Optimismo regressa no seio dos empresários seis anos depois
14-03-2022 | Fonte: Jornal Mercado

Apesar da evolução positiva os empresários enfrentam constrangimentos como a insuficiência da procura, dificuldades financeiras, excesso de burocracia, regulamentações estatais, dificuldade na obtenção de créditos bancários bem como a falta de mão-de-obra especializada.

A classe empresarial está optimista quanto à perspectiva da economia nacional no curto prazo, depois de permanecer cerca de 25 trimestres (mais de 6 anos) em terreno negativo, revelam o indicador de Conjuntura Económica às Empresas do IV trimestre de 2021, recentemente divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

No IV trimestre do ano passado, o Indicador de Clima Económico (ICE) fixou-se em 1 ponto, ou seja, os empresários que tinham perspectivas positivas sobre a evolução da economia no curto prazo excediam aos com perspectivas negativas em 1 ponto percentual. O ICE melhorou 3 pontos ao sair de -2 pontos no terceiro trimestre para os referidos 1 ponto no último trimestre de 2021. Para o economista Heitor Carvalho, na base deste optimismo estiveram factores como o aumento do preço do petróleo, bem como o incremento de 26% do rendimento produzido no País (em USD deflacionados) até ao terceiro trimestre de 2021.

De acordo com os números do INE, o ICE começou a descer no quarto trimestre de 2014, penalizado pela descida do preço do petróleo. Entrou em terreno negativo no terceiro trimestre de 2015 e no segundo trimestre de 2016 o indicador fixou-se nos 34 pontos negativos, o valor mais baixo desde que há registos. Depois de várias quedas, seguiu-se uma recuperação até aos -4 pontos no quarto trimestre de 2019 e nova descida para um mínimo de 24 pontos negativos no terceiro trimestre de 2020, face à COVID-19.

No último trimestre de 2020 o pessimismo voltou a baixar, mas em 2021 o ICE evoluiu positivamente em comparação com o período homólogo e passou a situar-se acima da média da série e em terreno positivo. O também director do Centro de Investigação Económica da Universidade Lusíada de Angola (Cinvestc), defende que enquanto os rendimentos crescerem, impulsionados pelo fim das restrições impostas pela COVID-19 e a conjuntura político-militar que está a determinar os preços do petróleo, a confiança dos empresários continuará a aumentar. Os empresários, segundo o INE, apontam a insuficiência da procura, dificuldades financeiras, excesso de burocracia, regulamentações estatais, dificuldade na obtenção de créditos bancários bem como a falta de mão-de-obra especializada como principais constrangimentos para o desenvolvimento da actividade empresarial.

O ICE é a média dos indicadores de confiança dos gestores e empresários dos sete sectores abrangidos pelo inquérito de Conjuntura Económica às Empresas, nomeadamente a indústria extractiva, indústria transformadora, construção, comércio, comunicação, turismo e os transportes. No período em análise registou-se um empate entre os empresários do sector da comunicação e os do comércio em que os optimistas vencem os pessimistas.

O sector do comércio passou de 13 para 15 pontos já a comunicação passou de 16 para 22, sendo os mais favoráveis. Depois de sete trimestres em terreno negativo, a indústria extractiva saiu de -1 ponto para 2 pontos no quarto trimestre de 2021. Desde que o indicador começou a ser calculado neste sector (primeiro trimestre de 2011), a confiança começou a cair no segundo trimestre de 2014.

No primeiro trimestre de 2015 o indicador entrou em terreno negativo, mas foi no mesmo período de 2016 que atingiu o valor mais baixo, 31 pontos negativos. O indicador começou a recuperar no primeiro trimestre de 2017, chegou a -2 pontos no terceiro trimestre de 2017. Voltou a cair com sucessivas recuperações, tendo saído do terreno negativo no primeiro trimestre de 2019, no mesmo período de 2020 volta a fixar-se em terreno negativo, onde permaneceu durante sete trimestres. O indicador de confiança na indústria extractiva voltou a fixar-se em terreno positivo.

Os mais pessimistas

O sector do turismo passou de -16,7 pontos no terceiro trimestre de 2021 para 10,4 pontos negativos, os empresários e gestores deste sector estão menos pessimistas sobre a evolução da economia angolana quando comparado com o trimestre anterior. “O Turismo esteve praticamente fechado pela pandemia, pelo mau estado das estradas e os preços das viagens por avião. A situação da pandemia melhorou, mas os restantes factores não melhoraram e continuamos a manter uma política muito restritiva para quem entra no País”. O sector turístico necessita de ajuda para sair da crise, disse Heitor Carvalho.

A insuficiência da procura e as dificuldades financeiras foram os principais constrangimentos apontados pelos empresários do sector no trimestre em análise. O excesso de burocracia, a insuficiência da capacidade de oferta e as dificuldades em encontrar pessoal com formação apropriada, também constrangeram as actividades das empresas.

A construção, o segundo sector mais pessimista, saiu de -11 para -10 pontos. O indicador encontra-se em terreno negativo desde o primeiro trimestre de 2010, tendo atingido o mínimo de - 74 pontos no quarto trimestre de 2015 e o máximo de 59 pontos no primeiro trimestre de 2009. Mais empresas (92%) tiveram constrangimentos ao desenvolverem as actividades no quarto trimestre de 2021, um aumento de 2 pontos percentuais (p.p)quando comparado com o período homólogo de 2020.

A taxa de juro, a insuficiência da procura e a falta de materiais, foram as principais limitações. As dificuldades na obtenção de créditos bancários, o excesso de burocracia e regulamentações estatais, também limitaram as actividades das empresas no sector da construção. A par destas, Heitor Carvalho acrescenta a lei de propriedade fundiária e a legalização de terrenos e casas.

 
Comentários
Quer Comentar?
Nome E-mail ou Localização
Comentário
Aceito as Regras de Participação