Créditos do BES garantidos pelo BESA custam 194 milhões ao Novo Banco
10-09-2020 | Fonte: Negócios

A auditoria da Deloitte à gestão no Banco Espírito Santo (BES) e no Novo Banco veio identificar mais um episódio da teia de relações entre as várias entidades do Grupo Espírito Santo (GES). Nos anos que antecederam a queda do banco, a administração de Ricardo Salgado concedeu créditos aceitando garantias que eram prestadas pelo BES Angola (BESA). Estas operações geraram perdas de 194 milhões para o Novo Banco e, no final de 2018, esta instituição ainda estava exposta, em 172 milhões de euros, a três dos clientes em causa.

Esta é uma das práticas analisadas pela Deloitte na auditoria aos atos de gestão entre 2000 e 2018, no BES e no Novo Banco, que analisou 283 operações. Estas geraram perdas de 4.042 milhões para a instituição hoje liderada por António Ramalho, a larga maioria das quais gerada por operações feitas ainda no BES.

Entre os episódios apontados, está o BESA. A auditora identificou um conjunto de devedores “com operações de crédito aprovadas e contratadas pelo BES antes de 4 de agosto de 2014 que tinham como colateral ‘stand-by letters of credit’ emitidas pelo BESA e operações relativas a cartas de crédito abertas em Angola a favor do BES, tendo como garante o BESA”. Deste conjunto de devedores, três entidades estão incluídas na amostra das operações analisadas pela Deloitte e continuavam, até ao final de 2018, a ser devedores do Novo Banco.

 
Ao mesmo tempo, o BES não terá controlado a situação do BESA. “Não foram obtidas evidências que permitissem verificar a monitorização por parte do BES relativamente ao risco associado ao BESA, nem a esforços efetivos e robustos no sentido de recuperar, junto do BESA, as garantias existentes”, refere a Deloitte.

Este tipo de operações, relata a auditora, teve um “incremento significativo de exposição” nos últimos três anos de vida do BES. A exposição do grupo aos três devedores identificados passou de 216 milhões de euros em 2011 para 454 milhões em agosto de 2014.

Em 2017 e 2018, o Novo Banco acabou por reduzir significativamente esta exposição, mas com perdas avultadas. Num dos casos, foi implementado um plano especial de revitalização ao devedor em causa; noutro, o banco anulou “qualquer expectativa de recuperação”. Feitas as contas, até ao final de 2018, o Novo Banco tinha registado perdas de 194,4 milhões de euros com estas operações, mas conseguiu também reduzir a exposição a estes devedores para 172 milhões de euros.

A resolução do BESA acabou por criar “dificuldades na recuperação das garantias existentes por parte do Novo Banco” e, no fim, “o Novo Banco não obteve qualquer recuperação de crédito diretamente relacionada com estas garantias existentes”.

Anos de más práticas

O caso do BESA é apenas uma das práticas de gestão identificadas pela Deloitte. Seja nas operações de crédito, seja nas operações realizadas por subsidiárias, são vários os casos de má gestão ao longo de vários anos no BES.
 
No caso do crédito, a auditoria aponta para a existência de um modelo de “governance” com várias “fragilidades”, que levaram à concessão de crédito sem que existisse informação suficiente sobre os devedores, o risco das operações ou as respetivas garantias.

Já no que diz respeito às operações realizadas pelas subsidiárias do Banco Espírito Santo, a auditoria identifica, entre outras práticas, investimentos realizados sem que estivessem “devidamente suportados” ou sem que existisse qualquer análise prévia a essas operações. São exemplo disso as aquisições parciais do BES V e BES Vida a partes relacionadas do BES.

 
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