Petróleo: Analistas já olham para 80 USD por barril
07-06-2021 | Fonte: Novo Jornal (Ricardo Bordalo)

O barril de petróleo Brent, o mercado de referência que determina o valor médio das ramas exportadas por Angola, atingiu na semana passada o valor mais alto em mais de dois anos, chegando aos 71,89 USD na sexta-feira, 04 e os analistas mais optimistas, apesar de a medida estar hoje com perdas ligeiras, já olham para a fasquia dos 80 dólares, antecipando que esta possa ser alcançada em poucos meses.

Na semana passada os mercados ignoraram o elefante na sala, que é a quase certa chegada do Irão, um dos maiores produtores do mundo, com capacidade para chegar aos 6 milhões de barris por dia (mbpd), ao mercado, o que pode anular de forma relevante o equilíbrio conseguido pelo programa de cortes em curso pela OPEP+ (OPEP e Rússia) e ainda o impulso gerado na procura pelo importante sucesso no combate à pandemia em algumas das mais importantes economias globais, como a dos EUA, da Europa e da China, e a Índia a dar sinais positivos sobre a crise que atravessa há largas semanas com sucessivos recordes em número de casos e de mortes pela infecção.

Com a procura a crescer devido ao esmorecer da Covid-19, e com a OPEP+ a resistir aos apetites do aumento da produção para, de forma conservadora, garantir que mantém o controlo dos mercados de forma segura, estes gostaram e atingiram níveis que há muito não se viam, pelo menos desde Maio de 2019, mas foi ignorada a questão do retorno do Irão ao negócio.

As negociações entre o Irão e os EUA para que Washington levante as sanções que estão a impedir que o crude iraniano chegue aos mercados, decorrem em Viena e em causa está o programa nuclear de Teerão.

Como este é o tema que vai, nas próximas semanas, merecer a atenção geral no sector petrolífero, vale a pena recordar o que está em cima da mesa:

Em 2015, era Presidente dos EUA Barack Obama, este, em conjunto com a China, Rússia e países da União Europeia, assinaram um acordo que garantia a suspensão dos avanços no programa nuclear do Irão em troca da abertura dos mercados ao crude iraniano.

Teerão manteve os termos do acordado mas Washington não, porque, entretanto, Obama deixou a Casa Branca e ali chegou Donald Trump, que rapidamente anulou unilateralmente o acordo nuclear, repondo as sanções, obrigando a que o 4º maior produtor da OPEP fosse obrigado a recolher as mangueiras.

Agora, com a chegada de Joe Biden, que era o vice-Presidente de Obama em 2015, foram retomadas as negociações com o Irão para que este possa voltar a exportar crude desde que volte a suspender o enriquecimento de urânio, o elemento radioactivo que está na base da produção nuclear iraniana que Teerão garante ser apenas para fins civis.

Para já, ao que tudo indica, segundo relatam as agências que seguem ao minuto as negociações de Viena de Áustria, apesar de alguns impasses, que resultam da exigência de garantias de parte a parte, tudo parece estar alinhado para que o petróleo do gigante do Golfo Pérsico volte aos mercados.

Para que isso sucede, Teerão - que não deixou de cumprir o que fora acordado em 2015 - quer certezas de que o que vier agora a ser acordado não volta a ser anulado se houver uma mudança na Presidência dos EUA, enquanto Washington, entre outras exigências, quer estreitar o potencial de produção de material radioactivo enriquecido de forma a, também, ir de encontro aos receios dos países da região com relações azedas com o Irão, especialmente Israel e a Arábia Saudita.

Certo e seguro é que, quando essa abertura for concedida, o Irão - que tem eleições Presidenciais em Julho e isso pode retardar uma decisão - pode fazer chegar até 6 mbpd ao mercado, na sua máxima capacidade, embora, no imediato, os analistas apontem para que esse fluxo se fique, nos primeiros meses, entre os 500 mil e os 1,5 mbpd.

Seja como for, esse volume de petróleo fresco nos mercados pode gerar desequilíbrio e obrigar a OPEP+ a reajustes nos seus planos de recuperação da produção que, neste momento, estão apontados a mais 350 mil bpd em Maio, outros tantos em Junho e 400 mil bpd em Julho, levando a que os cortes passem, com os ajustes feitos antes, dos quase 8 mbpd no início de 2020, com a eclosão da crise pandémica, para perto dos 5 mbpd previstos para o início de Agosto próximo.

Para primeiro efeito deste assomo iraniano aos mercados da matéria-prima está a verificar-se, perto das 10:30 de Luanda, uma ligeira perda de 0,79%, face ao fecho de sexta-feira, para os 71,32 USD, referente aos contratos de Julho.

Apesar de Angola ser um dos países produtores para quem estas semanas passadas com os mercados em alta foram mais benéficas, devido à sua crónica dependência da exportação de crude para o equilíbrio das contas públicas, as ameaças são muitos no virar da esquina do futuro.

A ameaça sobre Angola...

... mantém-se no horizonte, dando continuidade a um ciclo negativo que começou em 2014, quando o barril caiu para baixo dos 100 USD, chegando a menos de 30 dólares em 2016, o que gerou uma sucessão de acontecimentos, desde o desinvestimento das "majors" à perda de vigor dos poços activos, a uma menor pesquisa por novas reservas...

O que conduziu inevitavelmente a que Angola fosse relegada para o 3º maior produtor africano de crude quando ainda há meia dúzia de anos estava no topo dos produtores no continente, perdendo para a Nigéria, o histórico rival, e para a Líbia, um país dilacerado por uma guerra civil de mais de uma década.

A produção angolana chegou mesmo, nestes dias, a baixar para pouco mais de 1,1 mbpd, antecipando as piores previsões da AIE que estimava em 2019 que Angola estivesse a extrair do seu offshore 1,29 mbpd em 2023, estando agora a níveis de 2006.

Com o surgimento da pandemia da Covid-19, os esforços em curso para impulsionar a produção nacional foram por água abaixo e as multinacionais a operar em território angolano optaram por colocar quase tudo em stand by, retirando pessoal técnico, parando o escasso investimento em curso, a ponto de ultimamente não estar activa nenhuma plataforma de perfuração, por norma eram entre quatro a seis navios de pesquisa (drillship) nos mares de Angola.

Apenas a Total e a ENI mantiveram a chama acesa com projectos em curso que atenuaram ligeiramente os efeitos da debandada sentida no sector em Angola, apesar dos esforços do Executivo para criar um ambiente legislativo e de negócios mais amigo dos investidores.

O que sobressai neste contexto é que Angola acabou por perder quase metade da sua produção tendo em conta que em 2008 o País estava muito próximo de atingir os 1,9 mbpd, insuflado pelo boom nos mercados que estavam a comprar o barril de Brent, nesse ano, em Junho, a 147 dólares, um recorde histórico.

Esta quebra, que é de 40% no mínimo, tendo em consideração os valores de há uma década, é um reflexo notório de anos de desinvestimento no País pelas multinacionais, sendo que, numa realidade global adversa aos hidrocarbonetos, onde a transição energética para as energias renováveis, forçada pelo Acordo de Paris, coloca, cada vez mais em evidência que o petróleo está à beira de perder importância.

E isso leva ainda, como alguns analistas têm sublinhado, a que as petrolíferas apostem mais onde o breakeven é mais baixo, como o Médio Oriente, com o barril a sair do chão a uma média abaixo dos 8 USD quando em países como Angola esse valor pode subir acima dos 20 USD.

O alerta da Carbon Tracker

Alias, um estudo internacional recente, elaborado pela iniciativa Carbon Tracker, aponta Angola como um dos países mais vulneráveis ao processo global de descarbonização da economia por razões de protecção climáticas que se traduz mesmo no desinvestimento das petrolíferas no sector para investirem nas denominadas energias limpas.

Este estudo denominado "Beyond Petrostates" nota que Angola enfrenta, até 2040, um défice de receitas na casa dos 76%, o que coloca o País na linha da frente das maiores vítimas deste processo planetário de substituição do petróleo como grande fonte energética mundial, o que exige de Angola um redobrado empenho na diversificação da sua economia.

O estudo diz isso mesmo, que os países nestas condições estão obrigados a definir políticas fortes de substituição de fontes de rendimento sob risco de enfrentarem dificuldades devastadoras para o seu futuro.

Para exemplificar esse abismo que têm pela frente, o estudo revela que as quedas das receitas nos próximos anos vão ser superiores a 13 mil milhões de dólares.

A Carbon Tracker é um think tank financeiro independente que desenvolve análises detalhadas e aprofundadas sobre o impacto da transição energética nos mercados de capitais e no potencial investimento em combustíveis fósseis.

Ainda assim...

A produção nacional média em 2020 foi de 1,22 mbpd, evidenciando o constante declínio devido ao desinvestimento das "majors" a operar no offshore nacional, especialmente a partir de 2014, quando se verificou uma quebra abrupta do valor do barril, que passou de mais de 120 USD para menos de 30 dois anos depois, em 2016.

As exportações de petróleo e gás de Angola caíram 7,26% no ano passado, para 18,2 mil milhões de dólares, resultantes das vendas de 446 milhões de barris de petróleo e gás equivalente.

Estes valores condizem com a exportação de 446 milhões de barris de petróleo e gás, avaliados num preço médio de 41,8 dólares por barril, segundo números fornecidos pelo director do Gabinete de Estudo Planeamento e Estatística do Ministério dos Recursos Naturais e Petróleo, Alexandre Garrett, citado na página oficial do MIREMPET.

Isto compreende ainda a exportação média de 1,22 milhões de barris por dia, consubstanciando uma diminuição de 7,2% em relação a 2019, mostrando uma continuada perda anual da produção nacional.

Apesar das mudanças substanciais na legislação referente ao sector e às alterações profundas nesta indústria decisiva para o País, a produção afasta-se cada vez mais dos patamares que se viram no passado.

Para já, com o barril na casa dos 68 USD, o Executivo de João Lourenço conta com uma folga de cerca de 29 USD em cima dos 39 USD que foi o valor usado como referência para a elaboração do OGE 2021, o que permite encarar com maior optimismo esta saída esperada da crise mundial, apesar dos fortes constrangimentos que a economia nacional enfrenta.

O crude é ainda responsável por mais de 94% das exportações angolanas, mais de 50% do PIB e representa 60% das receitas do Executivo para poder gerir as necessidades da governação, o que, face a uma lenta e demorada diversificação da economia nacional, se traduz numa mais optimista entrada no novo ano e nova década do século XXI.

E no que respeita ao futuro breve, o sector exige reflexão e claramente uma forte aposta na diversificação da economia, porque, como é hoje já consensual, o petróleo não tem muito mais tempo como principal combustível da economia mundial.

 
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