Todos os caminhos vão dar ao MPLA
23-09-2020 | Fonte: Negócios ( Celso Filipe )

Angola atravessa um período catártico que se materializa numa descarga emocional e até em algum espanto. A decisão da Procuradoria-Geral de Angola de congelar as contas e apreender os bens de Irene Neto, filha do primeiro Presidente pós-independência, Agostinho Neto, lança uma poderosa sombra sobre a história recente do país e os seus líderes.

Esta decisão surge na sequência de as autoridades suíças terem congelado uma conta de 900 milhões de dólares de Carlos São Vicente, marido de Irene Neto, o qual viu também a apreensão de 49% das participações sociais da AAA Ativos, no Standard Bank de Angola. Pelo caminho, o gestor foi constituído arguido por suspeita dos crimes de peculato, participação económica em negócio, tráfico de influência e branqueamento de capitais.

É claro que Agostinho Neto, há muito falecido, não pode ser responsabilizado pelos alegados atos da filha. Mas também é evidente que o apelido Neto acarreta uma herança de retidão que agora foi estuprada.

Assim, num curto espaço de tempo, os filhos dos dois únicos Presidentes de Angola, Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, veem-se envolvidos em problemas com a justiça. Primeiro foi José Filomeno dos Santos, condenado a cinco anos de prisão pelos crimes de burla e defraudação, peculato e tráfico de influências, a seguir Isabel dos Santos, acusada de desvio de fundos públicos que se encontra numa espécie de exílio forçado e tem clamado insistentemente por inocência, e agora Irene Neto.

A perceção que se densifica é a de que os filhos dos heróis da luta de libertação puseram um gigantesco ponto de interrogação à frente de um dos lemas verbalizados por Agostinho Neto: “O mais importante é resolver o problema do povo.”

“Negociatas de bastidores e dívidas colossais”

“Cada dia que passa se vai tomando conhecimento de manobras e negociatas de bastidores que não podiam permitir a realização do sonho da independência, de bem-estar e melhoria de qualidade de vida dos cidadãos, por maior que fosse a vontade política manifestada nesse sentido.

Os desvios são colossais, superiores ao PIB de muitos países e com crateras dessa magnitude era quase impossível termos um país funcional e com as instituições a exercerem o seu papel, dentro do respeito pelo Estado democrático de direito”, constatou Victor Silva, diretor do Jornal de Angola, num artigo publicado a 20 de setembro.

Todavia, existe uma outra dimensão deste problema que não pode ser descartada. Todos os desvios “colossais” põem em causa o MPLA e a forma como o partido, por incúria, desconhecimento ou cumplicidade, lidou com estas situações lesivas do Estado. Em última análise, o que está em causa é a sobrevivência do MPLA enquanto partido do poder.

É também por isso que o desafio do Presidente da República, João Lourenço, se densifica. Já não tem apenas de mostrar que o seu Governo é diferente, mas também de construir um novo MPLA que seja capaz de resistir à erosão provocada por sucessivos escândalos. Será capaz?

 

 
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