e nos elevados custos de estrutura”.
 
Segundo o relatório do PCE Mário Nascimento, o Banco SOL regista preocupantes conflitos de interesses traduzidos na atribuição de crédito sem garantias a empresas de accionistas e membros do Conselho de Administração. No documento, Mário Nascimento, que foi substituído por Paixão Franco, revela que “alguns funcionários eram incentivados a adquirir créditos junto da instituição para viabilizar projectos imobiliários de créditos e outros custos eram agravados ao ser proporcionado aos administradores e aos directores doações de viaturas quando nomeados ou 150 mil dólares para compra de habitação, lê-se no documento.
 
Os conflitos de interesses estendem-se à corporação na sua estrutura de negócios de empresas de accionistas e de administradores como fornecedoras do banco, acto ilegal de acordo com as regras do BNA.

O relatório revela, entre outras coisas, que alguns investimentos em imóveis, com recurso a valores tomados no mercado interbancário, chegaram a ter como fonte de liquidez que o banco não tinha. Outra crítica acentuada feita prende-se na reestruturação e apetrechamento do edifício sede do SOL, que custou aos cofres do banco qualquer coisa como 18 milhões de dólares, um investimento que acabou por tornar “excessivo o peso dos outros activos tangíveis“ no total dos activos.

 
Os peritos da consultora EY mostraram-se preocupados com a elevada concentração de crédito nos 20 maiores devedores, com especial destaque para o Entreposto Aduaneiro de Angola, cuja exposição ultrapassava 25% dos fundos próprios nos primeiros quatro meses do presente ano.
 
Menos de seis meses depois deste relatório que a arrasa a gestão de Coutinho Nobre Miguel no SOL, o banqueiro é despedido do conselho de administração do banco que ajudou a fundar em 2001. Saindo, por isso, pela porta pequena.
 
Quem é Coutinho Nobre Miguel?
 
Formado em direito, Coutinho Nobre Miguel chegou a vice-presidente do conselho de administração do SOL quando o banco foi criado, em 2001. Sete anos depois, em 2008, passou para o cargo de Presidente da Comissão Executiva da instituição, sendo que em 2012 ascendeu para a função de PCA. O banqueiro fragilizado é membro do Comité Central do MPLA, assim como é accionista do SOL, contando com 3,91% das acções.
 

 
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